Contrametáforas

Padrão

ventoUma das mudanças principais alavancadas pela modernidade é a cisão mítica com o cosmos ou às dimensões do Mistério. Segundo Jung, as encarnações do significado, antes oferecidas pelos mitos e ritos, recuaram do Olimpo para o plexo solar, dando surgimento às existências neuróticas, superficiais e à árida sensibilidade dos modernos.

É claro que não podemos, enquanto civilização, recuar no tempo e aceitar o literalismo dos mitos, porquanto é impossível uma atitude inconsciente diante do viver. Assim, somos convidados a tentar uma leitura interna de nosso mundo, pois, do contrário, deixaremos de empreender um discernimento sobre o(s) movimento(s) da alma e as metáforas que dramatizam nossas vidas.

A própria depressão aclara isso.

A depressão leva o sujeito para baixo. Diminui o ritmo, desacelera a atividade mental. Recursos da farmacologia à parte, na depressão somos lançados, segundo James Hillman, no vale da alma… Ela quer nos revelar algo.

Não querer se abrir a isso ajuda a recair no fato de que nosso sofrimento pode se tornar patético, ou seja, inconsciente e disposto a nos fazer vítimas.

E se a nossa psicoterapia e psiquiatria modernas estão reguladas pelo Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, nenhum estudante ligado à área da saúde (acadêmica) aprende, por exemplo, que se o sujeito perde o entusiasmo, o apetite, pode ser uma pista para um Ares reprimido.

Em geral, se há um esforço nobre de se encontrar padrões de comportamento universais e um plano de tratamento que facilite a uniformidade da intenção (recurso de controle), isso pode levar a uma generalização excessiva do indivíduo, convertido tão-só a uma norma estatística e ao continuum (não-desvendado) de seu sofrimento.

Recentemente conversei com uma amiga que estava angustiada por causa da luta com seu filho já adulto, o qual ela ainda protege e sustenta. Exausta pelo prolongamento da maternidade, e isso acrescido por problemas pessoais, ela contou que se via “atacada por uma depressão”. Nitidamente, nela há uma “raiva virada para dentro” e um sentimento de culpa crônica e, por isso, tive que confessar a ela os limites realísticos de seus poderes (em relação ao filho) e pedir-lhe que buscasse ajuda de um médico, mas também de um terapeuta para que entendesse, em conexão com seu mundo interno, qual deusa estava excessivamente constelada

Do mesmo modo que a Psicanálise não é um substituto para a religião (ou para a dinâmica da religiosidade), o modelo médico, por si mesmo, não pode nada prescrever para a cessação da alma ou do seu movimento.

Sem desmerecer o valor de esses saberes e práticas que tratam/promovem a saúde e o bem-estar, o trabalho essencial, penso eu, é assumir a tarefa da individuação e, desafiado pela arena da psique, querer aventurar-se para enxergar de novo ou, criativamente, de novas maneiras.

Eugênia Pickina – Palavra Terra 

Anúncios

»

  1. Obrigado pelo seu texto. O quão duro pode ser o momento de sofrimento vivido, mas quão benéfico ele se torna para a vida daquele que por ele passa. É o velho paradoxo deixado para nós, os caminhantes da Terra. Creio, essencialmente, que não se pode mesmo – ao menos para quem realiza uma busca consciente – sintetizar os problemas vividos apenas numa seara. Afinal, somos a junção dos sentidos energéticos, psíquicos, físicos e espirituais.
    São textos como este que nos fazem refletir – de modo expansivo e construtivo – sobre o peso (excessivo) da medicina, da psiquiatria e da materialidade em nossas vidas (e na de muitos). Gracias!

    • Obrigada pelo expressivo comentário! De fato, seus argumentos aclaram minha (módica, mas sincera) proposta. Sou, então, quem agradece… Sigamos!

  2. Pingback: Recomendação: Contrametáforas « spagbas

  3. Texto genial. Este mês (maio de 2010), saiu na Galileu Galilei que a depressão, segundo a psicologia evolutiva, faz parte do processo evolutivo do homem… É um momento em que o indivíduo se vê obrigado a olhar para si mesmo e ter que reconsiderar caminhos, atitudes, etc… Muito legal..bjus…

Escreva seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s