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Como açúcar na vida

Como açúcar na vida

purpleliatris“Uma pessoa não se torna iluminada ao imaginar formas luminosas, mas sim ao tornar consciente a escuridão”. (Jung)

Todos nós já vivenciamos situações em que nos sentimos desorientados e perdidos. Uma razão opõe-se outra, e quanto mais procuramos compreender, mais a realidade escapa da nossa visão do mundo, no geral fundada em posturas dicotomizadas, que opõem o bom ao mau, o certo ao errado.

O sofrimento nunca é bom, quem diria o contrário? Porém, ele exige ser atravessado, como explica Jean-Yves Leloup. Entretanto, conseguir passar lucidamente através dos acontecimentos sombrios de nossa vida não é uma tarefa fácil.

E aqui me refiro também à situação da solidão da incompreensão.  Aquela circunstância em que não somos entendidos e estamos proibidos (por razões diversas) de exercitar, em boas condições, o direito de fazer-se compreender para poupar-se da sensação de vacuidade.

Aprendi, no entanto, que a pessoa que se conhece evitará a todo o custo qualquer julgamento em relação aos outros, pois reconhece que um dos medos mais incisivos diz respeito às práticas que nos fazem menos tolerantes e, por isso, não libertos justamente das nossas crenças e preconceitos.

Quanto maior for a recusa em relação ao diferente, maior será a dificuldade em reencontrar a capacidade que nos abre para a vida intersubjetiva e, com isso, as realidades que nos aproximam, não do julgamento, mas sim do entendimento, mesmo que haja dissensos e ideias divergentes.

Como o ego não é algo a ser esmagado, mas a ser ajustado para dar espaço à vida de relação, ou seja, às trocas e às amizades, muitas vezes, de forma irracional, no lugar da partilha honesta, usamos o interlocutor para censurar nele as nossas próprias fraquezas e defeitos.

Assim, nas situações de intolerância, se formos capazes de dizer “sim” à diversidade, ao diferente, haverá brecha para a superação da prática do espelhamento/julgamento, porque, no cerne da própria sombra, pode haver uma semente que permita, ao invés da atitude preconceituosa, o mergulho luminoso na diversidade, apto a gestar ricos aprendizados.

Uma boa maneira de se averiguar a qualidade dos sentimentos, sem dúvida, reside nas relações interpessoais.  Ora, pode ser difícil ser amistoso àquele que nos maltrata ou nos rejeita como somos. E o que isso gera em nós: raiva, insegurança, mágoa, indiferença, compaixão?

Uma hora, certamente, cansamos de querer aprovação e decidimos viver em acordo com o que somos. A metanoia pode ter início quando decidimos ser tudo aquilo que realmente somos, ou seja, essa mistura de sombra e luz, tentando nos melhorar, porém sem nos massacrar pelos nossos defeitos e erros. Além disso, essa mudança de mentalidade exige que essa mesma liberdade seja estendida aos outros.

Desse modo, mesmo que lentamente, abrimos mão da ilusão de que a possibilidade de florescimento é projetada em apenas algumas pessoas, pois essa visão, distorcida, fundada na síndrome de Jonas, é resultado de um preconceito que ainda, infelizmente, se perpetua no espaço-tempo.

Na verdade, todos nós somos convocados a realizar uma tarefa intransferível. E para que o nosso trabalho seja feito de forma mais serena, basta que nossa ação esteja, em todas as áreas da nossa vida, integrada ao afeto, ou, ao menos, a mais tolerância.

Eugênia Pickina

Uma ideia sobre a metanoia

Uma ideia sobre a metanoia

Nenhum de nós está a salvo de momentos de medo ou letargia. A questão significativa é se essa atitude (irrigada pelo medo ou pela letargia) está muito presente na conduta geral de nossas vidas. Sempre que há uma fixação por uma mania, uma aderência a algum preconceito, ou uma necessidade de controle que trazemos para nossas relações, uma recusa de mudança enfraquece nossa vontade e reforça o distanciamento do melhor de nós mesmos, naturalmente inclinado a significativos avanços e suas práticas correspondentes.

 

Uma evitação da possibilidade de expandir a consciência, ou abrir o coração, nos manterá circunscritos em uma forma de infância psicológica, diariamente reativada pelo desejo de cuidados, o que aponta uma dificuldade de caminhar com os próprios pés.

 

Mas, quando uma pessoa decide tomar o caminho do autoconhecimento, a ela se integrará o campo da mudança de mentalidade, a metanoia, que positivamente debilita a sabotagem dos relacionamentos e das boas oportunidades, ativando os recursos internos e externos para a trilha da individuação.

 

O sinal de que a metanoia realmente nos tocou é que não aceitamos mais viver da mesma maneira que antes. Procuramos compreender tanto sobre o ocorrido como sobre o vir-a-ser e, desse modo, integramos a humildade necessária para apreender um discernimento mais nítido sobre nós mesmos e sobre as situações que nos cercam, pois pitadas de espírito novo introduzem outras cores à rotina e ao presente, preparando-nos para novos pontos de partida. Dito de outro modo: Para atingir o ponto que tu não conheces, tu deves pegar o caminho que tu não conheces (San Juan de la Cruz).

 

Eugênia Pickina

O mundo é passagem

O mundo é passagem

Manter a autoestima saudável nos testa em muitos níveis, pois precisamos valorizar nossos dons, explorando-os com discernimento e responsabilidade. Além disso, para o nosso próprio bem, é importante que sejamos nem mais nem menos do que humanos, o que requer humildade. E por que isso é difícil?

Muita gente é facilmente influenciada pela vida aparentemente “perfeita” dos “famosos” e rejeita o fato de desempenhar um papel banal na sociedade, pois seduzida pela ameaça de insignificância, sucumbe às ilusões do culto à imagem e ao desejo infantilizado de sucesso ou fama…

Na vida real, é fundamental que tenhamos disponibilidade para dar espaço em nossas tarefas cotidianas à presença de nossa expressão criativa, pois a busca de metas que estão além do alcance das próprias habilidades claramente pode conduzir a pessoa a situações perigosas, como é o caso de desastres psíquico-emocionais tecidos em sonhos grandiloquentes ou estranhos às aptidões pessoais.

William James explicou certa vez que aqueles que se preocupam em tornar o mundo melhor poderiam começar por si mesmos. Não seria ousado dizer que a valorização da nossa forma pessoal de colaboração, cindido do vício da imitação ou da comparação, seria realmente a nossa justa e digna cota junto aos nossos semelhantes.

Nossa sociedade necessita não somente de gênios e famosos, mas de pessoas comuns e dispostas a trabalhar em silêncio em prol de si mesmas, dos outros e do destino planetário.

Ao exercitar nossa inclinação natural ao bem e ao belo, podemos auxiliar a metanoia de alguns séculos de individualismo competitivo, cuja motivação principal reside no poder sobre os outros, para a construção do novo paradigma civilizatório, no qual, com base na cooperação e no respeito mútuo, possamos dar crédito à nossa maneira de ser sem temer nossos limites humanos. E, despidos dos condicionamentos cristalizados pela falta de confiança, causadores de frustrações e angústias, poderemos com discreta alegria honrar nossas esperanças e sonhos mais profundos para avançar na jornada.

 

Eugênia Pickina