Ideias sobre a “boa mãe”: um mito moderno

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É mais fácil escrever sobre o que experimentamos. Logo, essas ideias têm o condão de causar, nos que leem, ou interpretações diversas das colocadas por aquele que escreve, ou uma espécie de alívio –    no caso de uma sintonia com o que está livremente manifestado. Sim, porque o texto é sempre uma confissão, um testemunho e um convite…

É sabido que desde a infância as meninas são levadas a treinar o papel de boa mãe, segundo o qual a mulher deve estar apta a fazer sacrifícios e, ainda, apresentar-se serena, compreensiva e  acolhedora, ou seja, feminina em tempo integral!

Ora, espera-se um modelo de mãe perfeita, um ideal romanceado da maternidade construído ao longo dos últimos séculos, que está fundado sob um inflexível padrão incapaz de admitir quaisquer sinais de sentimentos contraditórios naquelas que se permitem viver a maternidade.

Na ocasião do nascimento de um filho, contudo, muitas mulheres experimentam emoções confusas e inconciliáveis com a imagem idealizada de maternidade regulada pela cultura. Desta forma, estabelece-se um conflito entre o ideal e o real e instaura-se um sofrimento psíquico que pode gerar quadros depressivos ou outras formas de sofrimentos.

Infelizmente, as ideias/crenças sobre a maternidade são transmitidas como se fossem naturais e, por serem disseminadas dessa forma, essas ideias/crenças se cristalizam e se fecham a reinterpretações necessárias a depender de cada caso.

No caminhar da humanidade essas ideias/crenças têm pouca idade, entretanto. A boa mãe, tal qual conhecemos hoje, com sua propensão natural ao amor automático (ou incondicional) pelos filhos e sua completa satisfação em relação aos compromissos da maternidade, é uma figura recente historicamente.

Em verdade, o amor materno não é puro instinto, mas é um sentimento construído no dia-dia, gerado a partir da vivência diária da maternagem e, consequentemente, sujeito a oscilações e transformações…

Além disso, com base na ideia de que não existe comportamento materno unificado para que se possa falar de instinto materno “em si”, pois cada “mãe” é única, com sua biografia e ambiência sociopsíquica, faz sentido a contrametáfora (contradiscurso) de que o instinto materno é um mito – um mito moderno.

“Como então, não chegar à conclusão, mesmo que ela pareça cruel, de que o amor materno é apenas um sentimento e, como tal, essencialmente contingente? Esse sentimento pode existir ou não existir; ser e desaparecer. Mostrar-se forte ou frágil. Preferir um filho ou entregar-se a todos. Tudo depende da mãe, de sua história e da História. Não, não há uma lei universal nessa matéria, que escapa ao determinismo natural. O amor materno não é inerente às mulheres. É adicional (Badinter, E. Um amor conquistado: o mito do amor materno, p. 367).

Eugênia Pickina – Palavra Terra

 

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