A aventura de Ser

O que importa é que o caminho tenha um coração – Dom Juan/Carlos Castaneda

Humanizar-se é uma aventura endereçada à luminescência do Ser.

E essa aventura pode ter início através da mudança do olhar, quando a paz tem a oportunidade de perdurar caso paremos de negar a nossa realidade atual cheia de imperfeições, pois o Self, que emerge do ego, um dia se manifestará plenamente, como a borboleta da lagarta.

Talvez uma atitude que ajude a agenda dessa aventura seja a  adoção de não levar nada muito a sério. Em seguida, buscar enxergar o que há de positivo nos outros e a sombra em si mesmo, mas sem deixar de se ligar ao bem e ao belo que se desdobram em todas as situações.

Às vezes, em dias nebulosos, muitos reclamam a falta do sol. Mas, na realidade o sol está sempre presente. Então, a tarefa ordinária de cada dia é procurar ver além e não se deixar reter  pela circunstância temporária da falta ou da impressão (enganosa) da falta, pois tudo passa e é da essência florescer.

Sem dúvida, humanizar-se implica liberar-se das cadeias das normas parentais, sociais e culturais porque a liberdade é o grande desafio. E será essa liberdade que alimentará o roteiro aberto e criativo da originalidade, rompendo com as malhas convidativas, pois aparentemente mais fáceis, do jogo da inautenticidade e do já conhecido.

A escuta do Cristo no interior de nós mesmos também coopera com o discernimento adequado a cada instante e evita o estancamento do devir, dos que deixam de investir nos talentos que receberam da própria vida, porquanto essa voz interior exige fidelidade e ousadia, embora paradoxalmente dependa de atitudes inclusivas, colhidas na vida de relação.

Humanizar-se provoca uma pergunta: que tipo de felicidade buscamos?  Frequentemente confundimos felicidade com segurança, pois se o pão é necessário, o ser humano não é somente o homo economicus… Somos carentes de outras qualidades e sentimos urgência de amor, amizade, compaixão, de um caminho evolutivo, que nos leve a conspirar pela inteireza do projeto humano – eis a grande aventura pessoal e coletiva.  

Eugênia Pickina – Palavra Terra

Vida e sabedoria

Lutamos para proteger as baleias, os pandas, os gorilas. Ninguém negaria a importância disso. Desse modo, toda vida é recebida, pois fato é que o humanismo e a ecologia são próprios do homem que, gradativamente, busca melhorar-se – não somente segundo os critérios da ciência, mas também da ética e da justiça, virtudes que reclamam uma moral harmonizada a “um dever geral de humanidade”, como sublinhado por Montaigne.

E se “somente os humanos podem ser desumanos”, nas palavras de Comte-Sponville, nos cabe o dever de fazer do homem outra coisa: “fazer bem o homem”, na sugestão de Montaigne, pois somos (nós mesmos) a nossa tarefa.

Ao menos, suponho, o milagre da vida deveria nos tornar alegres e gratos. Ademais, isso nos tornaria exigentes para perceber que não nos cabe desperdiçar a dádiva do nascimento e, em consequência, um primeiro compromisso: não sermos indignos em relação ao viver e, por isso, fazer-se para humanizar-se.

E se nascer não é uma diversão, tampouco seria inteligente percorrer de forma desinteressada (ou ressentida) o itinerário da existência. Com frequência, por causa dos destemperos e encargos da rotina, somos desvinculados do bem-querer da vida que flui ao nosso redor e, distraídos, deixamos de escutar o coração, deixamos de corresponder aos lampejos de nossos sentimentos mais profundos – nesses casos, perguntaria a nós o Mestre: onde está o teu tesouro?

Muitas pessoas que atingiram metas terrenas expressivas se esquecem, em algum ponto do caminho, do significado mais precioso (e durável) que reveste as diversas encruzilhadas da existência. No fundo, nossas pretensões, particulares e sociais, para nos ajudarem a progredir, precisariam ser irrigadas pelo espírito de humildade e por um desejo sincero de compartilhar. E todo o resto, sem dúvida, seria acrescentado.

