Ressonância saturnina

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Todos nós somos intimados a crescer, mas nem sempre estamos abertos à tarefa. Isso porque, no geral, nossa criança interior, castigada, se recusa a suportar a ideia de externar sua dor para alcançar os recursos necessários à cura e transformação.

Penso nos homens e suas feridas. Fala-se muito do drama feminino, da opressão contra a mulher. No entanto,  existe uma disposição (cultural) por parte das mulheres de arriscar expor sua verdade interior, pois elas facilmente compartilham  sua dor e experiências positivas e negativas.

Já o homem, ele dificilmente se permite expressar sua verdade emocional, atuando no nível da persona, definindo sua realidade geralmente em função de critérios ligados à produtividade (salário, status social, o carro, o cargo etc.), afastando-se da verdade da sua alma e do caminho da transformação.

Sim, é necessário que sejamos feridos para que possamos nos libertar, em primeiro lugar, da dependência inerente às imagos de nossos pais (e para o filho principalmente a dependência ligada ao complexo materno, porquanto a experiência que ele teve com sua mãe foi interiorizada como complexo).

Contudo, é igualmente necessário  que tais feridas promovam o crescimento, o que obriga, por parte daquele que foi ferido, o reconhecimento desses ferimentos, pois, do contrário, instala-se uma espécie de ‘alienação’ que impede a germinação do processo de cura e libertação.

Volto a refletir sobre os homens. Eles, sobrecarregados com o fardo cultural, no lugar de enfrentar o sofrimento anímico, na maioria das vezes voltam sua raiva contra si próprios e contra seus afetos (mulher, filhos e filhas), estreitando-se na solidão e padecendo de ferimentos sem transformação.

Muitos analistas junguianos atribuem o patriarcado, que já domina o Ocidente há cerca de três mil anos, a uma criação por parte de homens inconscientes, “que sofrem de uma dúvida interior, que se sentem indefesos” (J. Hollis), apresentando-se como uma compensação/reação para a fraqueza interior.

Ora, as vastas patologias pessoais e sociais de nosso tempo são o inaudível grito de almas individuais deformadas pelos papéis procrustianos estabelecidos pela lógica patriarcal.

E se as mulheres, por infelicidade e repressão, desafiaram os parâmetros da feminilidade orientada pela cultura que receberam, os homens não estão felizes apesar do que realizaram, porque, sob o peso da cultura, continuam a negar os aspectos que não se encaixam nas exigências do legado patriarcal.

Com efeito, infelizmente os homens, em sua maioria, estão fechados à cura e à transformação, pois no íntimo encontram-se divididos entre a socialização e a alma, entre a normose coletiva e a psique individual e, desse modo, ingressam na vida com um falso eu, fazendo escolhas que mais alienam do que libertam, pois profundamente anestesiados contra a advertência do poeta Rilke: “sabemos que existe espaço dentro de nós para uma segunda grande vida intemporal”.

Eugênia Pickina – Palavra Terra

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