Arquivos Mensais:novembro 2010

Apelo e espirais

Apelo e espirais

 Jung observou certa vez que o maior fardo que a criança carrega é a vida não vivida dos pais e, em consequência, cada filho um dia  precisará examinar, sem a intenção de julgar, em que lugar as feridas dos pais foram passadas para ele.

Como o crescimento da consciência é um processo de movimento espiral, todos nós carregamos a memória repetida dessa condição inicial. E, vulneráveis, sentimos medo de que nossos anseios não se realizem, porque nossas almas foram deformadas e por serem definidas por forças externas.

No geral, é dessa inquieta condição, enraizada em nós independentemente da idade, que nasce a raiva, que emerge o ressentimento silencioso. Ficamos zangados por nossas carências não preenchidas e choramos a perda, sabotando muitas vezes o melhor em nós.

E à medida que nos tornamos mais velhos e açoitados pelos papéis e cobranças da idade adulta, essas emoções confusas tendem a deslizar para o inconsciente. No entanto, essas energias permanecem ativas e sempre são escoadas para algum lugar.

A raiva, por exemplo, pode se tornar profundamente introvertida como uma depressão que nos acompanha diariamente, ou somatizada em alguma emoção que fere o corpo e reclama por meio de sintomas incômodos.  

A mágoa pode se manifestar através da maledicência e da irritabilidade generalizada. E uma melancolia crônica às vezes se decide por um vago anseio por um companheiro que entrará na nossa vida para nos acolher e embalar…

É fato. Como todos nós carregamos as nossas feridas, o resultado de nossa consciência restrita, das fontes de dor ignoradas, é uma definição pobre do nosso processo de autonomia.

Como ser adulto não tem praticamente nada a ver com tamanho ou idade, e sim com o nível de consciência e de responsabilidade pessoal,  ausente um entendimento honesto sobre si mesmo, a vida se decompõe, porque é necessário que descubramos quem nos tornamos, dando-nos permissão emocional para despender com sabedoria a nossa preciosa energia.

Como a intimação para o autoconhecimento não é justificativa ao narcisismo, e sim base segura para uma autoexpressão sadia,  esquecer esse apelo implica, de maneiras diversas, desperdiçar nosso (breve) episódio na Terra…

Eugênia Pickina

Itinerâncias

Itinerâncias

Mais uma vez deixem que seja sua a manhã, deuses.

Continuamos repetindo. Vocês são a única fonte.

Com vocês o mundo desperta, e seu ocaso

reflete-se luminoso em cada fenda

e greta de nossos fracassos. (Rilke)

Nossa sociedade carece de meios de expressão significativos que estimulem e orientem as energias da alma  e, no geral, somos convocados durante a existência apenas para servir  a uma norma econômica, política ou cultural.

Em consequência, na condição de oprimidos, sacrificamos ditames internos para modelar a deformação de nossa natureza essencial em função de papéis e expectativas alheias.

Como a natureza detesta o vácuo, muitas pessoas (feridas) preenchem o grande vazio interno com trabalho excessivo, relacionamentos arrastados ou fugas diversas. Entre esses confusos comportamentos, há a profunda carência de referências como fonte de sabedoria, consolo e inspiração.

É um fato: a pressão interna é enorme e continuaremos vítimas enquanto permanecermos inconscientes.

Muitos são os caminhos de cura e as opções dependem sempre das necessidades de cada um  – psicoterapia, homeopatia, florais… No entanto, nossas feridas estão na alma, como uma vez advertiu Franz Kafka, e somente aquele que a alcança é capaz de curar-se.

Como efeito, desde que enfrentemos as dores caladas, as carências negligenciadas, a cura da alma pode ocorrer por causa de um agente transpessoal, vivenciado, muitas vezes, como graça, pois, como nos lembra Rilke, “sabemos que existe espaço dentro de nós/para uma segunda grande vida intemporal”.

Infelizmente muitos indivíduos continuam ainda oprimidos, e agindo a partir dos sofrimentos inconscientes oprimem outros, ferem e são feridos, o que resulta na composição de destinos tirânicos e com desperdício de talentos (ignorados).

Mas, cada um de nós pode decidir por um itinerário que leve em consideração a condição humana integral, pondo-se primeiro à escuta do coração e depois assumindo, amorosamente, a responsabilidade por sombras e potencialidades desprezadas, atuando, então, a partir da própria luz, transcendidos os limites estreitos de uma vida suportada rumo a uma vida mais plena.

