Não saber: um convite para a aventura evolutiva

A união entre as pessoas não se faz apenas a partir do que se conhece. Mais do que nossos saberes, podemos comungar a nossa ignorância, pois, desse modo, podemos nos auxiliar uns aos outros a melhor nos conhecermos.

E a consideração sobre o  saber não saber, a douta ignorância, pode criar vínculos de escuta, pode dissipar o véu das supostas certezas, pondo a perigo os proprietários das verdades, sempre fechados ao novo e à existência da diversidade.

O momento que atravessamos pede uma atitude que resista ao  preconceito em relação ao diferente, ao desconhecido, pois há sempre maneiras estrangeiras de aprender, desgarradas dos nossos usuais registros, convenientemente acolhidos e encolhidos pela rotina das horas e das velhas crenças…

Além disso, o compartilhar do não-saber tem a virtude de abrir as janelas das nossas visões para horizontes existenciais distintos, tornando-nos pessoas-pontes, as quais se permitem a emergência de novos conhecimentos e práticas para um existir renovado.

Trata-se tanto de facilitar a abertura para o diverso, como se permitir a travessia do conhecido e testado em direção ao desconhecido e não-experimentado, porquanto essa atitude colabora com a emergência de desafios e novidades que podem evitar, principalmente, a estagnação evolutiva.

O compartilhar do não-saber traduz, em si mesmo, uma alternativa para o não esclerosar, à medida que põe em prática o resgate da vastidão da alma.

Ora, a vastidão da alma é mantida, principalmente, por saberes conquistados e pelo não saber. Mas, este último, um convite para a aventura evolutiva, depende de um sujeito que reconheça humildemente que ninguém aprende sozinho, pois o aprendizado qualitativo (que transcende as regras do paradigma cartesiano)  é conduzido pela arte do encontro

Eugênia Pickina – Palavra Terra

 

Notas de um viageiro

Não eu, não eu, mas o vento que sopra através de mim. D. H. Lawrence

Não podemos predizer, nem advertir sobre o que é certo para a vida de alguém.

Para alguns, a fidelidade a um propósito particular é algo que deve ser honrado, sofrido, até alcançar uma realização significativa; para outros, o propósito é negligenciado, contaminado por alguma fixação (interna ou externa) que estanca o autodesenvolvimento, causando desequilíbrios e aflições.

Sabemos que somos dirigidos internamente por um Navegador – a alma e seus eventos  que nos compelem a seguir adiante para dar cumprimento aos aspectos diversos de nossos dons e potências. E quando aceitamos a presença desse Navegador, somos instigados a tornar o viver mais rico e mais honesto, ou seja, menos doloroso e menos contaminado pelas ilusões (as pedras) do caminho.

Porém, caso o sujeito recuse as intimações que são sussurradas pelo Navegador, distribuídas em sonhos ou em situações que se repetem, será puxado para baixo, ou seja, levado a contragosto para o mundo subterrâneo – e a depressão, por exemplo, poderá contê-lo em limites muito estreitos, minando a alegria, a esperança e os recursos criativos que auxiliam o conduzir da viagem…

O que nos bloqueia ou confunde? Quase sempre é o medo, o antagonista que se opõe à conquista da autonomia, que incentiva o retrocesso, a queixa renitente que torna a vida sem motivo, ou, mais grave, desviada da sua meta essencial.

Como a tendência forte da nossa época é a despersonalização, a força que nos estimula à realização do propósito essencial está aparente, sem dúvida, na mais humilde das vidas, sobretudo naqueles que acordam exaustos e saem para trabalhos exploratórios para poder sustentar suas famílias. Ora, quem quer se levante para fazer o que tem de ser feito, comunga algo valioso com todos nós.

Desse modo, na contramão da nossa sociedade narcisista e superficial, que transfere  o status de heróico aos astros de cinema, às celebridades de todos os tipos,  o  protagonista do próprio destino é aquele que busca expandir seus dons, vencendo a si mesmo e ajudando a modelar os grandes atos (normalmente anônimos), que irradiam tanto a alteridade como a solidariedade – diretivas para o bom desenvolvimento da individualidade junto à coletividade.

Eugênia Pickina – Palavra Terra

Desejo e presente

Podemos viver.

Viver o presente que não cessa de mudar e continuar. Sim, pois o presente é o lugar que existe para nós. Mas, com frequência, não nos damos conta disso e, em diversas situações, ou somos enovelados pelo passado (nostalgia), ou deslocados  pela ânsia com o amanhã (preocupação).  

