Prelúdio à cura

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Nossa sociedade vem há muito tempo tratando as pessoas como máquinas, como corpos sacrificáveis em nome do progresso ou do mercado. E, consequentemente, muitos indivíduos tendem a desprezar as feridas e os prazeres da alma, pois são levados a pensar em si como um “mecanismo de várias seções”.

Esse desprezo, contudo, afeta profundamente e, por isso, a cura torna-se um processo tão dúbio, pois é esquecido que o médico, na verdade, é um servo da natureza (Physis). Em outras palavras: quem cura é a natureza, não o médico.

Quando o corpo está fragilizado, em desequilíbrio, o médico pode, sim, criar as condições que viabilizem a cura, mas não é apto a curar as feridas da alma, exigentes da autolibertação, ou seja, da transcendência das repetições do erro e do desconhecimento sobre si mesmo.

Como participantes da cultura, a maioria de nós sofre a cisão entre a socialização e a psique individual. E quando os papéis externos não se adaptam à modelagem da alma da pessoa é desencadeada uma terrível unilateralidade.

No geral, essa unilateralidade dá causa a uma série de desequilíbrios, tanto ligados ao inconsciente como ao mundo consciente, que podem se expressar através de estados diversos de inadequação, insatisfação ou doenças, cujas raízes têm sua justificativa na deformidade da alma.

Não podemos esquecer, ainda, que à semelhança da trágica sina do drama grego, as feridas ressoam pelas gerações. Logo, apenas as pessoas que se tornam cientes desses ferimentos históricos são capazes de transcender o peso ancestral do miasma familiar…

Um tempo atrás escrevi algo que pode decompor o drama de viver com uma mãe ferida: Minha mãe ficava a olhar a janela da sala noite após noite, olhos tristes e vazios, a ausência da lua assustando seu coração devorado pelas entranhas dos medos da sua mãe”.

Por essas mães precisamos chorar sem nenhuma vergonha… Elas, mais feridas do que imaginaríamos, sem alternativas culturais ou autorização emocional para serem elas próprias…

Assim, para percorrermos o (sinuoso) caminho da cura, e conscientes do profundo eu emocional, podemos ser paciente com relação a tudo que não está compreendido pela mente entorpecida, mas nos propor, de verdade, a viver tudo… Sim, porque a cura reclama o viver como um desafio principal.

Com efeito, a Natureza revela que o ser humano é portador da audácia de viver consigo mesmo, procurando não se esconder das feridas a fim de que sejam transcendidas, mesmo que exijam o perdão difícil. Então, reunir coragem para que a semente experimente, um dia, o espaço da árvore…

Eugênia Pickina – Palavra Terra

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