Sofrimento? Eis a biografia de Jó: despido de equívocos, mas atado ao sofrimento. Isso implica dizer que o sofrimento simplesmente existe porque faz parte da vida. Mas, se prestarmos atenção à narrativa, ela nos ensinaria que as provações pelas quais Jó passou o transformaram num homem melhor, mais humanizado, mais amadurecido.

E se talvez não tenhamos que enfrentar as tragédias extremas que afetaram Jó, deveríamos reter o motivo condutor de seu roteiro: uma confiança profunda que, enraizada na fé e na vida, certamente lhe forneceu as forças para prosseguir, ainda que atingido pela dor, suas urdiduras e estranhas perdas…

Jó fez a sua travessia, pois é isto o que o sofrimento nos solicita, ou seja, que o atravessemos. E, na condição de seres em evolução, ele, o sofrimento, nos humaniza, nos faz mais compassivos, mais indulgentes – requisitos indispensáveis à sabedoria, que dá ao ser humano, em passagem, amor pela vida.

Eugênia Pickina – Palavra Terra 

Impreciso (e alegre) viver

2347580382_5104f6a767_oA  falta de alegria se cristaliza no hábito do girar em círculos, o que faz a alma adoecer, pois ela deseja abrir-se à transparência de qualquer circunstância que se anuncia.

É preciso caminhar o caminho. É preciso singrar rumo ao esperado que dá oportunidade ao inesperado, pois há em nós uma abertura para a boa qualidade de nossas forças criativas.

Como sou quando estou a sós? Não há outro meio: precisamos explorar o que nos falta, mas dando rumo ao que nos preenche, mesmo que isso cause medo, pois essa permissão faz colapsar a turgescência.

E como a qualidade de (re)inventar é nossa natureza essencial, por que sentimos medo? Em algum instante nebuloso perdemos a confiança essencial, asfixiada no “primeiro medo”, enterrado em terras submersas, e passamos a viver segundo a trama da mesmice, influenciada pelo jogo, inglório, do padrão e do descaso com a própria originalidade.

Arrisco: nossa vida vale pelo novo olhar que pomos nela. Por esses olhares renovados podemos redimensionar nossa verdadeira face, sem o cansaço das máscaras, tediosas, pois repetidamente testadas, o que consuma em nós a falta do encanto.

O autodesenvolvimento é solícito a um modo de vida que seja baseado no testar das aptidões, mas também nos erros e experimentos que as partilhas possibilitam, pois essa flexibilidade, em si mesma, é capaz de aprofundar nosso amor por nós mesmos.

Rollo May afirma que “amar significa essencialmente dar; e dar exige maturidade no conceito de si mesmo”. Essa exigência, por sua vez, liga-se à consolidação da autovalorização, tecida, sobretudo, pela vida de relação…

E se o reino de Mefistófeles é o reino da ilusão, toda circunstância que a vida desdobra dá condição para ser apreciada, nunca para dar guarida ao fugir nem fingir: e dela devo dispor para viver como se fosse, sobretudo, eu mesmo.

O presente pode ser fecundo, pode ser eivado de mistérios… Já dizia Quintana, no seu Baú de Espantos: “Não desças, não subas, fica. O mistério está é na tua vida! E é um sonho louco este nosso mundo…”

Então, não ilhado na rigidez das horas, dê vazão a si mesmo – para o interior e o exterior. Permita-se fluir como um rio, que não pode parar. Alegremente, cativa o amor  e não represa o espanto emerso do impreciso viver…

Eugênia Pickina – Palavra Terra

Contrametáforas

ventoUma das mudanças principais alavancadas pela modernidade é a cisão mítica com o cosmos ou às dimensões do Mistério. Segundo Jung, as encarnações do significado, antes oferecidas pelos mitos e ritos, recuaram do Olimpo para o plexo solar, dando surgimento às existências neuróticas, superficiais e à árida sensibilidade dos modernos.