Eugênia Pickina

Reposicionamentos

Reposicionamentos

O mundo invisível comanda o mundo visível e, assim, a história que conhecemos conscientemente, ou que achamos conhecer, raramente é a história inteira que se desenrola dentro de nós.

No geral, nossa atitude convencional é a de interpretar  superfícies  – o que dizemos, o que não dizemos, o que o corpo emite, o que as imagens oníricas insinuam, e daí por diante…

Descabida, então, a “soberania” do ego.  Como efeito, reconhecemos com o passar do tempo, e não às vezes sem sofrimentos, de que temos menos controle na construção de nossas vidas do que havíamos idealizado.

E isso, no lugar de  causar constrangimentos ou revoltas, poderá apenas resultar num reposicionamento do ego a fim de que, como uma testemunha ativa,  perceba que a vida é um desenvolver progressivo do Mistério e, em consequência, uma natural recondução das escolhas em qualquer ponto da jornada…

Em muitas circunstâncias, portanto, a dificuldade na verdade diz respeito ao nosso enxergar de novo, ou de uma maneira nova, pois é saudável tanto reconsiderar como abrir mão de concepções e interpretações sobre si mesmo e sobre o mundo que nos cerca.

Sem dúvida, seríamos mais equilibrados se nos dispuséssemos com tranquila habitualidade a visitar o ambiente privado da alma para nos tornar, como explica Campbell, “transparentes à transcendência”,  e como postura usual se permitir a oferta de insights profundos, advinda do mundo invisível, e que nos ilumina  o horizonte do (precioso) caminho.

Eugênia Pickina

Destinos

Destinos

Nenhum de nós consegue estar no mundo sem experimentar ferimentos. Basta recorrer à mitologia grega para encontrar em Antígona, de Sófocles, a máxima de que nenhum mortal consegue evitar o sofrimento à medida que “adentra” a existência.

E se as feridas da vida talvez comprimam a alma, somente o despertar  para uma “vida escolhida”, e não uma “vida suportada”, trará significado à jornada.

Em consequência, ainda que sentir medo seja compreensível diante do alto-mar da vida, não podemos renunciar ao imperativo da navegação; e a renúncia se dá quando recusamos nos responsabilizar pelos desejos do coração (aquilo que é essencial) ou quando somos cúmplices da normose social, deixando de expressar nossa maneira de ser-e-viver.

Ora. Há um chamado à individuação ao qual não podemos escapar. E é isto que tem importância decisiva – encarnar os ditames do coração para tornar luminoso o curto episódio que dura até mesmo a mais longa existência na bendita Terra…

Para desfrutar com êxito da estada, então, podemos começar a ser sinceros com relação à nossa vida e, assim, reconhecer nossas  feridas a fim de buscar curá-las, bem como assumir as nossas (reais) necessidades/metas.

Podemos começar em casa, com nós próprios, e compreender que é  possível rejeitar as expectativas coletivas e, com coragem, procurar o próprio caminho, cientes de nossas fragilidades e limitações, porém abertos ao fato quântico de que aqui estamos, como viageiros, para aprender a irradiar, sem receios, a luz pura…

Que sua viagem seja boa, companheir@…

Eugênia Pickina

Vida compartilhada

Vida compartilhada

Herman Hesse, o autor de Demian, cuja abordagem diz respeito à cura da alma moderna, observou um dia: “em um mundo de peregrinos, quando os caminhos se cruzam, o mundo parece um lar durante algum tempo”.

Sim, é na experiência dos encontros que conseguimos colher a força necessária para realizar a própria jornada.

Sei que somos encarregados de solitariamente dar conta de compromissos ligados aos nossos dons e propósitos essenciais – há um enredo que depende largamente de nosso próprio atuar (decidimos por uma via com coração?).

No entanto, é na vida compartilhada que haurimos a energia indispensável ao bom ânimo e à manutenção da esperança para realizar, com êxito, a nossa trama.

Desse modo, a gratidão pelos encontros no caminho. E, consequentemente, valioso é o amigo emocionalmente íntimo, que nos proporciona o presente da conversa sobre medos, dúvidas, lutas e vitórias… A dádiva do preenchimento de nossas necessidades de apoio e carinho a fim de que continuemos o passo sem o risco de não viver os ditames da nossa alma.

Logo, o desenvolvimento saudável de nossa verdade interior depende tanto da conversação íntima, como do precioso direito a uma vida de relação, que objetiva crescermos através um do outro e um com o outro…

Então, com alegre confiança, dar-se a permissão para servir à natureza, servir aos outros e servir ao Mistério do qual somos a experiência…

Eugênia Pickina