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Sob o evento da graça

Sob o evento da graça

Podemos evocar as Graças que se juntam a nós quando nos pomos em contato com o outro e de um ponto de vista diverso dos nossos habituais julgamentos que necessitamos mascarar.

Então, esses encontros permitem tanto a extensão do coração ao céu como a inclinação em direção a terra, enraizando-nos com o outro, porque dissipadas as defesas e, como ressonância, uma partilha transparente.

Em quantos momentos a nossa vida se suavizou através do contato de alguém que nos consolou, nos valorizou, nos aceitou como somos?

Quando a mão da mãe foi doce, a mão do pai foi leve, ou quando fomos tocados como o Mistério que somos, de acordo com a luz que está sutilmente acesa em nossa matéria?

Tudo isso compõe o que somos – suscetíveis ao amor, à solidariedade e à gratidão, naturalmente receosos contra os preconceitos, a intolerância, a ausência do perdão.

Em cada encontro humano é possível apreender um pouco da Graça, porque podemos colher a alteridade do outro nele contido. Assim, despidos da prisão do julgamento, podemos nos dar a oportunidade de amar o diferente, ainda que não o compreendamos…

Talvez o segredo da Graça resida no fato de que amar não é pedir para ser amado, porém querer amar pelo amor apenas.

Sabemos que há muita sede em nós, muitos desejos e carências, mas, em razão da nossa luz, de tal sorte, é provável que consigamos dar sem nada esperar em troca. É raro, mas é isso que faz a Graça emergir do nosso íntimo para afirmar que a gratuidade é uma qualidade do amor…

Assim, não só da tirania do egoísmo vivemos.

Com efeito, num corpo e noutro corpo encontramos compaixão e vias abertas que provocam em nós transformações e avanços, pois nossa existência é feita de várias existências, sem subestimar o fato de que as folhas amarelas dão lugar às flores na primavera, sob o Sopro do inesperado vir-a-ser.

Eugênia Pickina

Nada menos que ousar ser

Nada menos que ousar ser

NSA-tp0010209“O longo dia chega ao fim: a lua sobe lentamente: os Profundos lamentos dobram muitas vozes. Vinde, meus amigos, não é tarde para procurar um novo mundo” (Ulisses, de Tennyson).

Quando nascemos, recebemos lentes diversas: a herança genética (e pretérita), o sexo, a cultura, o nosso ambiente familiar, e todas elas influenciam nossa ideia de realidade e nossa forma de ser/estar no mundo.

Mas qual dessas lentes é central, qual delas explicaria nosso devaneio, nossa angústia, nossa sede de mudança e habilidades criativas?  Talvez, aqui, seria interessante compreender a noção de que essas lentes formam um “contexto” multifacetado, que oferece muitos recursos que nos conduzem, ou nos impedem, para lugares cada vez mais amplos em nossa experiência.

Mas, ao mesmo tempo em que é sabido que as crianças são guardiãs de dimensões elevadas, com pouca frequência nos lembramos que a saída da infância é um requisito necessário para o crescimento. E, como o reino da psique não se curva ao tempo cronológico (Khrónos), isso não altera o fato de que o que está no começo está presente o tempo todo, servindo como o impulso para a realização do Si-mesmo, segundo o auxílio de nossas forças vitais.

Jean-Yves Leloup afirma que há um desvio de percurso quando “não podemos impedir a nós mesmos de fazer o que o programa parental nos dita”. Trata-se, nesse caso, de ficar prisioneiro dos padrões sociofamiliares e, por razões diversas, passar a temer a escuta do desejo mais íntimo, vivendo uma existência traída, imposta (não-escolhida), distorcida.

Como o ser humano é um vasto projeto,  a pessoa evolui se desejar e à medida que trilhar o caminho da individuação. Para isso, há que resistir à normose, enfrentar os medos, fazer render seus talentos e intuir, serenamente, que estamos vivos para ser.

Transgredir os limites que nos asfixiam é uma tarefa que chama o herói e a heroína de nosso coração. Isso tende a facilitar os processos que nos ajudarão a nos tornar aquilo que trazemos em semente e latências (o vir-a-ser).  Até porque diz uma antiga profecia hopi: “nós somos aqueles que estamos esperando”…

Uma boa pergunta: “o que tenho a fazer na vida que é intransferível?” E outra fecunda pergunta para cada um de nós: “qual é a forma única através da qual a Clara Luz, a Inteligência Cósmica, se manifesta em mim?”

O caminho da individuação é uma tarefa inelutável. Mas, é importante recordar que o tornar-se diferenciado (liberto do “comportamento de ovelha”) é distinto do impessoal ou do narcísico… O itinerário da diferenciação está estreitamente ligado a uma abertura que faz com que a pessoa se transcenda a si mesma para expandir-se em outras dimensões –  e, sem fugas ou lamentos, ela poderá, de forma multifacetada, única-e-criativa, manifestar a vida e co-criar o bem e o belo no mundo.

Eugênia Pickina – Palavra Terra