Sentimento de Estrangeiro-ParteII

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(Parte dois)

Mecanismos de sobrevivência

Os mecanismos de sobrevivência são estratégias desenvolvidas inconscientemente e têm como objetivo uma maior adaptação e sobrevivência ao meio. Dividiremos aqui de uma forma didática, mas estes mecanismos costumam se somar, de forma que cada indivíduo pode se utilizar de vários ao mesmo tempo. É bem possível que ainda existam outros não mencionados.

Auto-suficiência – Tendem a buscar encontrar seus próprios caminhos na vida. Porém, em função de sua autonomia e das frustrações que vai vivenciando, desenvolvem com frequencia um sentimento de individualismo e auto-suficiência. Confiam mais em si mesmos e não contam muito com as pessoas.
Arrogância – Às vezes, para lidar com o sentimento de menos-valia, gerada pela sensação de inadequação, tornam-se arrogantes. E apesar do desejo de pertencer, reforçam a própria diferença. Muitas vezes, sobrevivem procurando se sentir especiais, no sentido de acima e melhores. Orgulham-se de sua inteligência, sensibilidade, intensidade, profundidade, criatividade etc,. E, com isto, apesar de admirados, tornam-se cada vez mais solitários.
Melancolia – Alguns são afetados de forma drástica pela melancolia, dando asas à sua nostalgia e apegando-se à dor da separação. Tornam-se muito insatisfeitos com a vida e com tudo em volta, entrando, às vezes, em depressão ou em outros transtornos psicológicos.
Adaptáveis – Alguns procuram esquecer sua diferença e fazem tudo o que podem para parecerem iguais a todos os outros. Tentam esconder o que se passa em seu íntimo, mas continuam se sentindo diferentes e incompreendidos.
Desvinculados – Outros mergulham em estudos e pesquisas para não pensarem em suas próprias vidas, se vinculam com o objeto de sua atenção para atender sua curiosidade. No entanto, esses objetos dizem respeito ao intelecto, animais e plantas e não com o ser humano. A intenção do indivíduo aqui é não estabelecer muitos vínculos com as pessoas.
Comunicativos – Alguns desses indivíduos têm uma grande capacidade de comunicação e doação; no entanto, não deixam que cheguem muito perto com receio de, mais uma vez, se sentirem feridos. Por isso, tornam-se solitários mesmo em meio a multidão: podem até se comunicarem, porém sem conseguirem “pertencer”.
Alienados – Outra forma comum de sobrevivência é a alienação. É natural que esses indivíduos fiquem fora do ar, desconectados (as) da realidade prática da vida, tendo que fazer muito esforço para lidar com seus compromissos práticos. Tendem a ser alheios ao que acontece próximo de si e no seu meio. São distraídos e perdem facilmente as coisas, só se ligam naquilo que está no campo de seus interesses.
Sonhadores – Existem também aqueles que ficam meio alados, descorporificados, desencarnados. Esses desenvolvem um corpo frágil, não toleram exercícios, não têm muita vitalidade e também são muito introspectivos e sonhadores.
Distraídos – São aqueles que estão sempre distraídos, sem foco, fazem muitas coisas ao mesmo tempo, ávidos de informações, estão sempre iniciando algo novo, um novo projeto que não terminam ou perdem muito energia para dar conta de todos. Têm dificuldade de concentração, de atenção e, às vezes, de memória. São desorganizados e indisciplinados.

Os mecanismos de sobrevivência desempenharam importante função durante a vida destes indivíduos. Ajudando-os seguramente a lidarem com o dia-a-dia, mas como são inconscientes, não são funcionais como gostariam que fossem.
Desta forma, em algum momento, se tornaram disfuncionais causando mais dor e desconforto do que vantagens ou benefícios. Uma vez identificado os mecanismos usados com mais freqüência, é necessário refletir e encontrar outras estratégias substitutas, mais eficientes. Este processo às vezes é muito complicado, necessitando em muitos casos de ajuda psicológica para que se efetive esta mudança e transformação. É difícil desapegarem-se daquilo que de certa forma os manteve “vivos” até agora. Mas na seqüência desta série de textos, faremos algumas reflexões para facilitar este processo de mudança.

Estratégias compensatórias

São estratégias utilizadas inconscientemente. Elas visam compensar e aliviar a dor profunda do sentimento de estrangeiro.

Andarilhos – Não se vinculam a nada nem ninguém, vão em busca de uma fonte externa de preenchimento, têm fome do novo, de contato com a diferença, porém sem vinculação. A cada novo lugar é tomado por uma esperança de ter finalmente “encontrado”, seguida de uma profunda frustração, pois percebe que não foi dessa vez e se põe novamente a caminho… Muitos perdem totalmente a esperança e vagam sem destino algum em busca contínua de novas experiências.

Viajantes – Têm o sonho de que encontrarão em outras cidades, países, culturas, a paz, preenchimento e nutrição que tanto anseiam. Desejam, desta forma, ser acolhidos e tornar-se parte deste novo local, mas na realidade não são dali e novamente vem a sensação de “não-pertencimento”. Alguns se tornam “almas ciganas” e passam a viajar de lugar em lugar sem expectativas, a não ser a de continuar a caminho.

“Viajantes”- Buscam o “estado alterado de consciência” através do uso de substâncias psicoativas, para uma viagem interna em busca de si mesmo, buscando dar um sentido ao vazio existencial. Buscam o preenchimento através das experiências interiores e mergulham no mar do inconsciente, em busca de respostas nem sempre encontradas. Muitos intensificam esta busca e perdem a referência de si mesmos ou do próprio caminho.

Visionários – Buscam através de construções concretas trazer o “Shangri-lá”, o paraíso perdido, para o plano terrestre ou criam comunidades para uma “convivência harmoniosa” entre pessoas das mais diversas procedências. Como promessa de um mundo novo possível.
Antecipam uma realidade ainda dificilmente sustentada. Alguns fazem desta busca o motivo central de sua existência e passam a viver de sua visão e muitas vezes perdem o contato com a realidade próxima.

Por Eugênia Pickina, Flávio Vervloet, Isabel Muller, Jossânia Veloso, Vilma Domeneghetti

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  1. Ha diferentes mecanismos de sobrevivencia como os afirmados neste texto, porém distinguir os seres humanos dessa forma, achei de profundo radicalismo, eu na verdade utiliso em minha sobrevivencia todos os citados, o que é o ser Humano? Um ser adaptável em qquer circunstancia sim. Trabalhamos, amamos, formamos amizades, sofremos decepções, sentimos tristezas alegrias, enfim vivemos e essa forma de viver nada mais eh q mostrar o q somos, mesmo quando não sabemos se estamos certos ou errados….

    • Oi Cleusa,
      Grato pelo comentário. Este texto descreve sobre sentimento de estrangeiro, algo que nem todo mundo sente. É um sentimento de provoca muita dor, principalmente a de se sentir longe de “casa” e do sentimento de não pertencimento. O termo mecanismo de sobrevivência é apenas um nome que traduz uma busca de adaptação. Acontece que este movimento nem sempre traz o alivio esperado, e defini-lo nos ajuda a olhar profundamente em busca desta dor original e aprendermos a lidar com ela.
      Convido a você ler as outras partes deste texto (sentimento de estrangeiro) no Blog.
      E concordo com você que vivemos nossa vida, dando nosso melhor, e que nossa humanidade vai alem de rótulos.
      Abraços,

  2. Peço desculpas, exagerei na minha colocação ( Radicalismo) na verdade eh um texto muito bem escrito e fundamentado em verdades claras e objetivas. Gostei muito. Obrigada tbm!!!!Um abraço

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