É claro que não podemos, enquanto civilização, recuar no tempo e aceitar o literalismo dos mitos, porquanto é impossível uma atitude inconsciente diante do viver. Assim, somos convidados a tentar uma leitura interna de nosso mundo, pois, do contrário, deixaremos de empreender um discernimento sobre o(s) movimento(s) da alma e as metáforas que dramatizam nossas vidas.

A própria depressão aclara isso.

A depressão leva o sujeito para baixo. Diminui o ritmo, desacelera a atividade mental. Recursos da farmacologia à parte, na depressão somos lançados, segundo James Hillman, no vale da alma… Ela quer nos revelar algo.

Não querer se abrir a isso ajuda a recair no fato de que nosso sofrimento pode se tornar patético, ou seja, inconsciente e disposto a nos fazer vítimas.

E se a nossa psicoterapia e psiquiatria modernas estão reguladas pelo Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, nenhum estudante ligado à área da saúde (acadêmica) aprende, por exemplo, que se o sujeito perde o entusiasmo, o apetite, pode ser uma pista para um Ares reprimido.

Em geral, se há um esforço nobre de se encontrar padrões de comportamento universais e um plano de tratamento que facilite a uniformidade da intenção (recurso de controle), isso pode levar a uma generalização excessiva do indivíduo, convertido tão-só a uma norma estatística e ao continuum (não-desvendado) de seu sofrimento.

Recentemente conversei com uma amiga que estava angustiada por causa da luta com seu filho já adulto, o qual ela ainda protege e sustenta. Exausta pelo prolongamento da maternidade, e isso acrescido por problemas pessoais, ela contou que se via “atacada por uma depressão”. Nitidamente, nela há uma “raiva virada para dentro” e um sentimento de culpa crônica e, por isso, tive que confessar a ela os limites realísticos de seus poderes (em relação ao filho) e pedir-lhe que buscasse ajuda de um médico, mas também de um terapeuta para que entendesse, em conexão com seu mundo interno, qual deusa estava excessivamente constelada

Do mesmo modo que a Psicanálise não é um substituto para a religião (ou para a dinâmica da religiosidade), o modelo médico, por si mesmo, não pode nada prescrever para a cessação da alma ou do seu movimento.

Sem desmerecer o valor de esses saberes e práticas que tratam/promovem a saúde e o bem-estar, o trabalho essencial, penso eu, é assumir a tarefa da individuação e, desafiado pela arena da psique, querer aventurar-se para enxergar de novo ou, criativamente, de novas maneiras.

Eugênia Pickina – Palavra Terra 

Momentos e atitudes inconscientes – vamos mudar?

positive thinkingSim, somos todos seres em evolução, caminhantes e aprendizes de um viver melhor com o outros e – principalmente – nós mesmos. É natural que ainda erremos, mas deve ser ainda mais natural a forma com que aprendemos com os erros e voltamos à quadra quântica. Voltar é necessário.

Quantos de nós ainda não sai do prumo, baixa a frequência, desconecta-se? Com isso quero dizer aquelas atitudes que podem – no começo – passarem despercebidas, como uma posição raivosa logo ao acordar, irritando-se com tudo, desde o passarinho que deixou a sua marca na varanda, o café que respingou na roupa e as notícias “deliciosas” do jornal (que servirão, inclusive, para alimentar esta raiva e seu processo degenerativo ao longo do dia). Não podemos deixar de lado o pessimismo atrator de mais pessimismo. Não, a tal estória do “o segredo” não é bobagem (aos menos na sua estrutura essencial), e os princípios lá discutidos têm plena aplicação no nosso cotidiano, basta prestar atenção. Uma reclamação gera energia para uma segunda reclamação. Um julgamento, dá espaço para mais um julgamento… e quando vemos, lá se foi o bom humor e muitas palavras sobre a vida dos outros, o que deviam e não deviam fazer, etc., etc.

