Cartas de amor

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picassoEscrever cartas me seduz, pois o ímpeto se dá na direção de baixar a alma às relvas, depois subi-la nas velhas escadas, nas coisas novas e no tempo acesas, antes que o outro repare o meu olhar na sua humana e divina existência, à medida que o corpo, distraído, não vigia e, por isso, conta-me suas paixões e memórias… Eu, à espreita.

Escrevi muitas cartas durante a vida. Hoje, o e-mail ocupa o lugar da tinta, que me causa desembaraço, pois não preciso mais ir ao correio para pô-la na via do destino… Basta-me o perfume e a cor das flores, dos medos e do asfalto cálido e ajo às vezes como se recebesse o beijo de um anjo, que inspira e me faz enfrentar o riacho guri e os olhos do africano, que tornam inválidos meus poemas sobre o mundo, pois apenas quem muito sofreu pode arriscar um suspiro sobre o estremecimento da árvore que sacudiu ao abraço do vento…

“Todas as cartas de amor são ridículas”, argumenta Pessoa…

Contudo, o amor deseja ser contado, deseja ser retirado do fundo do coração. “Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”, exprime um Fernando convicto, que compreendeu, no labirinto do poema, algo sobre o amor…

Ridícula seria, pressinto, a velha angústia de quem não ama e não se permite sentimentos súbitos como um estranho, excessivamente abaixo – virado do interior em direção aos astros…

Sem dúvida, quem busca o amor buscado, no lugar dos desertos, à beira de um tímido lago ou do vasto mar, gozará os segredos do sentir-pensar, que poderão ser traduzidos para a luz, pois há bastante amor nele e suficientes serão o voo e o desatino.

As cartas de quem ama diz isso: todos os passos onde não estou e a andar lucidamente para prestar atenção e conhecer o outro (o amado) melhor por dentro, como distinto deste eu-mesmo, que o procura alegremente no interior-exterior para, enfim, gozar juntos a ressonância das vidas.

As cartas de amor despem o sono e tingem palavras que recordam a esperança do dia seguinte: enamorados sempre, mesmo que haja nevoeiros…

Eugênia Pickina – Palavra Terra

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  1. Pingback: Recomendação dia: Cartas de Amor « spagbas

  2. Querida Eugênia.
    Ainda guardo com muito carinho as cartas que me escreveu quando saí de Londrina, são verdadeiros poemas! Parabéns pelo lindo texto! Saudades!

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