Arquivos Mensais:julho 2010

E por que sim?

E por que sim?

A única coisa que não se pode tirar de nós é aquilo que doamos (Jean-Yves Leloup).

Apenas o amor pode auxiliar a amar melhor a pessoa com que se vive.

Idealizamos certo tipo de homem ou certo tipo de mulher e esta imagem debilita a aceitação da pessoa que está à nossa frente, pois o significado valioso do encontro emerge também da compreensão relativa às imperfeições (de si mesmo e do outro) de onde pode nascer uma relação que caminhe em direção ao amor real.

Recebo, com frequência, relatos de pessoas que dizem ter um relacionamento duradouro, mas se afirmam infelizes pelo desagradável revelado durante a convivência e pela sensação de que deixaram de progredir como pessoas e, por isso, sentem-se como “indivíduos sem pensamentos”.

Amar envolve amar-se, penso. Assim, amar é ser generoso consigo mesmo e com o outro e, por isso, não deixar de cuidar de si, não abdicar dos próprios dons e necessidades de trabalho com a própria alma, motivando o outro também a desenvolver-se para ser feliz.  Do contrário, será um encontro “amoroso” frágil aos ventos e às intempéries dos egos, quase sempre suscetíveis aos caprichos.

Uma questão principal: como fazer para sofrer menos e, principalmente, como servir-se do amor para viver melhor? Sim, porque amar é ser feliz, é desejar a felicidade do outro.

Como escapar à confusão?

A confusão existe quando exigimos do nosso companheiro, por exemplo, que substitua o pai que nos faltou, quando cobramos da nossa esposa que seja mãe de tempo integral, livrando-nos das pequenas responsabilidades diárias com a casa, com os filhos, com nosso próprio crescimento.

É sabido que as pessoas que não são capazes de se envolver em uma relação particular são ainda imaturas. Estamos onde estamos, cada um com sua narrativa e habilidades. E isso me faz pensar sobre as diferentes nuanças de amor.

Há uma palavra grega – Pathé - que assinala tanto o nascimento da palavra patologia como instaura na pessoa o amor-doença, pois, aqui, o amor não é qualidade de ser, mas apenas necessidade e dependência, aquilo que Ovídio, em sua Arte de Amar, chamou amor-posse, possessão, que dá causa à mania…

Creio que isso alude aos aspectos (e feridas) narcisistas, que se revelam inaptos para reconhecer a alteridade. Tu me dás, somente. Para muitos terapeutas antigos, então, a doença é girar em círculos. Assim, o amor-posse mantém o casal aprisionado no caminho…

Mas não é o coração humano capaz de amar sem retorno?

Alguém me diria que isso somente para os perfeitos. Digo-lhe que é para cada um de nós, embora, muitas vezes, possamos amar como bebês, consumindo o outro. Qual seria, então, a solução? Passar, em primeiro lugar, do consumo à partilha. Abrir o coração e aprender a dar, pois conviver, no amor, exige (também) disciplina.

Apenas sei que devemos manter o passo. Por isso, independente do amor que sentimos, seu grau ou qualidade, independente do companheiro (ou da companheira) com o qual dividimos o pão, a oração e a esperança, apenas precisamos nos dispor a ajudá-lo a desenvolver sua autonomia sem que percamos a nossa autonomia – duas autonomias que seguem unidas e procuram humanizar-se… No lugar de apenas exigir (ou necessitar), pôr em prática o acolher – e este, sim, pode ser um começo rumo a um amoroso conviver.  

Penso na alma gêmea – “alguém do mesmo comprimento de onda”, diria Jean-Yves Leloup. Neste caso, seria mais fácil amar?

Em razão da sintonia natural, uma compreensão natural. Mas isso extinguiria os pequenos dramas da rotina? Não, mas ao menos aqui ambos procurarão individuar-se e sem receio de se fazerem visíveis um ao outro, pois confiantes no fato de que o “amor jamais passará “ (São Paulo).

Eugênia Pickina

 

Encarnações

Encarnações

Lutamos com esperança atrás de cada pedra e nos abrimos como uma grande estrela quando esquecemos as ofensas, quando praticamos o (demorado) perdão…

No curso da vida, nos domingos, sem a melancolia, encontramos no amor a aceitação pelos aspectos que queremos mascarar e, assim, não como uma flor fechada, paramos de julgar o outro, pois, ainda que de forma diversa, consideramos que sobre a terra nem sempre nossos pés estão firmes.

E junto ao amigo ou ao inimigo, os mesmos desejos de alegria neles residem, como exploradores que todos nós somos a perseguir a construção da autonomia.

Ora, abrir-se a uma ética. E é a ética da bênção que faz a alma extensa e blinda o coração contra a letargia e o desânimo, porque tanto os homens como as mulheres fazem parte do ciclo universal e têm o mesmo propósito de individuar-se.

Assim, sem o peso do preconceito, procurar ver no outro a sua dimensão luminosa, pois ele também serve ao divino, ainda que experimente fraquezas e hesitações.