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Interlúdio

van-gogh-vincent-giardino-fiorito-2403792O fim do embotamento (causado, largamente, pela violência simbólica)  seria, arrisco, também o fim da falta de sentido, pois exaustos com este modo de vida, moderno, e em busca de novos renascimentos, teremos de integrar o feminino e o masculino, teremos de valorizar o amoroso encontro.

Se imaginar é ver com o sentimento, a cada dia um aspecto enraizado na visão polarizada nos maltrata e nos convida à mudança, pois o que haverá melhor do que o reconhecimento das diferenças, segundo a totalidade da lógica da alteridade?

Esta velha angústia moderna que já tem séculos… Ela transbordou em tecnologias e (des)razões premiadas, mas que absorveram realidades de nações  e povos com metas amargamente ligadas à dor e ao mal-estar de almas castradas e exploradas.

Saramago alegou: “O mundo esquece tanto que nem sequer dá pela falta do que esqueceu”.

Não sei, mas no meu coração, sintonizado com mares e terras, sinto a alma dos semelhantes em busca de fortalecimentos e proteção arqueticamente articuladas às forças yang e yin, que ensejam trabalho e repouso, ação e acolhimento.

Fernando Pessoa poetou que a “humanidade esquece, sim, a humanidade esquece, mas mesmo acordada a humanidade esquece. Exatamente. Mas não durmo”.

De novo, mas voltados para dentro e em estado de vigília, podemos ruminar o fato de que não há acaso de rua nem de mundo. Tornamo-nos nossas feridas, mas o que amamos também, e podemos reparar o invisível que jorra no visível. Mais: deixar-se conhecer-e-fazer para vastamente sentir e, consequentemente, ser.

Pouco a pouco, então, o efeito de embotar-se será dissolvido, pois representará a ruptura com o ciclo repetitivo de papéis e complexos. E passaremos a abraçar, no lugar de evitar, as múltiplas metas da vida. Desse encontro o resultado será existir, então, desapegado do suposto para viver com mais plenitude o Si-mesmo.

Eugênia Pickina – Palavra Terra

 

Cartas de amor

picassoEscrever cartas me seduz, pois o ímpeto se dá na direção de baixar a alma às relvas, depois subi-la nas velhas escadas, nas coisas novas e no tempo acesas, antes que o outro repare o meu olhar na sua humana e divina existência, à medida que o corpo, distraído, não vigia e, por isso, conta-me suas paixões e memórias… Eu, à espreita.

Escrevi muitas cartas durante a vida. Hoje, o e-mail ocupa o lugar da tinta, que me causa desembaraço, pois não preciso mais ir ao correio para pô-la na via do destino… Basta-me o perfume e a cor das flores, dos medos e do asfalto cálido e ajo às vezes como se recebesse o beijo de um anjo, que inspira e me faz enfrentar o riacho guri e os olhos do africano, que tornam inválidos meus poemas sobre o mundo, pois apenas quem muito sofreu pode arriscar um suspiro sobre o estremecimento da árvore que sacudiu ao abraço do vento…

“Todas as cartas de amor são ridículas”, argumenta Pessoa…

Contudo, o amor deseja ser contado, deseja ser retirado do fundo do coração. “Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”, exprime um Fernando convicto, que compreendeu, no labirinto do poema, algo sobre o amor…

Ridícula seria, pressinto, a velha angústia de quem não ama e não se permite sentimentos súbitos como um estranho, excessivamente abaixo – virado do interior em direção aos astros…

Sem dúvida, quem busca o amor buscado, no lugar dos desertos, à beira de um tímido lago ou do vasto mar, gozará os segredos do sentir-pensar, que poderão ser traduzidos para a luz, pois há bastante amor nele e suficientes serão o voo e o desatino.

