Areia e passagem

Padrão

Agora me parece que a viagem não termina através da sinuosa estrada. Talvez consuma a curva adiante as asas, mas não o voo. Enfim, trabalha a passagem no seu silêncio: de estrela em estrela, o mundo brilha, para alcançarem a esperança o riso e a ferida, pois o que fica é o perfume do amor que amou a vida.

Um dia, Einstein perguntou: “Por que cargas d’água fui eu que desenvolvi a teoria da relatividade?” Em seguida, respondeu: “A razão, eu acho, é que um adulto normal nunca pára para pensar sobre problemas de espaço e tempo. Essas são coisas em que pensou quando criança. Mas meu desenvolvimento intelectual foi retardado e, em consequência, só comecei a especular sobre espaço e tempo depois de grande. Naturalmente, vou mais fundo no problema que uma criança com capacidades normais”.

O que dá forma à genialidade de Einstein é esse olhar de menino  – o espanto essencial diante do mundo, o “mesmo mundo”, mas revisitado através da contínua inspiração com abertura, genuína à criança.

E esse “desenvolvimento intelectual retardado” comandou livremente sua ação criativa, pois seu imaginar pôde, sem receios, escapulir para observar/questionar a realidade ( = “coisa que se move”) para calcular ondas que dançam sob cristais e vidraças. Na sua pesquisa livre, a leveza da onda-partícula que incendeia-esconde um céu em movimento, consistente de existências – dons e cordas, morte e vida, redes evolutivas.

E nós (em sua maioria normótica e adestrada pelo uso excessivo da razão), presos ao chão, lutando e crendo, ilhados nas fronteiras, o pacto restrito com a matéria. “É uma  realidade monolítica”, pensamos nós, e do cataclismo de hábitos mornos, voltamos sem segredos, pois, do imaginar apagado, só há a luz sombria.

Assim, para despertar o que segue olhando, quase nada e quase tudo, bastaria o viver em estado de alegria ou deslumbramento… Não querer mais acordar sem indagar o mistério para abrir alternativas entre o conhecido e o desconhecido, pois as manhãs levantam com sua ardente paciência, aludindo a um convite: podemos fincar raízes apenas no essencial, pois o que nos tocam os pés são areia e passagem.

Eugênia Pickina – Palavra Terra

 

Anúncios

Escreva seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s