Além disso, sem um critério claro, estamos constantemente projetando nossa vida psíquica na tela do mundo à nossa volta e, por isso, nas outras pessoas vemos aspectos que admiramos ou desprezamos em nós próprios.

Sangramos? Mas é com solidariedade que nos é dada novamente a chave do sossego. Nunca com ódios, ressentimentos, que fazem o corpo adoecer e o destino embaralhar o coração inteiro.

Carregar os sonhos, pois ser adulto não tem praticamente nada a ver com idade, e sim com o nível de discernimento e de responsabilidade pessoal (até onde a pessoa tenha evoluído) e suas tentativas de (nova) solução.

Integrar-se à Terra, morada comum, e ao seu caudal de possibilidades. Então, descerrar os olhos para que  mágoa alguma nos afaste da semeadura e da felicidade.

Da mesma maneira, não se enclausurar em ideologias, mas recordar que o homem não é absoluto e, por isso, todos nós, a caminho, temos apenas interpretações relativas do absoluto. Então, fluir-e-passar

Eugênia Pickina

Legados e transcendências

Legados e transcendências

Sim, os pais. Eles estavam lá no início, no prelúdio da vida, e os carregamos como uma herança testemunhada com afeto neutro?

Não podemos ignorar que esses indivíduos frágeis (tal como nós), os pais, encaminhados a nós pelo Destino, foram os agentes da construção primária de nosso senso de si mesmo, de mundo e das pontes interpretativas entre eles.

Então, uma reflexão: nenhum de nós pode conduzir com leveza a jornada, ou seja, realizar-se por completo em sua própria verdade, sem apropriar-se de uma autêntica autoridade interna, o que nos remete à necessidade da transcendência perante a autoridade externa, modelada pelos pais pessoais com apoio da cultura mais ampla.

Por essa razão, os pais…

A “boa herança” da mãe significa a permissão interna para a construção de um lar solidário, acolhedor e de uma (nova) história, sujeita a erros e acertos.

A “boa herança” do pai implica que somos portadores de uma missão que necessita ser ativada, porque disso também depende a nossa alegria cotidiana: a tarefa de nos tornarmos o desejo do Grande Mistério,  e não as fantasias do precário eu, no geral   encurralado nas teias do medo, apavorado pela oportunidade de recriar-se a si mesmo.

E se o ganho de segurança vem à custa das experiências de vida, pois a infância ficou para trás, tornar-se uma pessoa “comum” e com autonomia, o contrário de uma agenda narcisista, supõe desenvolver-se como indivíduo e como colaborador do coletivo, procurando, no cotidiano, ativar uma aliança com o bem e o belo para tanto ser como fazer.

Consequentemente, abrir-se ao encontro consigo mesmo e ao encontro com o outro, ciente de que é sadio resistir ao desejo de ser protegido, ou de ser comandado (o filho e a filha querem crescer). Logo, se permitir, de forma voluntária, transformar-se sempre que a vida sinalizar as condições ideais, transcendendo o medo de crescer, porquanto evoluir é uma lei universal.

Em outras palavras, integrar dentro de si o tecer (ligado ao princípio feminino) e o partir (ligado ao princípio masculino), explorando os recursos internos condizentes às raízes e ao desconhecido, imerso nas novas experiências. Como efeito, cuidar-se com atenção, arriscando redesenhar o caminho sempre que o inesperado bater à porta.

Eugênia Pickina

Anábase

Anábase

Agora, vai-te embora… disse ele. Eu quero descer! (O Pequeno Príncipe.  Saint-Exupéry)

Às vezes são nossas experiências do absurdo que nos impulsionam a nos diferenciar. Ajudam-nos a sair da estagnação do “um indiferenciado” para a condição do “um diferenciado”.

Caso saibamos acolher a época do sofrimento, que independe de nossos humores, na sequência somos  conduzidos a vivenciar uma “condição de ser” capaz de compreender uma realidade que escapa à negligência de não dar à dor, dentro de nós mesmos, o seu devido lugar, pois é esse “devido lugar” que, pelo reconhecimento de nossa fragilidade, evitará a confusão entre o precário eu e o luminoso Self.

Coloco-me uma questão. Nas nossas relações cotidianas muitas vezes não permitimos às pessoas os seus desequilíbrios ou depressões.

Isso é paradoxal porque, quando vemos alguém sofrendo, nossa única inquietação é aliviar (ou calar) sua dor, é retirá-lo desse estado a nós incompreensível. No entanto, é preciso apenas ampará-lo nessa lenta descida onde ele fará a experiência de seu “buraco negro”.

Em outras palavras, trata-se, aqui, de não resistir a esta frequência densa, a esta dor inexplicável que, em algumas circunstâncias, temos que viver em nossas vidas.

Do mesmo modo, há uma (nova) ordem que é posterior ao  caos, e aqueles que vivenciaram um “tempo sem relógio”, que provaram um momento de agonia profunda, quando voltam dessas situações podem dizer que há outra coisa além do absurdo, pois, sejamos crentes ou não-crentes, outras leis comandam até mesmo a pulsão de morte.

