Todos nós haveremos de experimentar a perda de um ente querido algum dia.
E é a certificação do Eu Sou essencial, no próprio âmago da nossa mortalidade, que nos confortará, pois é da lei natural cada um de nós caminhar, pela morte, rumo à outra dimensão (creiamos nisso, ou não)…
E se o Cristo não explica o sofrimento, mas o encara de frente (e como um inocente) a fim de atravessá-lo, é este exemplo que nos serve para transformar todos os becos sem saída de nossa fugaz existência em vias abertas, para permitir que no próprio quadrante de nossa veleidade faça sentido a realização de outra Vontade, enraizada no Eu Sou essencial, que possibilitará a superação do luto – esse redondo intervalo sombrio.
Eis a necessidade da travessia que, se realizada, incandescerá em nós a esperança: o amor é mais forte do que o sofrimento, do que a morte. E se possuirmos essa fé, essa adesão à confiança essencial, a essa luz que não pode ser extinta pelas trevas da dor, conseguiremos internalizar, pouco a pouco, que somos seres de passagem e, por isso, nossa condição de viageiros e que partem em dias e horas inesperadas.
De qualquer maneira, a vivência dessa grande dor sulcará a abertura do coração (do coração como centro do Ser). E essa abertura revelará, em razão do sofrimento indescritível, o amor escondido nas profundezas do ser, apto a nos conduzir a um estado de lucidez antes não-conhecido, porque não vivido – o aprendizado da aceitação do inaceitável, expressado no gradativo “deixar ir”.
No final dessa travessia, então, poderemos descobrir, no silêncio de nós mesmos, o apaziguamento da angústia substituída pela saudade. O reencontro da paz, pois o tempo, sim, é o grande consolador.
*”Agora me deixem tranquilo. Agora se acostumem sem mim. (…) Porém porque peço silêncio não creiam que vou morrer: passa comigo o contrário: sucede que vou viver”… (Neruda)
**Saudade, meu irmão querido! Cuide-se e seja feliz, pois a vida e a sua vida continuam…
Eugênia Pickina
