Ultracrepidários

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Perceber-se como viageiro em si mesmo, sabemos, não é dado a todos. Há pessoas instaladas, sedentárias e que parecem desprezar as oportunidades dadas pelo tempo-espaço. São quase naturalmente alheias à aventura de sondar-se ou mapear-se, pois ancoradas na atitude ultracrepidária (que supõe compreender o suficiente para opinar e julgar sobre tudo), insensíveis ao fato de que “não deve o sapateiro julgar além da sandália”. (*)

O desdém de tais indivíduos pelas divisas e paisagens do si mesmo faz muitas vezes que sua topografia se afirme soberba e, em consequência, está justificado um não-querer percorrer outras direções e novidades, pois a eles bastam a plana superfície plena de coisas. Nada procuram em si mesmos e por isso nunca viajam, supondo as distâncias desprezíveis. Assim, permanecem sombreados pelas barreiras do desconhecido, saturados pelas fendas que, no interior, obrigam-se à renúncia aos trânsitos, pois esquecidas sob a aparência da ideia, cultivada pelo habitante-estranho, de supor ele saber-se por toda parte da casa…

Sim. A sólida unidade desse mundo estranho embaraça qualquer movimento distinto e o indivíduo sucumbe à rotina de habitar em um espaço que só lhe causa sensações de fome, de sono, de sexo ou oscilação entre sossego-desassossego, que lhe ressuma indiferente. Ele vive voltado para fora e aprisionado pela ignorância de si mesmo.

Nada mais controverso do que averiguar lugares que sugerem, no interior do campo, pontos imprecisos, ou seja, uma atitude de “olhar bem”. Dito de modo diverso: se próximo é o que está perto e conhecido, é prudente afastar-se das cercanias para buscar-se nos arredores de si mesmo as comunicações e passagens que revelariam coexistências aparentemente não-articuladas: o fora e o dentro.

De fato! Dar passagem de si a si para, diante dessa presença-dançarina, recolher os traços de outras configurações possíveis que existem sob a máscara e sob a sombra, contudo em um terreno incerto, aberto ao visível-invisível e em processo de autodiferenciação porque trabalhada em “campo de presença” (Merleau-Ponty).

Não esqueçamos, porém, dos homens ultracrepidários… Segundo creem e julgam, eles apenas transitam no exterior de um mundo, pois o interior se torna fossilizado ou enrijecido. Não têm sonhos, tais homens. Dormem como as pedras, ignorando sua abertura e profundidade e vivem sem viajar, alojados nos condicionamentos que amarram suas estórias e onde outros tudo aproximam, neles só é real a presença de um mundo raso, circunscrito pelos limites da sandália.

 (*) Nota. A palavra ultracrepidário é tecida por dois vocábulos latinos de onde ela deriva – ultra crepidam, que significa, literalmente, “além da sandália”. Essas duas palavras fazem parte da famosa máxima latina Ne sutor ultra crepidam [judicaret] (“não deve o sapateiro julgar além da sandália”). Para saber mais consulte o site de Cláudio Moreno: http://www.sualingua.com.br/ [Vale a pena para os apreciadores das palavras…].

 Eugênia Pickina – Palavra Terra

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