Nada disso, o ser em ação, na ação de ser, irradia sua expressão apenas no aqui e agora, única forma de habitar a dimensão da realidade, associada à verdade.

Assim, podemos viver o presente e com desejo.  Mas seria o desejo entendido como falta?

Não, o desejo como potência, segundo a expressão de Espinosa, e, desse modo, desejar o que está diante de nós, e não fora ou à mercê de nós. Isso significa, simplesmente, transformar o desejo em prazer, cultivá-lo, fazê-lo durar e renascer, abrindo-se à capacidade de se encantar com a força de amar e desfrutar, com alegria, o que se coloca disponível para nós.

Nossos momentos de felicidade são aqueles em que desfrutamos daquilo que temos, a ponto de, por vezes, nada esperar do outro. Logo, sem complicação, ser feliz pode implicar nada esperar e tão-somente fazer a nossa parte e, com esperança, caminhar o caminho.

Não paramos de mudar, eis o fato. E se não somos pessoas sábias, temos nossos momentos de sabedoria e podemos gozar o gosto de sentir a bem-aventurança de estar vivo e, por isso, iluminar-se à medida que se deseja bem existir…

Vagar como a rosa e com aqueles que conhecemos, porém sem esconder-se do que não conhecemos. Deixar-se, então, lançar as âncoras e em meio ao Sol, seguir viagem para como o ouro purificar-se, sem se perder, pois o percurso, longo ou curto, é razão de encontros, segundo a meta do amor que nos põe a degustar beijos e realidades diversas, ecos do interior do Invisível.

Assim, o presente basta. E se houver “um dragão no caminho, usa o amor como esmeralda que o verde brilho nos salvará do monstro” (Rumi). No mais, degusta para tecer, a cada dia, a passagem de uma história edificante.

Eugênia Pickina – Palavra Terra

Balanço

A vida, a prosa e a poesia transcorreram este ano como um riacho que provou das estações.

O escrever não rechaçou nada do que pôde garimpar em sua peneira de palavras, incrustadas no coração dos outros, à mercê da paciência da ação que reúne, arrisca e crê nos mistérios. Cumprimos a aventura, suspeito, embora tenhamos às vezes sofrido o desalento, o erro, o aprendizado, ou seja, vivido, nas trevas e nos espaços abertos, a nossa humanidade, que ainda é ensaio.

Poderia, por atrevimento, dar escuta à melancolia, pois, para abrir passagem, é preciso dirigir um olhar profundo para o que foi e se acumula no passado. Mas, não faremos desse modo porque a luz brusca da mudança impede a nostalgia multiplicar os desvarios de uma existência; então, se pôr em marcha.

Em cada época sentimos a presença do ódio, intolerância, amarguras e medos, fracassos e vitórias solitárias (estas duas são impostoras). Contudo, o canto do amor acompanhou os agonizantes, os fracos, os humildes, acalentou os poderosos e os indiferentes como uma tentativa (válida) de brotos à espera de fixar raízes… Ora, sabemos: há aqueles que podem sair das ilhas e afastar as brumas. Outros, ainda não. E mesmo assim o amor resiste.

O convite: abrir os olhos para dar sustento a quatro coisas preferidas: uma é a brandura quente e sem fim do amor; outra é arrastar-se ao inverno e conhecer o frio silvestre que esconde a chave no baú de gelo branco; outra é contar com a primavera e suas flores redondas; outra é o verão cálido das frutas cítricas e da chuva fina esvoaçante. Quanto ao outono, ele existe interestação e suas folhas são intermináveis…

Agora, caso haja a disposição do querer, no verão, podem viver dentro de si a luz, sair do escuro, pois a noite seguirá suas estrelas e o Sol espera sempre no campo para viver outro tanto…

Isso é tudo por hoje, pois o ano finda… E a Alma se alegra em havê-lo vivido, pois já não somos os mesmos.

Eugênia Pickina – Palavra Terra

A aventura de Ser

O que importa é que o caminho tenha um coração – Dom Juan/Carlos Castaneda

Humanizar-se é uma aventura endereçada à luminescência do Ser.

E essa aventura pode ter início através da mudança do olhar, quando a paz tem a oportunidade de perdurar caso paremos de negar a nossa realidade atual cheia de imperfeições, pois o Self, que emerge do ego, um dia se manifestará plenamente, como a borboleta da lagarta.

