Bem sofrer?

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Afirma Comte-Sponville: “A vida vale mais e é melhor que o nada, ao menos enquanto nela obtivermos prazer, enquanto o sofrimento não for por demais atroz ou prevalecer sobre tudo”.

Mas, e a questão do sofrimento?

Na posição de observadores, caso espiemos a existência de cada um, extrairemos um dado comum aos humanos e, como prova disso, basta um leve debruçar sobre as provações de Jó, o crente inocente: o sofrimento existe simplesmente porque é inerente à vida.

Bem sei que isso é difícil de acatar, pois tal afirmativa pressupõe uma não resistência diante daqueles eventos da vida que nos escapam ao entendimento, geralmente manifestados pelas experiências de fracasso, que afetam os humanos desde a infância (o fracasso vivido pela perda da chupeta, do animal querido etc.) até a morte.

E essa não resistência, ativadora da humildade, talvez somente possa ser drenada no cerco da dor e, por isso, esta última é apta a favorecer a aceitação da realidade tal como ela se apresenta, embora isso não signifique complacência, mas, ao contrário, configure-se, para o sujeito que sofre, um agente dinamizador de mudanças – aqui, portanto, um sofrimento positivo, que o arranca da sombra da ignorância.

No drama de Goethe, Mefistófelis diz a Fausto: “Sou o espírito que deseja eternamente o mal, mas faz eternamente o bem”.

Logo, nossas dores nos oportunizam a assimilação de um determinado evento luminoso e favorável a algum tipo de aprendizado, pois, cedo ou tarde, a imprevisibilidade da vida nos atinge e sentimos a presença (multifacetada e peculiar a cada alma) do sofrimento.

Nesses momentos penosos e infecundos, a paciência precisa ser ativada para que, restituídos a nós mesmos, possamos prosseguir mais confiantes, ou ao menos mais fortalecidos, para não dar sequência à amargura, às queixas, que desabilitam o aprendizado da lição do instante – o que daria causa a incidência de um mal sofrer (e a uma lição negativa)…

Se o grande sentido é amar, sofrer parece inevitável. A indagação oportuna é: o que fazer com isso?

Continuar o caminho, ainda que ele pareça envolto em perene sombra, à medida que o sofrimento reclama, na maioria das vezes, o tempo de sua travessia, pois se “a melancolia é a felicidade de estar triste” (segundo Hugo), a coragem apenas se desenvolve diante do medo, do desconhecido – um passo a mais, pois tudo está, de maneira incessante, sujeito a (benéficas) mudanças.

Eugênia Pickina – Palavra Terra

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