As cartas de quem ama diz isso: todos os passos onde não estou e a andar lucidamente para prestar atenção e conhecer o outro (o amado) melhor por dentro, como distinto deste eu-mesmo, que o procura alegremente no interior-exterior para, enfim, gozar juntos a ressonância das vidas.

As cartas de amor despem o sono e tingem palavras que recordam a esperança do dia seguinte: enamorados sempre, mesmo que haja nevoeiros…

Eugênia Pickina – Palavra Terra

A Doença como Caminho

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Muita distorção tem sido feita em relação a este conceito “da doença como caminho”. Estas distorções, mais uma vez, refletem a uma interpretação mecanicista de um conceito ampliado e holístico. Tudo que uma pessoa doente não precisa é ouvir de alguém uma interpretação superficial e reducionista da possível causa psicológica de sua doença. Principalmente se  a sua enfermidade  é crônica e de difícil tratamento.

Soa como uma condenação, como uma acusação e induz à culpa. Não se pode mexer na dor de alguém sem muito amor e acolhimento.

Há muitos sentimentos envolvendo o estar doente, e principalmente quando  se  trata de uma patologia complexa e de difícil tratamento. Na verdade, simplificar uma situação,  qualquer que seja, com explicações superficiais, torna-se, muitas vezes, um ato de crueldade e insensibilidade com a dor do outro.

O conceito esboçado no livro “A Doença como Caminho” é um dos mais revolucionários em relação ao tema saúde e doenças. Ajuda ao doente a encontrar um significado para seu estado, a trazer um significado para um fator comum e recorrente na vida das pessoas: a doença, as enfermidades.  Isto porque leva em consideração que mente e corpo formam uma unidade, afinal o que ocorre com o corpo reflete aquilo  que se passa na mente.

A psiconeuroimunoendocrinologia confirma e explica esta  ligação estreita entre corpo e mente. As pesquisas sobre os fatores de estresse, ligadas a neurociências, também confirmam esta ligação.

A tentativa de catalogar e correlacionar doenças e sintomas a estados mentais e emocionais é sem duvida útil, mas não pode ser usada como manual para prescrever uma análise psicossomática. Os manuais são somente guias e indicações a serem refletidos. Carecem de profundidade e não trazem uma contextualização ao achado clínico. Ninguém “cria” um estado de enfermidade porque quer conscientemente isto, a não ser que isto faça parte de um transtorno mental.

O processo de somatização ocorre inconscientemente e está ligado a um contexto e a uma história de vida. Trazer para a consciência esta correlação gera impacto, surpresa e, às vezes, muita dor. Se o individuo não estiver maduro para entrar em contato com esta realidade, o comum é cair na culpa e auto-recriminação.

Neste caso o que deveria ser um fator de libertação acaba se tornado um fator de aprisionamento e agravamento do estado do paciente.

Já basta a dor de estar doente e a falta de esperança que, muitas vezes, acompanha a doença. Não é necessário ainda mais este peso e esta culpa.

Por isso, é preciso cuidado. O indivíduo enfermo pode ser acompanhado nesta reflexão e auxiliado nesta descoberta, porém ela deve ser  feita por ele mesmo.

Se esta correlação entre sintomas físicos e estado mental não surge espontaneamente  como um insight, o médico, psicólogo ou profissional de saúde precisa de ser cauteloso ao sugerir alguma possibilidade, no sentido de permitir que o indivíduo enfermo negue, caso  se ele não sinta  como verdadeiro para ele.

Este processo de descoberta compartilhada só pode ser realizado por um profissional de saúde habilitado para tal.  Caso contrário, o profissional corre o risco de se tornar não um agente de crescimento e significação, mas um complicador.

Para lidarmos com a dor do outro temos que ser sensíveis e profundamente humanos. Se assim não for, ao invés de agirmos como uma pinça que afasta os tecidos inflamados, movendo o agente da dor, agiremos como um bisturi que corta, insensível, um tecido já comprometido.

