Podemos evocar as Graças que se juntam a nós quando nos pomos em contato com o outro e de um ponto de vista diverso dos nossos habituais julgamentos que necessitamos mascarar.
Então, esses encontros permitem tanto a extensão do coração ao céu como a inclinação em direção a terra, enraizando-nos com o outro, porque dissipadas as defesas e, como ressonância, uma partilha transparente.
Em quantos momentos a nossa vida se suavizou através do contato de alguém que nos consolou, nos valorizou, nos aceitou como somos?
Quando a mão da mãe foi doce, a mão do pai foi leve, ou quando fomos tocados como o Mistério que somos, de acordo com a luz que está sutilmente acesa em nossa matéria?
Tudo isso compõe o que somos – suscetíveis ao amor, à solidariedade e à gratidão, naturalmente receosos contra os preconceitos, a intolerância, a ausência do perdão.
Em cada encontro humano é possível apreender um pouco da Graça, porque podemos colher a alteridade do outro nele contido. Assim, despidos da prisão do julgamento, podemos nos dar a oportunidade de amar o diferente, ainda que não o compreendamos…
Talvez o segredo da Graça resida no fato de que amar não é pedir para ser amado, porém querer amar pelo amor apenas.
Sabemos que há muita sede em nós, muitos desejos e carências, mas, em razão da nossa luz, de tal sorte, é provável que consigamos dar sem nada esperar em troca. É raro, mas é isso que faz a Graça emergir do nosso íntimo para afirmar que a gratuidade é uma qualidade do amor…
Assim, não só da tirania do egoísmo vivemos.
Com efeito, num corpo e noutro corpo encontramos compaixão e vias abertas que provocam em nós transformações e avanços, pois nossa existência é feita de várias existências, sem subestimar o fato de que as folhas amarelas dão lugar às flores na primavera, sob o Sopro do inesperado vir-a-ser.
Eugênia Pickina
“O longo dia chega ao fim: a lua sobe lentamente: os Profundos lamentos dobram muitas vozes. Vinde, meus amigos, não é tarde para procurar um novo mundo”