Arquivos Mensais:dezembro 2010

Bons fluidos

Bons fluidos

As pessoas veem estrelas de maneira diferente. Para aquelas que viajam, as estrelas são guias”. (Saint-Exupéry)

Nossa ligação com as forças luminosas é ampliada pelo relacionamento contínuo com a Clara Luz, o piscar de olhos consciente que nos sinaliza nosso contato íntimo com o mundo invisível.

Esse contato nos permite reconhecer que temos um eu profundo na maioria das vezes despercebido nas tramas do cotidiano.

Todavia, embora esse eu interno siga ignorado, há um lugar autônomo dentro de cada um de nós que, se confiarmos nele e dialogarmos com ele de maneira honesta, falará conosco e nos oferecerá orientação.

Dar importância ao mundo espiritual  torna suportável um monte de coisas – quase tudo talvez. Pois  esse mundo revela o nosso núcleo incandescente, apesar de nossa brevidade como corpo e reino de ideias relativas.

Sabemos pouco, é verdade…

Mas sempre que fazemos as perguntas adequadas sobre nossa jornada, esse eu interno (silencioso e vivo) nos move em direção a lugares desconhecidos, nos quais poderemos coletar os recursos indispensáveis às escolhas corretas e diferentes, pois mudar faz parte naturalmente do existir.

Chamar os ritmos do coração sempre auxiliará a vida a não ser estéril, porque, ainda que neguem os que são fechados ao invisível, não somos somente formas fúteis de matéria, somos sutis também. 

E quem deseja não viver superficial e freneticamente, pode reconhecer que onde o ego ( o pequeno eu) e o eu profundo se encontram desponta o instante favorável para a vida ser preenchida, de novo, da maravilha que implica estar aqui e passar…

E é por isso que podemos estar satisfeito pelos dias existirem e, como co-participantes na Clara Luz, temos a chance de  enfrentar o desafio de viver  com plenitude a vida para a qual somos chamados a tecer e reverenciar…

Eugênia Pickina

O sentido do Natal

O sentido do Natal

Dezembro.

Retorna a cálida estrela. Ela, uníssona à transcendência, inunda o estábulo para celebrar no Jesus menino o testemunho do Eterno.

Em nós, e de forma sincrônica, algo de bom e de inocente continuará a confiar como Maria, cujo “sim” recolheu no imaculado ventre algo que não pertencia à Palestina, mas à Terra inteira.

Neste Natal, podemos lembrar-nos de tudo que gravita em torno do ponto central de nossa leve humanidade… E com alegria avançar em direção a esse estábulo para onde se dirigem todos os seres e todas as promessas do Amor.

Seja qual for a tradição, presente e futuro se reabsorverão na intensidade da Criança eterna, cujo espaço sagrado acolherá, no devir, nosso novo calendário, aberto ao germe das luzes de nossas esperanças.

Feliz Natal. Boas Festas.

Eugênia Pickina

Depois de amanhã

Depois de amanhã

Todos nós haveremos de experimentar a perda de um ente querido algum dia.

E é a certificação do Eu Sou essencial, no próprio âmago da nossa mortalidade, que nos confortará, pois é da lei natural cada um de nós caminhar, pela morte, rumo à outra dimensão (creiamos nisso, ou não)…

E se o Cristo não explica o sofrimento, mas o encara de frente (e como um inocente) a fim de atravessá-lo, é este exemplo que nos serve para transformar todos os becos sem saída de nossa fugaz existência em vias abertas, para permitir que no próprio quadrante de nossa veleidade faça sentido a realização de outra Vontade, enraizada no Eu Sou essencial, que possibilitará a superação do luto – esse redondo intervalo sombrio.

Eis a necessidade da travessia que, se realizada, incandescerá em nós a esperança: o amor é mais forte do que o sofrimento, do que a morte. E se possuirmos essa fé, essa adesão à confiança essencial, a essa luz que não pode ser extinta pelas trevas da dor, conseguiremos internalizar, pouco a pouco, que somos seres de passagem e, por isso, nossa condição de viageiros e que partem em dias e horas inesperadas.

De qualquer maneira, a vivência dessa grande dor sulcará a abertura do coração (do coração como centro do Ser). E essa abertura revelará, em razão do sofrimento indescritível, o amor escondido nas profundezas do ser, apto a nos conduzir a um estado de lucidez antes não-conhecido, porque não vivido – o aprendizado da aceitação do inaceitável, expressado no gradativo “deixar ir”.

No final dessa travessia, então, poderemos descobrir, no silêncio de nós mesmos, o apaziguamento da angústia substituída pela saudade. O reencontro da paz, pois o tempo, sim, é o grande consolador.

*”Agora me deixem tranquilo. Agora se acostumem sem mim. (…) Porém porque peço silêncio não creiam que vou morrer: passa comigo o contrário: sucede que vou viver”… (Neruda)

**Saudade, meu irmão querido! Cuide-se e seja feliz, pois a vida e a sua vida continuam…

Eugênia Pickina

Sob o espelho

Sob o espelho

Toda ideologia se funda em algum tipo de ideia, e talvez até numa boa ideia. Porém, toda ideia que seja universalizada a fim de aplicar-se a todos e que não sofre dúvidas nem experimenta críticas internas, que polariza as pessoas, torna-se castradora, porque em si é regressiva.

Dito de outra maneira, qualquer ideologia (política, religiosa, psicológica etc.) que pretenda reduzir as complexidades do mundo, atenuando o fato de que somos obrigados a viver sem o conhecimento absoluto, é venenosa, porque tanto alimenta os impulsos mais escuros e deformados de nossa natureza como investe na manutenção de um “falso si-mesmo”.

Os que oferecem respostas fáceis não entendem as perguntas. Então, permanecer no território adstrito de uma ideologia, abrindo mão da experiência ímpar de se tornar protagonista do próprio drama existencial, é confinar-se a um padrão de dependência – uma expressão de um estado regressivo.

Cada um de nós pode, às vezes, regredir influenciado por um padrão ideológico, pois quantas fugas  do abismo em cima do qual caminhamos diariamente fomentam confortos e caprichos reiterados, segundo uma sistemática evitação da dor. Mas isso necessita ser superado para que desistamos da necessidade egóica de ter certezas e a vivenciar, até mesmo apreciar, a ambiguidade e as incertezas de nossa condição.

Lamentavelmente, quanto mais uma cultura se torna materialista, mais propensa se torna ao fundamentalismo, às adulações dos comerciais, à sedução do pensamento massificado, à medida que esses mecanismos ideológicos oferecem uma momentânea supressão da dor espiritual, um escudo contra as asperezas da idade adulta psicológica, exigente do movimento ascendente de evolução da consciência.

Quanto mais vivemos, mais notamos que o máximo que podemos nos oferecer diante das vicissitudes e dos desafios é nossa sincera disposição de empreender a jornada.

E essa disposição implica desenvolver nossa habilidade de introspecção, pois ela pode nos livrar das ciladas ideológicas que prejudicam a ânsia da alma, constatada através do tempo e da vida individual. Como disse Jung: “cada pessoa é um novo experimento da vida em suas incontáveis inconstâncias de humor, e uma tentativa de nova solução”.

Eugênia Pickina