Pondo-se em movimento

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Sei de homens e mulheres que nunca se curaram do passado. No geral, temos em relação a ele duas atitudes: gratidão ou lamento.

Mas o lamento caberia no caso de uma vida guiada por medos e pelo mel sombrio – e, por isso, sempre à espera do pior: a letargia, o desgosto, que retiram da existência o seu mistério poético, deixando-a sem viço.

Nada disso!

Em outras palavras, é sadio trabalhar a si mesmo e as feridas anímicas, mas contando para nós próprios a verdade de nossa alma. Insistir em viver essa verdade, ainda que sejam necessários vários anos.

Sabemos que a vida não nos é dada como uma peça de arte e dificilmente ela se apresenta, desde o nascimento, como espetacular. Ora, a vida não tem outro fim senão ela mesma…

Logo, o trabalho em prol da própria Alma funcionaria como uma espécie de auto-salvação. Afinal, haveria felicidade sem criação?

Sim, o passado pode ser uma catástrofe – o sentido, então, é sair dele. Ao lado disso, todo o restante da vida pode então sugerir algo novo – milagre do amanhã, embora a escuridão da noite anterior…

E esqueçamos a apatia, a gasta nostalgia – frutos impuros que impregnam de solidão a alma-corpo, pois abrem a desesperança tal qual o barco que, fixado à ilha, amarra-se longamente ao cais, pois sem rumo ou destino.

Inóspitas regiões há em nós… Assim é. E a vida não tem culpa deste nosso gasto pranto, muito menos de nossos repetidos lamentos que teimam em acordar as dores-fantasmas.

Então apenas se pôr em marcha, pois é isso que nos é pedido.

É certo que as feridas da vida em sua honestidade talvez comprimam a alma ou motivem o despertar da consciência. Contudo, somente o despertar da consciência poderá trazer luminosidade à jornada, sempre sujeita a mudanças e retomadas.

Com efeito, Miguel de Unamuno lança a cada um de nós  o desafio que nos cabe: “Sacuda essa tristeza, e recupere seu espírito… Atire-se como semente enquanto caminha, e… não vire o rosto, pois isto significaria voltá-lo à morte, e não deixe o passado reprimir seu movimento.”

 Eugênia Pickina – Palavra Terra

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