Ora, tal como existem aqueles instantes densos, que furta ao frágil eu um olhar transformador, há os momentos luminosos, nos quais há a abertura do Self sempre pronta a ressignificar o tempo da vivência aprisionada ao “nada”, sinalizando a presença de recursos internos antes ignorados.

Sem citar as motivações filosóficas, podemos afirmar que a travessia da sombra faz parte do nosso caminho na luz. Compreender, então, que a presença de um “tempo ferido” faz parte da revelação de um “tempo sadio”, no qual podemos voltar a crescer.

Eugênia Pickina

Por nós

Por nós

Os  gregos enalteciam três virtudes: a verdade, a beleza e a bondade. E, para eles, fazia sentido uma definição de saúde como uma tendência ao que integra, ao que harmoniza e nos mantém unidos ao núcleo do Ser que nos faz ser

Assim, como uma suposição razoável, podemos atribuir como parte da crise que vivenciamos a constrição da alma, pois perdemos, na modernidade, a grandeza do projeto humano. Entretanto, toda história humana conta sobre a necessidade do cuidado com a alma que nos habita a fim de que gozemos de boa saúde e alegria.

Logo, é possível propor como recurso de orientação a lógica do coração e, com ressonância, a expressão francesa – “ter o coração na mão”. Em consequência, viver com o corpo animado e reconhecer a si mesmo e ao outro não apenas como corpo material, mas como corpo habitado por uma alma, um corpo que é também a casa do Grande Mistério.

Ainda, se o nosso coração estiver na mão, vamos acessar outra realidade, cientes do vir a ser que temos de criar, o futuro que podemos desenhar… É uma aventura longa?  Amyr Klink, o navegador, diz que “o maior naufrágio é não partir”, é ficar estagnado, girando em círculos, o consumir-se pela ausência da clarificação do desejo, pela desorientação.

Onde aprendemos a existir de forma harmoniosa? A lição do amor, encadeada pela verdade, beleza e bondade,  o movimento da alma, sugere que aprendemos a existir na arte de viver o instante – a convocação para o viver da jornada, tecida passo a passo.

Estamos aqui por conta das pendências, das questões inacabadas.  Mas também pela necessidade da florescência dos dons e da urgência de amar.

Em função disso, ser largamente solidário e com o coração latejando de confiança para que consigamos, com facilidade, o retorno ao nosso eixo essencial quando experiências difíceis nos atravessem, normalmente enraizadas nessas pendências e aspectos negligenciados ou inacabados…

Não esqueçamos: no final, são as experiências que nos fazem progredir na arte de amar que ficam conosco de maneira harmoniosa e definitiva. Afinal, como dizia Tereza d’Ávila: Nada te inquiete. Nada te assuste. Tudo passa. Só o amor não passa. Com paciência tudo se alcança. A quem tem amor nada falta. Só o amor basta.

Eugênia Pickina

Viandantes

Viandantes

Em muitas circunstâncias, quem de nós não precisa alcançar um lugar onde não haja a dor? Em função disso, podemos, num exemplo comum, trabalhar de maneira compulsiva, pois o fazer esgota até que consigamos cair exaustos na cama.

Então, os problemas cardíacos, a pressão sanguínea, a depressão camuflada, sem contar outros males patológicos, não seriam os  filhos do estresse em razão de um ciclo de vida desequilibrado, que procura, mas em vão, ocultar as feridas e as angústias de um caminho impaciente com os pedidos do coração?

O automatismo diário retorna. A maioria de nós está imerso nele. Além disso, esse “existir mecânico” não estimula a consciência nem confere sabedoria, porém tende a inflamar raivas e tristezas, o terror da solidão.

Contudo, apenas é na aparência que lutamos sozinhos quando o que está em jogo é um caminho com coração – também chamado bom combate.

Silêncio. Meditemos. Por conseguinte, será possível colher uma orientação positiva que tanto nos incentive o levantar do chão e voltar à luta, como nos ajude a passar a viver com sinceridade a jornada pessoal, e desde que enfrentemos nossos traumas e vergonhas com integridade emocional.

E não resolve querer substituir o medo pelo poder. Ainda, temer e negar as partes de si que não se encaixam no enredo coletivo pouco colaborará com a realização da tarefa à qual a vida reivindica a cada manhã.

Assim, mesmo que paguemos um preço por sermos vulneráveis, nossas almas deixarão de viver tão assustadas, caso  nos permitamos viver nossa verdade pessoal, que gera ressonância afirmativa nos relacionamentos, nos habituais afazeres e no estar consigo mesmo.

Com efeito, parar de mentir, parar de se enganar. Não é à toa que um antigo ditado chinês diz que a palavra certa será ouvida a quilômetros de distância

Não escapamos ao fato de que somente quando passarmos a respeitar o caminho com coração sentiremos que além do nosso eu hesitante repousa um nível mais profundo de consciência, apto a sustentar nossas necessidades reais e mediar nossas escolhas a fim de que nos tornemos os protagonistas de nossas fecundas histórias. Logo, compreensivos com nossa (natural) vulnerabilidade.

Eugênia Pickina