Por Flávio Vervloet

Amor por si mesmo e vida intersubjetiva: uma mesma trama

picassoDalai Lama já disse: “amar os outros é uma maneira especial de amar a si mesmo”.  Mas, em geral, resistimos a esse clima de afeto e de indulgência, mesmo cientes de que o amor pelo outro e o amor por si mesmo não são separados. E, aqui, reside uma de nossas dificuldades – a abertura do coração. E por quê?

Ao negar-se o amor por si mesmo, nos encerramos em nós mesmos. Passamos a usar, sem discernimento, as ferramentas mentais do julgar e do discriminar, afastados do fato de que é graças à vida de relação, às trocas interpessoais,  que podemos aprender a expandir, também, a qualidade dos sentimentos que nutrimos por nós mesmos.

Uma cultura que preza a educação puramente intelectual, limitada ao processo de aprender a conhecer e a fazer, inclina-se a desprezar o ser e o conviver, o que largamente dificulta o encontro entre pessoas, naturalmente predispostas à expressão de intuições autênticas e sem o receio de punições ou condenações verbais (expressas ou veladas).

Com efeito, amar a si mesmo liga-se basicamente à aceitação da aventura do trabalho interior, enraizado no reconhecimento da própria potencialidade de plenitude,  o que impulsiona o indivíduo a se aproximar  do melhor de si mesmo e, consequentemente, permitir-se a diversidade de novos relacionamentos, pois nascemos, sobretudo, para compartilhar e amar.

E é nesse sentido que podemos afirmar que somos “condenados” a Ser, pois somos habitados pela Presença,  e se ninguém pode obrigar ninguém à arte de amar, o ser humano se realiza (e se liberta) quando consente com o caminho da individuação, criativamente suscetível a encontros diversos.

Certamente, este convite-desafio possibilita uma lição colhida na concepção platônica de que “aprender é recordar”: do mesmo modo que ninguém pode aprender sozinho, ninguém pode amar sozinho, pois a autonomia e o amor próprio, base da autoestima, dependem também do cuidado com a vida intersubjetiva, responsável pelo florescimento dos experimentos e afetos apreendidos com o outro, que causam ressonância no si-mesmo.

Eugênia Pickina – Palavra Terra 

Zinnia – O arquétipo da criança interior

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“Em todo adulto espreita uma criança – uma criança eterna, algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo, e que solicita atenção e educação incessantes.
Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa” (Jung)

“Toda criança nasce com a capacidade inata de rir e brincar, de penetrar na vida com a plena exuberância da alma alada.” (Patricia Kaminski).
Muitas vezes, quando as memórias da infância são dolorosas, fechamos nossa  criança dentro  de um  armário. Nosso ego adulto sufoca e suprime essa parte do Eu,ficamos embotados, sem criatividade, sem alegria. Mas a criança permanece e, mesmo contida,  dá sinais de vida e clama por nosso olhar, atenção e carinho. E mais uma vez vamos olhar para a natureza ao redor e observar essa flor chamada “Zinnia” ,que nos convida a “brincar. Vamos perceber o que ela quer nos dizer com seu gestual, qual é a mensagem?
Se observarmos as flores centrais , parecem crianças dançando, brincando de roda. Olhando atentamente, podemos entrar em contato com toda a alegria, leveza e descontração que a flor nos oferece. Parece que ela nos sorri o tempo todo e  nos envia  mensagens: Vamos validar a criança que habita em nós!  Vamos dar voz a essa criança!
Essa essência floral nos faz entrar em contato com a leveza da criança interior, que brinca e ri o tempo todo, traz um coração leve e muita alegria interior.
O bom humor é um sinal de que se está verdadeiramente num caminho espiritual equilibrado e é inerentemente humano.
Não precisamos ser excessivamente sérios,podemos nos divertir mesmo tendo inúmeras responsabilidades e compromissos. Vamos nos deixar envolver pela alegria, descontração e leveza dessa flor. Vamos “soltar” nossa criança interior!

Por Vilma Domeneghetti

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