Labirintos do Feminino -parte 2

Padrão

 No horizonte do infinito – nós  abandonamos a terra, tomamos o navio! Nós destroçamos as pontes às nossas costas – mais ainda, destroçamos a terra às nossas costas! Agora, pois, naviozinho! Tem cautela! Ao redor de ti se estende o oceano; ele nem sempre brame, é verdade, e por vezes se estende como seda e ouro e sonhos de bondade. Porém horas virão em que reconhecerás que ele é infinito e que não há nada mais terrível que a infinitude. Oh, pobre pássaro que se sentiu livre e agora se choca contra as paredes desta gaiola! Ai, se te acomete a saudade da ‘terra’, como se lá tivesse havido mais liberdade – e já não há mais terra nenhuma”. (Nietzsche)

Percebi, só agora, o longo tempo transcorrido entre a primeira parte  do texto Labirintos do Feminino e essa segunda. Descontado o fato de absoluta falta de tempo, perdida  em outros projetos,  na verdade  houve  também falta de condições de “dar conta”, assim de cara, de um tema que tem me instigado bastante, fazendo com que eu vá ao encontro e de encontro a inúmeras teorias.  Essa busca é justificada porque é visível  o quanto o brilho do feminino nos permite  deixar fluir o brilho do  ser humano , do ser  vivente  que somos… Quando isso nos foge, quase invariavelmente, é porque antes  fugiu a vida..
 É simples.  A  forma como lidamos com o feminino e  o masculino em nós  nos ajuda a definir o modelo de mulher ou de homem  que vivenciamos.   Deixa fluir em nós a vida ou  bloqueia seu fluxo natural… E é tão fácil esse “desvio” que, na maioria das vezes, nem percebemos… Às vezes, só vamos perceber quando o desequilíbrio, das mais diversas formas, bate à nossa porta, trazendo dores.
 
A ideia desse artigo nasceu na escuta de um papo entre duas Pérsefones- Atena (ver artigo, postado aqui, com o título A Força do Feminino) sobre a dificuldade de se abrir para a vida. Como dito no artigo em que é citada a tipologia das deusas, “conhecer e integrar o nosso feminino significa reverenciar quem somos ou aspectos de quem somos. Os arquétipos das deusas gregas (…) ajudam as mulheres a se conhecerem um pouco melhor (…), entendendo aspectos e características de seus comportamentos, anseios, sonhos, desejos. Padrões muitas vezes inconscientes que trazemos desde a nossa infância”.
A  insubstanciabilidade de Perséfone, unida à vulnerabilidade  disfarçada  por uma couraça, própria de Atena, tornam essa mulher “Perséfone-Atena”, um ser  quase inacessível, até para si própria, apesar de todo o seu conhecimento do mundo interior (Perséfone) e do mundo intelectual (Atena). Falta-lhe o contato com a vida vivida. Os mistérios do inconsciente e a magia dos livros fazem o seu universo.  E por isso passa boa parte do tempo sem ter contato com a vida de verdade. É como se fosse apenas uma observadora da vida, nada mais. Sem um papel real dentro dela. Invariavelmente, o mundo real lhe chama através de pequenas e grandes tragédias.
Para estabelecer canais com o mundo, o que nem sempre é fácil para essa mulher, ela tenta, inicialmente, negar quem é… Abre portas e janelas  aqueles considerados “normais”, mas nem tudo corre bem. O que no final acaba sendo uma coisa boa.  Em “As Mulheres  Que Correm Com os Lobos” , Clarice Pinkola Estés nos lembra que “embora seja útil abrir canais até mesmo para aqueles grupos aos quais não pertencemos  e seja  importante  tentar ser gentil, é também imperioso não nos esforçarmos demais, não acreditar demais que se agirmos corretamente, se conseguirmos conter todos os impulsos e contrações da criatura  selvagem [que nos habita], poderemos realmente passar por damas educadas, recatadas, contidas e reprimidas. É esse tipo de atitude, aquele tipo de desejo do ego de integrar-se a todo custo, que destrói o vínculo com a Mulher Selvagem  na psique”. Perder esse vínculo, em grande medida, é perder a Vida. A pulsão de vida.

 Nas outras deusas da tipologia ( Hera, Deméter, Afrodite e  Ártemis), algumas características também promovem essa negação da pulsão  de vida (falaremos sobre elas no futuro); porém, em Perséfone e Atena parece existir uma certa “opção”  por essa negação. Perséfone porque   ao se perceber entendendo a psique  de uma maneira extraordinária, prende-se ao mundo do invisível e não “valoriza”  aspectos do mundo “real”; enquanto Atena, do mesmo modo, ao prender-se ao “mundo das ideias”, menospreza com arrogância o pobre mundo dos mortais. Ambas, ao fazerem isso, perdem qualidade e sentido em suas próprias vidas. Quando uma mulher tem essas duas de maneira forte em sua personalidade, ela se torna, se não tomar cuidado, um bloco, espesso, de puro gelo.

Jossânia Veloso- Alto Astral

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Uma resposta »

  1. Seu texto nos dá pistas preciosas sobre o feminino saudável e não-saudável, sobretudo quando somos “possuídas” pelos arquétipos das deusas… Um feminino “saudável” é sempre acolhedor… Já a mulher comandada pela aridez/rigidez desses arquétipos femininos citados por você pode, como relata, se transformar em uma mulher fechada à riqueza da sensibilidade e das manifestações compassivas do querer “ser simplesmente”… Nada de gelo, mas sim de calor… Obrigada. Bjs.

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