Entre mundos

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Carece de atenção aquele que despreza o mundo noturno, também chamado de mundo da inconsciência, à medida que provoca ressonância efetiva na relação entre vida e alma.

Todo conhecedor da Antiguidade sabe que as palavras “vida” e “alma” detinham quase a mesma semântica para os gregos, que atribuíam à palavra psyche (alma) o significado de “hálito, respiração, aquele algo incompreensível, que separa os vivos dos mortos”, e usavam para a palavra vida duas expressões – zoe e bios (= é a vida que se expressa a si mesma).

Ora, se a linguagem nos revela a relação do hálito e da respiração com a vida, de alguma maneira, reside aqui o mistério da consciência e o problema da autoconsciência que são também irradiados desse mundo noturno, aspecto incandescente da alma…

Logo, o existente, como uma totalidade una (vida-e-alma tecidas juntas), está sempre, totalmente, em duas possibilidades diferentes – na vigília e no estado inconsciente – entre mundos, ou seja, nas convergências/divergências entre o mundo noturno (campo lunar) e o mundo luminoso (campo solar).

Tanto é assim, que podemos observar uma pessoa inteiramente abandonada à sua depressão (sob o comando de alguma energia psíquica enraizada no campo lunar), ou no comando de sua vivacidade/criatividade (campo solar), e isso não apenas como um segmento da sua alma ou um aspecto de sua vida.

Além disso, o ser humano se diferencia não apenas em ser “a vida” que se revela para florescer, mas também na certeza de que ele tem de morrer, embora possa continuar, caso não duvide, como os gregos, da imortalidade, conferindo valor à ideia de que não somos somente “espécie”, mas, sobretudo, individualidades destinadas a experimentar aventuras evolutivas.

Logo, o mundo noturno e o mundo luminoso desenvolvem uma relação de ruptura e de continuidade, exigentes de atenção e compreensibilidade.

E por que, então, o negligenciar do mundo noturno?

Como a alma é a vitalidade do corpo, e Aristóteles o sabia, a reflexão sobre a dimensão do mundo da inconsciência pode orientar um diálogo que permita ao sujeito despertar para suas atividades internas, causadoras de efeitos nas suas atividades externas (relação entre o-dentro-e-o-fora), porquanto ele passa a valorizar as evidências provocadas pelo fato de que toda a noite nos entregamos a sonhos curativos e/ou a sonhos que muito têm para nos contar

Eugênia Pickina – Palavra Terra

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