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Agora, vai-te embora… disse ele. Eu quero descer! (O Pequeno Príncipe.  Saint-Exupéry)

Às vezes são nossas experiências do absurdo que nos impulsionam a nos diferenciar. Ajudam-nos a sair da estagnação do “um indiferenciado” para a condição do “um diferenciado”.

Caso saibamos acolher a época do sofrimento, que independe de nossos humores, na sequência somos  conduzidos a vivenciar uma “condição de ser” capaz de compreender uma realidade que escapa à negligência de não dar à dor, dentro de nós mesmos, o seu devido lugar, pois é esse “devido lugar” que, pelo reconhecimento de nossa fragilidade, evitará a confusão entre o precário eu e o luminoso Self.

Coloco-me uma questão. Nas nossas relações cotidianas muitas vezes não permitimos às pessoas os seus desequilíbrios ou depressões.

Isso é paradoxal porque, quando vemos alguém sofrendo, nossa única inquietação é aliviar (ou calar) sua dor, é retirá-lo desse estado a nós incompreensível. No entanto, é preciso apenas ampará-lo nessa lenta descida onde ele fará a experiência de seu “buraco negro”.

Em outras palavras, trata-se, aqui, de não resistir a esta frequência densa, a esta dor inexplicável que, em algumas circunstâncias, temos que viver em nossas vidas.

Do mesmo modo, há uma (nova) ordem que é posterior ao  caos, e aqueles que vivenciaram um “tempo sem relógio”, que provaram um momento de agonia profunda, quando voltam dessas situações podem dizer que há outra coisa além do absurdo, pois, sejamos crentes ou não-crentes, outras leis comandam até mesmo a pulsão de morte.

Ora, tal como existem aqueles instantes densos, que furta ao frágil eu um olhar transformador, há os momentos luminosos, nos quais há a abertura do Self sempre pronta a ressignificar o tempo da vivência aprisionada ao “nada”, sinalizando a presença de recursos internos antes ignorados.

Sem citar as motivações filosóficas, podemos afirmar que a travessia da sombra faz parte do nosso caminho na luz. Compreender, então, que a presença de um “tempo ferido” faz parte da revelação de um “tempo sadio”, no qual podemos voltar a crescer.

Eugênia Pickina

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