Talvez uma atitude que ajude a agenda dessa aventura seja a  adoção de não levar nada muito a sério. Em seguida, buscar enxergar o que há de positivo nos outros e a sombra em si mesmo, mas sem deixar de se ligar ao bem e ao belo que se desdobram em todas as situações.

Às vezes, em dias nebulosos, muitos reclamam a falta do sol. Mas, na realidade o sol está sempre presente. Então, a tarefa ordinária de cada dia é procurar ver além e não se deixar reter  pela circunstância temporária da falta ou da impressão (enganosa) da falta, pois tudo passa e é da essência florescer.

Sem dúvida, humanizar-se implica liberar-se das cadeias das normas parentais, sociais e culturais porque a liberdade é o grande desafio. E será essa liberdade que alimentará o roteiro aberto e criativo da originalidade, rompendo com as malhas convidativas, pois aparentemente mais fáceis, do jogo da inautenticidade e do já conhecido.

A escuta do Cristo no interior de nós mesmos também coopera com o discernimento adequado a cada instante e evita o estancamento do devir, dos que deixam de investir nos talentos que receberam da própria vida, porquanto essa voz interior exige fidelidade e ousadia, embora paradoxalmente dependa de atitudes inclusivas, colhidas na vida de relação.

Humanizar-se provoca uma pergunta: que tipo de felicidade buscamos?  Frequentemente confundimos felicidade com segurança, pois se o pão é necessário, o ser humano não é somente o homo economicus… Somos carentes de outras qualidades e sentimos urgência de amor, amizade, compaixão, de um caminho evolutivo, que nos leve a conspirar pela inteireza do projeto humano – eis a grande aventura pessoal e coletiva.  

Eugênia Pickina – Palavra Terra

Vida e sabedoria

Lutamos para proteger as baleias, os pandas, os gorilas. Ninguém negaria a importância disso. Desse modo, toda vida é recebida, pois fato é que o humanismo e a ecologia são próprios do homem que, gradativamente, busca melhorar-se – não somente segundo os critérios da ciência, mas também da ética e da justiça, virtudes que reclamam uma moral harmonizada a “um dever geral de humanidade”, como sublinhado por Montaigne.

E se “somente os humanos podem ser desumanos”, nas palavras de Comte-Sponville, nos cabe o dever de fazer do homem outra coisa: “fazer bem o homem”, na sugestão de Montaigne, pois somos (nós mesmos) a nossa tarefa.

Ao menos, suponho, o milagre da vida deveria nos tornar alegres e gratos. Ademais, isso nos tornaria exigentes para perceber que não nos cabe desperdiçar a dádiva do nascimento e, em consequência, um primeiro compromisso: não sermos indignos em relação ao viver e, por isso, fazer-se para humanizar-se.

E se nascer não é uma diversão, tampouco seria inteligente percorrer de forma desinteressada (ou ressentida) o itinerário da existência. Com frequência, por causa dos destemperos e encargos da rotina, somos desvinculados do bem-querer da vida que flui ao nosso redor e, distraídos, deixamos de escutar o coração, deixamos de corresponder aos lampejos de nossos sentimentos mais profundos – nesses casos, perguntaria a nós o Mestre: onde está o teu tesouro?

Muitas pessoas que atingiram metas terrenas expressivas se esquecem, em algum ponto do caminho, do significado mais precioso (e durável) que reveste as diversas encruzilhadas da existência. No fundo, nossas pretensões, particulares e sociais, para nos ajudarem a progredir, precisariam ser irrigadas pelo espírito de humildade e por um desejo sincero de compartilhar. E todo o resto, sem dúvida, seria acrescentado.

Sofrimento? Eis a biografia de Jó: despido de equívocos, mas atado ao sofrimento. Isso implica dizer que o sofrimento simplesmente existe porque faz parte da vida. Mas, se prestarmos atenção à narrativa, ela nos ensinaria que as provações pelas quais Jó passou o transformaram num homem melhor, mais humanizado, mais amadurecido.

E se talvez não tenhamos que enfrentar as tragédias extremas que afetaram Jó, deveríamos reter o motivo condutor de seu roteiro: uma confiança profunda que, enraizada na fé e na vida, certamente lhe forneceu as forças para prosseguir, ainda que atingido pela dor, suas urdiduras e estranhas perdas…

Jó fez a sua travessia, pois é isto o que o sofrimento nos solicita, ou seja, que o atravessemos. E, na condição de seres em evolução, ele, o sofrimento, nos humaniza, nos faz mais compassivos, mais indulgentes – requisitos indispensáveis à sabedoria, que dá ao ser humano, em passagem, amor pela vida.

