Sim, os pais. Eles estavam lá no início, no prelúdio da vida, e os carregamos como uma herança testemunhada com afeto neutro?
Não podemos ignorar que esses indivíduos frágeis (tal como nós), os pais, encaminhados a nós pelo Destino, foram os agentes da construção primária de nosso senso de si mesmo, de mundo e das pontes interpretativas entre eles.
Então, uma reflexão: nenhum de nós pode conduzir com leveza a jornada, ou seja, realizar-se por completo em sua própria verdade, sem apropriar-se de uma autêntica autoridade interna, o que nos remete à necessidade da transcendência perante a autoridade externa, modelada pelos pais pessoais com apoio da cultura mais ampla.
Por essa razão, os pais…
A “boa herança” da mãe significa a permissão interna para a construção de um lar solidário, acolhedor e de uma (nova) história, sujeita a erros e acertos.
A “boa herança” do pai implica que somos portadores de uma missão que necessita ser ativada, porque disso também depende a nossa alegria cotidiana: a tarefa de nos tornarmos o desejo do Grande Mistério, e não as fantasias do precário eu, no geral encurralado nas teias do medo, apavorado pela oportunidade de recriar-se a si mesmo.
E se o ganho de segurança vem à custa das experiências de vida, pois a infância ficou para trás, tornar-se uma pessoa “comum” e com autonomia, o contrário de uma agenda narcisista, supõe desenvolver-se como indivíduo e como colaborador do coletivo, procurando, no cotidiano, ativar uma aliança com o bem e o belo para tanto ser como fazer.
Consequentemente, abrir-se ao encontro consigo mesmo e ao encontro com o outro, ciente de que é sadio resistir ao desejo de ser protegido, ou de ser comandado (o filho e a filha querem crescer). Logo, se permitir, de forma voluntária, transformar-se sempre que a vida sinalizar as condições ideais, transcendendo o medo de crescer, porquanto evoluir é uma lei universal.
Em outras palavras, integrar dentro de si o tecer (ligado ao princípio feminino) e o partir (ligado ao princípio masculino), explorando os recursos internos condizentes às raízes e ao desconhecido, imerso nas novas experiências. Como efeito, cuidar-se com atenção, arriscando redesenhar o caminho sempre que o inesperado bater à porta.
Eugênia Pickina