
Muita distorção tem sido feita em relação a este conceito “da doença como caminho”. Estas distorções, mais uma vez, refletem a uma interpretação mecanicista de um conceito ampliado e holístico. Tudo que uma pessoa doente não precisa é ouvir de alguém uma interpretação superficial e reducionista da possível causa psicológica de sua doença. Principalmente se a sua enfermidade é crônica e de difícil tratamento.
Soa como uma condenação, como uma acusação e induz à culpa. Não se pode mexer na dor de alguém sem muito amor e acolhimento.
Há muitos sentimentos envolvendo o estar doente, e principalmente quando se trata de uma patologia complexa e de difícil tratamento. Na verdade, simplificar uma situação, qualquer que seja, com explicações superficiais, torna-se, muitas vezes, um ato de crueldade e insensibilidade com a dor do outro.
O conceito esboçado no livro “A Doença como Caminho” é um dos mais revolucionários em relação ao tema saúde e doenças. Ajuda ao doente a encontrar um significado para seu estado, a trazer um significado para um fator comum e recorrente na vida das pessoas: a doença, as enfermidades. Isto porque leva em consideração que mente e corpo formam uma unidade, afinal o que ocorre com o corpo reflete aquilo que se passa na mente.
A psiconeuroimunoendocrinologia confirma e explica esta ligação estreita entre corpo e mente. As pesquisas sobre os fatores de estresse, ligadas a neurociências, também confirmam esta ligação.
A tentativa de catalogar e correlacionar doenças e sintomas a estados mentais e emocionais é sem duvida útil, mas não pode ser usada como manual para prescrever uma análise psicossomática. Os manuais são somente guias e indicações a serem refletidos. Carecem de profundidade e não trazem uma contextualização ao achado clínico. Ninguém “cria” um estado de enfermidade porque quer conscientemente isto, a não ser que isto faça parte de um transtorno mental.
O processo de somatização ocorre inconscientemente e está ligado a um contexto e a uma história de vida. Trazer para a consciência esta correlação gera impacto, surpresa e, às vezes, muita dor. Se o individuo não estiver maduro para entrar em contato com esta realidade, o comum é cair na culpa e auto-recriminação.
Neste caso o que deveria ser um fator de libertação acaba se tornado um fator de aprisionamento e agravamento do estado do paciente.
Já basta a dor de estar doente e a falta de esperança que, muitas vezes, acompanha a doença. Não é necessário ainda mais este peso e esta culpa.
Por isso, é preciso cuidado. O indivíduo enfermo pode ser acompanhado nesta reflexão e auxiliado nesta descoberta, porém ela deve ser feita por ele mesmo.
Se esta correlação entre sintomas físicos e estado mental não surge espontaneamente como um insight, o médico, psicólogo ou profissional de saúde precisa de ser cauteloso ao sugerir alguma possibilidade, no sentido de permitir que o indivíduo enfermo negue, caso se ele não sinta como verdadeiro para ele.
Este processo de descoberta compartilhada só pode ser realizado por um profissional de saúde habilitado para tal. Caso contrário, o profissional corre o risco de se tornar não um agente de crescimento e significação, mas um complicador.
Para lidarmos com a dor do outro temos que ser sensíveis e profundamente humanos. Se assim não for, ao invés de agirmos como uma pinça que afasta os tecidos inflamados, movendo o agente da dor, agiremos como um bisturi que corta, insensível, um tecido já comprometido.
Por Flávio Vervloet