Eugênia Pickina – Palavra Terra 

Impreciso (e alegre) viver

2347580382_5104f6a767_oA  falta de alegria se cristaliza no hábito do girar em círculos, o que faz a alma adoecer, pois ela deseja abrir-se à transparência de qualquer circunstância que se anuncia.

É preciso caminhar o caminho. É preciso singrar rumo ao esperado que dá oportunidade ao inesperado, pois há em nós uma abertura para a boa qualidade de nossas forças criativas.

Como sou quando estou a sós? Não há outro meio: precisamos explorar o que nos falta, mas dando rumo ao que nos preenche, mesmo que isso cause medo, pois essa permissão faz colapsar a turgescência.

E como a qualidade de (re)inventar é nossa natureza essencial, por que sentimos medo? Em algum instante nebuloso perdemos a confiança essencial, asfixiada no “primeiro medo”, enterrado em terras submersas, e passamos a viver segundo a trama da mesmice, influenciada pelo jogo, inglório, do padrão e do descaso com a própria originalidade.

Arrisco: nossa vida vale pelo novo olhar que pomos nela. Por esses olhares renovados podemos redimensionar nossa verdadeira face, sem o cansaço das máscaras, tediosas, pois repetidamente testadas, o que consuma em nós a falta do encanto.

O autodesenvolvimento é solícito a um modo de vida que seja baseado no testar das aptidões, mas também nos erros e experimentos que as partilhas possibilitam, pois essa flexibilidade, em si mesma, é capaz de aprofundar nosso amor por nós mesmos.

Rollo May afirma que “amar significa essencialmente dar; e dar exige maturidade no conceito de si mesmo”. Essa exigência, por sua vez, liga-se à consolidação da autovalorização, tecida, sobretudo, pela vida de relação…

E se o reino de Mefistófeles é o reino da ilusão, toda circunstância que a vida desdobra dá condição para ser apreciada, nunca para dar guarida ao fugir nem fingir: e dela devo dispor para viver como se fosse, sobretudo, eu mesmo.

O presente pode ser fecundo, pode ser eivado de mistérios… Já dizia Quintana, no seu Baú de Espantos: “Não desças, não subas, fica. O mistério está é na tua vida! E é um sonho louco este nosso mundo…”

Então, não ilhado na rigidez das horas, dê vazão a si mesmo – para o interior e o exterior. Permita-se fluir como um rio, que não pode parar. Alegremente, cativa o amor  e não represa o espanto emerso do impreciso viver…

Eugênia Pickina – Palavra Terra

Contrametáforas

ventoUma das mudanças principais alavancadas pela modernidade é a cisão mítica com o cosmos ou às dimensões do Mistério. Segundo Jung, as encarnações do significado, antes oferecidas pelos mitos e ritos, recuaram do Olimpo para o plexo solar, dando surgimento às existências neuróticas, superficiais e à árida sensibilidade dos modernos.

É claro que não podemos, enquanto civilização, recuar no tempo e aceitar o literalismo dos mitos, porquanto é impossível uma atitude inconsciente diante do viver. Assim, somos convidados a tentar uma leitura interna de nosso mundo, pois, do contrário, deixaremos de empreender um discernimento sobre o(s) movimento(s) da alma e as metáforas que dramatizam nossas vidas.

A própria depressão aclara isso.

A depressão leva o sujeito para baixo. Diminui o ritmo, desacelera a atividade mental. Recursos da farmacologia à parte, na depressão somos lançados, segundo James Hillman, no vale da alma… Ela quer nos revelar algo.

Não querer se abrir a isso ajuda a recair no fato de que nosso sofrimento pode se tornar patético, ou seja, inconsciente e disposto a nos fazer vítimas.

E se a nossa psicoterapia e psiquiatria modernas estão reguladas pelo Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, nenhum estudante ligado à área da saúde (acadêmica) aprende, por exemplo, que se o sujeito perde o entusiasmo, o apetite, pode ser uma pista para um Ares reprimido.

Em geral, se há um esforço nobre de se encontrar padrões de comportamento universais e um plano de tratamento que facilite a uniformidade da intenção (recurso de controle), isso pode levar a uma generalização excessiva do indivíduo, convertido tão-só a uma norma estatística e ao continuum (não-desvendado) de seu sofrimento.

