Acerca do sonhador

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sonhos“Somos da mesma matéria de que são feitos os sonhos; nossa breve vida está rodeada por um sono” – Shakespeare, A Tempestade.

O contínuo interesse pelo mundo interior pode ajudar o bem viver porque auxilia uma melhor adesão aos reais movimentos da alma, que não são lineares como se desejaria, e cujo fim se destina a aprofundar a fidelidade ao Si-mesmo (Self), fonte incessante de pistas expressivas para o nosso caminhar.

Uma boa forma de acessar o cenário íntimo é por meio da atenção aos sonhos, porquanto suas mensagens derivam da alma. No entanto, essas mensagens são estruturadas a partir de uma linguagem simbólica, cuja assimilação depende das três potências da alma, isto é, intelecto, vontade e memória (também chamada afeto).

A atitude geral de respeito para com os sonhos é praticada desde o mundo antigo; foi um sonho de seu pai que inspirou Galeno a tornar-se médico, e Heráclito afirmava que os homens, quando dormem, apartam-se dos outros e do exterior, adentrando os mistérios do seu próprio mundo.

Mas se os sonhos na literatura antiga respondem a uma atitude predominantemente religiosa, Platão, embora não tenha criado uma teoria dos sonhos, deixa claro que o conteúdo onírico é determinado pela parte ativa da psique. Já Aristóteles, considerado uma grande autoridade em sonhos, admitia o sonho como estímulo para ações futuras do sonhador.

Além disso, segundo uma abordagem médica aos sonhos na Grécia, o próprio Hipócrates tanto considerava a presença de influências divinas nos sonhos, como entendia que através deles temos acesso a coisas que de outra maneira estariam vedadas ao nosso conhecer.

Um sonho pode fornecer uma pista importante à medida que, inerente ao seu quadro imaginal, jaz escondido um sentido a reclamar reconhecimento. Desse modo, a palavra “sentido”, aqui, equivale à função de trazer à consciência (estado de vigília) material predominantemente ligado ao eixo consciente-inconsciente e que poderá ser usado, se interpretado e assimilado, em benefício do crescimento individual.

Como os sonhos podem nos inspirar, têm razão aqueles que nos recomendam “cadernos noturnos”, pois através dessas anotações costumeiras poderemos decifrar enigmas e sinais sobre prelúdios e eventos para, com isso, nos sintonizar com eles.

Assim, se os sonhos forem examinados com paciência, podem traduzir a transparência do mundo interior, geralmente sombreado e incerto, estimulando mais e mais a busca de uma verdade interior do sujeito-sonhador.

À medida que o conhecimento trazido pelos sonhos se orienta por um conteúdo interior, ou seja, diz respeito a algo peculiar ao sonhador, torna-se um interlocutor eficaz a quem se pode fazer perguntas e, ao mesmo tempo, esperar respostas.

Infelizmente, como a nossa cultura oferece pouca mediação simbólica, se nos dedicarmos aos sonhos poderemos fortalecer a comunicação entre ego-Self e entre Self-Cosmos, valorizando um relacionamento mais profundo e honesto com nossas vidas. E, abertos a um contexto mais amplo, estaremos mais instruídos para definir nossas reais necessidades, deixando aflorar nossas qualidades e dons, cientes de que a educação da alma é processo interminável.

Eugênia Pickina

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