Pode demorar, mas um dia você compreende que algumas pessoas realmente não se importam. Elas, por histórias distintas, não assimilam o quanto vale a pena se deixar arrebatar por um encontro, abrindo o coração.
Essas pessoas morrem lentamente. Necessitariam, talvez, de uma experiência estarrecedora para destrancar o coração a fim de se tornarem sensíveis à luminosidade do convívio.
Num mundo tão desigual, comum é a ocorrência de estados de consciência tão diversos, e por isso bem e mal convivem solitariamente solidários, mesmo que não pareça assim…
E embora isso justifique a incômoda impotência diante da indiferença de tanta gente, talvez o que nos caiba seja tão-somente fazer a nossa parte com coragem, compartilhando saberes e práticas para acrescentar mais luz a este Ethos bendito que nos hospeda, dada nossa condição de passantes.
Em síntese, ainda que haja circunstâncias adversas, influências mentais e emocionais tóxicas, ainda que a indiferença domine grande parte do convívio que enlaça o ser humano e a natureza, somos responsáveis por nós mesmos e temos o direito de viver larga e profundamente, evitando o morrer lento, comum àquele que se nega a florescer nos encontros.
Eugênia Pickina
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Sob o evento da graça
Podemos evocar as Graças que se juntam a nós quando nos pomos em contato com o outro e de um ponto de vista diverso dos nossos habituais julgamentos que necessitamos mascarar.
Então, esses encontros permitem tanto a extensão do coração ao céu como a inclinação em direção a terra, enraizando-nos com o outro, porque dissipadas as defesas e, como ressonância, uma partilha transparente.
Em quantos momentos a nossa vida se suavizou através do contato de alguém que nos consolou, nos valorizou, nos aceitou como somos?
Quando a mão da mãe foi doce, a mão do pai foi leve, ou quando fomos tocados como o Mistério que somos, de acordo com a luz que está sutilmente acesa em nossa matéria?
Tudo isso compõe o que somos – suscetíveis ao amor, à solidariedade e à gratidão, naturalmente receosos contra os preconceitos, a intolerância, a ausência do perdão.
Em cada encontro humano é possível apreender um pouco da Graça, porque podemos colher a alteridade do outro nele contido. Assim, despidos da prisão do julgamento, podemos nos dar a oportunidade de amar o diferente, ainda que não o compreendamos…
Talvez o segredo da Graça resida no fato de que amar não é pedir para ser amado, porém querer amar pelo amor apenas.
Sabemos que há muita sede em nós, muitos desejos e carências, mas, em razão da nossa luz, de tal sorte, é provável que consigamos dar sem nada esperar em troca. É raro, mas é isso que faz a Graça emergir do nosso íntimo para afirmar que a gratuidade é uma qualidade do amor…
Assim, não só da tirania do egoísmo vivemos.
Com efeito, num corpo e noutro corpo encontramos compaixão e vias abertas que provocam em nós transformações e avanços, pois nossa existência é feita de várias existências, sem subestimar o fato de que as folhas amarelas dão lugar às flores na primavera, sob o Sopro do inesperado vir-a-ser.
Eugênia Pickina
Ser-capaz-de-escutar
No geral, a nossa existência social é tão coagida e apressada que o encontro se torna difícil e raramente dá um resultado positivo.
Assim, é verdade, que de alguma maneira o ser-capaz-de-escutar possa se colocar como uma precondição da orientação comunicativa de mundo que possibilite uma brecha para um possível encontro. Em todo caso, isso, ao menos, nos retiraria da experiência de solidão e de incompreensão, estreitamente ligada ao descaso com a vida de relação.
Sem correr grave perigo, o ponto de vista alheio pode ser valioso, pois dá acesso a uma via para a escuta do conhecido (ou o sabido) e do ignorado (o não-sabido), meio que faz irromper alétheia, o descobrimento.
Escutar solicita a não-indiferença àqueles que partilham seus saberes e experiências conosco. E é claro que nem sempre isso é tranquilo, pois, no geral, somos treinados, culturalmente, a duvidar dos sinais da vida e das escolhas disponíveis àquele que sabe ouvir.
Intuitivamente, consideramos que a rede da Vida indica os relacionamentos como caminhos para que ampliemos nossa criatividade e sensibilidade com as outras pessoas. Mas, como hábitos cristalizados, em muitas ocasiões, estar em companhia provoca dispersão…
Como a nutrição íntima depende da capacidade de prestar atenção às nossas necessidades e sentimentos, o saber escutar pode favorece uma maior consciência sobre o que necessitamos de fato, porquanto a Mãe Terra coloca à nossa disposição muitos interlocutores diferentes, aptos a nos ajudar a descobrir respostas às nossas perguntas mais essenciais.
Além disso, a habilidade da escuta evita o desperdício do precioso tempo de outras pessoas, pois impede que joguemos, nelas, queixas ou enunciados vazios. No lugar das lamúrias, mais cientes da nossa autoexpressão, simplesmente nos colocamos à escuta, atentos aos perigos de recair no “tagarelar” em vez de compartilhar.
Para ir além de nós mesmos, precisamos acolher a atitude que implica um distanciar-se de si mesmo, pois não há escuta possível quando estamos colados ao próprio corpo. Ao contrário, a escuta possível depende do despojar-se do “eu já sei” para honrar a comunicação de o outro.
Eugênia Pickina
