Contradita à desatenção

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Com o passar do tempo, crenças e práticas arbitrárias se tornam opressivas em vez de expressivas.

Desse modo, para os não-distraídos, o impulso por um caminho mais luminoso, sobreposto a cascas sem valor, pode ganhar significado, dando abertura a uma forma de vida flexível e acolhedora.

Ora, os aspectos de nossa natureza complexa apenas serão respeitados caso procuremos viver de maneira afável e hospitaleira, no qual haja lugar para um equilíbrio entre necessidades internas e externas, mas sendo estas comandadas por aquelas.

Para reverenciar a vida interior, ou seja, a atenção com valores e bens essenciais, que gera, por decorrência, o viver solidário, a oração final de Fedro  pode apontar a súplica de Sócrates dirigida aos deuses, cujo conteúdo revela a precisão da relação hierárquica entre o “fora” e o “dentro”, responsável pelo bem-estar pessoal e pela ressonância positiva na maneira como nos relacionamos com o outro:

Querido Pã e outros deuses que estais neste lugar, concedei-me a beleza interior e fazei que meu exterior se harmonize com tudo o que carrego dentro de mim. Que eu possa considerar rico o sábio e possa ter uma quantidade de ouro que só o temperante conseguiria tomar para si ou levar consigo. Precisamos de outras coisas, Fedro? Creio que pedi o suficiente.

Eis, pois, uma explicação sobre a oração socrática:

o primeiro pedido refere-se à beleza interior. É sabido que a grande conquista da filosofia, liderada justamente por Platão, consiste na interiorização da beleza, ou seja, a tendência a conhecer e a realizar, na medida do possível, o bem e o belo;

o segundo pedido refere-se à concordância que o ser humano deve realizar entre o “interior” e o “exterior” e com isso Sócrates apenas diz que as coisas exteriores devem subordinar-se às interiores, segundo uma precisa relação hierárquica;

o terceiro pedido manifesta a ideia de que não é o ouro o verdadeiro bem, mas sim a sabedoria;

o quarto pedido está implicado com o fato de Sócrates saber que, se não é legítimo pedir ao deus todo o ouro da sabedoria, pois a posse total da sabedoria só convém a um deus, é factível pedir-lhe que possa ter o mais possível, desde que não ultrapasse o justo limite concedido ao temperante.

Finalmente, um (novo) pedido e igualmente adequado ao nosso tempo: possamos nós, ao aumentar aquilo que temos (os bens exteriores), acrescer aquilo que somos (os bens interiores) para viver segundo uma vida de relação responsável e solidária.

Eugênia Pickina – Palavra Terra

*Crédito da imagem: “Manhã de sol”, de Martha Barros.

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