Recentemente conversei com uma amiga que estava angustiada por causa da luta com seu filho já adulto, o qual ela ainda protege e sustenta. Exausta pelo prolongamento da maternidade, e isso acrescido por problemas pessoais, ela contou que se via “atacada por uma depressão”. Nitidamente, nela há uma “raiva virada para dentro” e um sentimento de culpa crônica e, por isso, tive que confessar a ela os limites realísticos de seus poderes (em relação ao filho) e pedir-lhe que buscasse ajuda de um médico, mas também de um terapeuta para que entendesse, em conexão com seu mundo interno, qual deusa estava excessivamente constelada

Do mesmo modo que a Psicanálise não é um substituto para a religião (ou para a dinâmica da religiosidade), o modelo médico, por si mesmo, não pode nada prescrever para a cessação da alma ou do seu movimento.

Sem desmerecer o valor de esses saberes e práticas que tratam/promovem a saúde e o bem-estar, o trabalho essencial, penso eu, é assumir a tarefa da individuação e, desafiado pela arena da psique, querer aventurar-se para enxergar de novo ou, criativamente, de novas maneiras.

Eugênia Pickina – Palavra Terra 

Momentos e atitudes inconscientes – vamos mudar?

positive thinkingSim, somos todos seres em evolução, caminhantes e aprendizes de um viver melhor com o outros e – principalmente – nós mesmos. É natural que ainda erremos, mas deve ser ainda mais natural a forma com que aprendemos com os erros e voltamos à quadra quântica. Voltar é necessário.

Quantos de nós ainda não sai do prumo, baixa a frequência, desconecta-se? Com isso quero dizer aquelas atitudes que podem – no começo – passarem despercebidas, como uma posição raivosa logo ao acordar, irritando-se com tudo, desde o passarinho que deixou a sua marca na varanda, o café que respingou na roupa e as notícias “deliciosas” do jornal (que servirão, inclusive, para alimentar esta raiva e seu processo degenerativo ao longo do dia). Não podemos deixar de lado o pessimismo atrator de mais pessimismo. Não, a tal estória do “o segredo” não é bobagem (aos menos na sua estrutura essencial), e os princípios lá discutidos têm plena aplicação no nosso cotidiano, basta prestar atenção. Uma reclamação gera energia para uma segunda reclamação. Um julgamento, dá espaço para mais um julgamento… e quando vemos, lá se foi o bom humor e muitas palavras sobre a vida dos outros, o que deviam e não deviam fazer, etc., etc.

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Interlúdio

van-gogh-vincent-giardino-fiorito-2403792O fim do embotamento (causado, largamente, pela violência simbólica)  seria, arrisco, também o fim da falta de sentido, pois exaustos com este modo de vida, moderno, e em busca de novos renascimentos, teremos de integrar o feminino e o masculino, teremos de valorizar o amoroso encontro.

Se imaginar é ver com o sentimento, a cada dia um aspecto enraizado na visão polarizada nos maltrata e nos convida à mudança, pois o que haverá melhor do que o reconhecimento das diferenças, segundo a totalidade da lógica da alteridade?

Esta velha angústia moderna que já tem séculos… Ela transbordou em tecnologias e (des)razões premiadas, mas que absorveram realidades de nações  e povos com metas amargamente ligadas à dor e ao mal-estar de almas castradas e exploradas.

Saramago alegou: “O mundo esquece tanto que nem sequer dá pela falta do que esqueceu”.

Não sei, mas no meu coração, sintonizado com mares e terras, sinto a alma dos semelhantes em busca de fortalecimentos e proteção arqueticamente articuladas às forças yang e yin, que ensejam trabalho e repouso, ação e acolhimento.

Fernando Pessoa poetou que a “humanidade esquece, sim, a humanidade esquece, mas mesmo acordada a humanidade esquece. Exatamente. Mas não durmo”.

De novo, mas voltados para dentro e em estado de vigília, podemos ruminar o fato de que não há acaso de rua nem de mundo. Tornamo-nos nossas feridas, mas o que amamos também, e podemos reparar o invisível que jorra no visível. Mais: deixar-se conhecer-e-fazer para vastamente sentir e, consequentemente, ser.

Pouco a pouco, então, o efeito de embotar-se será dissolvido, pois representará a ruptura com o ciclo repetitivo de papéis e complexos. E passaremos a abraçar, no lugar de evitar, as múltiplas metas da vida. Desse encontro o resultado será existir, então, desapegado do suposto para viver com mais plenitude o Si-mesmo.

Eugênia Pickina – Palavra Terra

 

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