Os clarões que nos contêm

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É preciso que ele cresça e eu diminua.

Na visão junguiana, certos sonhos, como é o caso daquele no qual aparecem crianças ou imagos a quem creditamos sabedoria,  são pistas de que nossa existência experimenta a travessia do nível do ter, ligada ao exterior e à dimensão da matéria, para o nível do ser, própria à dimensão da energia/essência: o eu diminui para deixar crescer o Si-mesmo. Logo, perde a importância o ter mais e ganha sentido o ser mais

O ser humano é fundamentalmente um ser utópico, que se faz lentamente e à medida que experimenta, erra, acerta e se expande em luminosidade, procurando, de várias maneiras, integralizar suas carências.

Se durante a fase do crescimento, o ser humano necessita de um pai que o oriente para a vida de relação (plano da cultura), a condição de equilíbrio para o existente reclama a presença do mestre para guiar a vida interior e com os “invisíveis” que dela emergem, porquanto ele governa a transformação de um estado em outro, o abandono do velho em favor do novo, as possibilidades do devir.

Justamente no testemunho de Sócrates, que representa uma imagem de mestre para o Ocidente, está evidente o cuidado com a vida interior para que a felicidade seja alcançada. Nesse sentido, Platão, no Fedro, narra sobre a necessidade do eu gradualmente vivenciar a assimilação do divino, pois o “assemelhar-se ao próprio Deus” é uma metáfora que significa o processo de individuação e, para isso, o mestre interior, o Si-mesmo, tende a cativar no eu o desejo de Deus a qual ele pertence.

Assim, o processo de diferenciação, guiado pelo Si-mesmo, se anuncia, quase sempre, com uma crise das certezas (uma crise do conhecimento sobre si mesmo e sobre o mundo), com o fender-se de uma identidade que passa a refletir sobre seus fracassos, vazios e indeterminações – infiltrações da sombra. Esse desabamento, então, termina por causar a quebra das resistências, o que motiva a busca de novos sentidos e objetivos.

Ora, a individuação, na verdade, tem seu início com um clarão, seja qual for o momento em que ela apareça – para muitos já na infância – e prossegue depois como um percurso no escuro intercalado por outros breves ou eventuais clarões (= sonhos, manifestações sincrônicas etc.).

Essas irrupções episódicas, sussurros do Si-mesmo, que impulsionam o indivíduo para transformações expressivas, tanto impedem a condenação do eu aos estados da desmedida, da inflação, ou da deflação – responsáveis pelo desvio de um caminho com coração, como podem favorecer a alegria de viver para vir-a-ser, segundo uma longa viagem rumo à integralização da herança de luz da qual todos nós somos portadores.

Eugênia Pickina – Palavra Terra  

 

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  1. A maneira como você aborda (e relembra) as reflexões de Platão convida-nos à leitura das obras de forma especialmente agradável. Obrigado pelos “sussurros”, textos assim convocam a necessidade de introspecção e do “conhecer-se”…
    Gracias!

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