Sombra e voos

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É o bem que infunde a alma de vida, mesmo que assistamos diariamente ao cometimento de vários atos vis, que aparentemente minam a esperança e o otimismo histórico.

Paulo de Tarso confessou que, embora conhecesse o bem, por motivos que se situavam fora do seu controle consciente, ele não o fazia, porque à mercê da dinâmica camuflada da pulsão não-racional da vida.

Contudo, mesmo sob o mal reside a perspectiva do Bem. E por isso, atado à esperança, seria útil definir nosso gosto natural pela difusão do bom e do belo como aquela orientação que amplia nosso senso do possível e ao mesmo tempo nos ensina os limites necessários da condição humana, pois a cada um segundo o seu grau de entendimento.

Logo, o caminho é pontuado com diversos desafios: as ciladas do medo, as seduções do poder, as ilusões do hedonismo, as falácias teóricas e práticas do materialismo… Tudo isso movimenta a distração, o esquecimento ou a recusa da jornada…

Em sua longa viagem de volta para Ítaca, Odisseu precisou arrancar seus homens da Ilha dos Comedores de Lótus, cujos bagos doces reduziam as dores, e da magia de Circe, que os transformava em porcos… Todas essas tentações contribuíram para que a tripulação se apegasse ao abandono do compromisso com o retorno para casa.

À medida que internalizamos o fato de que somos convidados a realizar a travessia da inconsciência para a consciência, ou seja, da dependência (não-diferenciação) para a autonomia (diferenciação), cada um de nós é lançado na trama de um drama pessoal e único, no qual talvez estejamos seguindo um roteiro incerto, que oscila entre erros e acertos, mas em que, de certo, somos chamados a ser os protagonistas. Para isso, a necessidade cotidiana de abater a dominação imposta pelo caos (vindo de dentro e vindo de fora), as seduções doces da inconsciência para atingir uma condição lúcida mais elevada.

É sabido: praticamente pouco importa o que tenhamos feito no dia anterior para resistir ou dialogar com o medo, o desânimo, ou todos os nossos teimosos monstros. Eles simplesmente retornam com renovado propósito de comandar nossa alma, deixando-nos de passos perdidos, de confusa solidão, de  dúvidas que nos jogam na escarpada margem da preocupação febril e não-criativa.

Um fato: cada um de nós reconhece a sutil sedução dos confortos e sossegos, os medos que nos paralisam, como o olhar da Medusa. Assim, o roteiro existencial implica tanto uma série de derrotas nas mãos desses obstáculos, como uma convocação interna que reivindica o bom combate para que consigamos desempenhar com alegria e coragem o papel de protagonistas para dar um  sentido qualificado (positivo) à vida.

Eugênia Pickina – Palavra Terra

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  1. Bom dia amiga…
    Precisava disso, dessas suas palavras inspiradas…
    Vc tá bem?
    fica em paz, com Deus…
    bjs

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