E por que sim?

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A única coisa que não se pode tirar de nós é aquilo que doamos (Jean-Yves Leloup).

Apenas o amor pode auxiliar a amar melhor a pessoa com que se vive.

Idealizamos certo tipo de homem ou certo tipo de mulher e esta imagem debilita a aceitação da pessoa que está à nossa frente, pois o significado valioso do encontro emerge também da compreensão relativa às imperfeições (de si mesmo e do outro) de onde pode nascer uma relação que caminhe em direção ao amor real.

Recebo, com frequência, relatos de pessoas que dizem ter um relacionamento duradouro, mas se afirmam infelizes pelo desagradável revelado durante a convivência e pela sensação de que deixaram de progredir como pessoas e, por isso, sentem-se como “indivíduos sem pensamentos”.

Amar envolve amar-se, penso. Assim, amar é ser generoso consigo mesmo e com o outro e, por isso, não deixar de cuidar de si, não abdicar dos próprios dons e necessidades de trabalho com a própria alma, motivando o outro também a desenvolver-se para ser feliz.  Do contrário, será um encontro “amoroso” frágil aos ventos e às intempéries dos egos, quase sempre suscetíveis aos caprichos.

Uma questão principal: como fazer para sofrer menos e, principalmente, como servir-se do amor para viver melhor? Sim, porque amar é ser feliz, é desejar a felicidade do outro.

Como escapar à confusão?

A confusão existe quando exigimos do nosso companheiro, por exemplo, que substitua o pai que nos faltou, quando cobramos da nossa esposa que seja mãe de tempo integral, livrando-nos das pequenas responsabilidades diárias com a casa, com os filhos, com nosso próprio crescimento.

É sabido que as pessoas que não são capazes de se envolver em uma relação particular são ainda imaturas. Estamos onde estamos, cada um com sua narrativa e habilidades. E isso me faz pensar sobre as diferentes nuanças de amor.

Há uma palavra grega – Pathé – que assinala tanto o nascimento da palavra patologia como instaura na pessoa o amor-doença, pois, aqui, o amor não é qualidade de ser, mas apenas necessidade e dependência, aquilo que Ovídio, em sua Arte de Amar, chamou amor-posse, possessão, que dá causa à mania…

Creio que isso alude aos aspectos (e feridas) narcisistas, que se revelam inaptos para reconhecer a alteridade. Tu me dás, somente. Para muitos terapeutas antigos, então, a doença é girar em círculos. Assim, o amor-posse mantém o casal aprisionado no caminho…

Mas não é o coração humano capaz de amar sem retorno?

Alguém me diria que isso somente para os perfeitos. Digo-lhe que é para cada um de nós, embora, muitas vezes, possamos amar como bebês, consumindo o outro. Qual seria, então, a solução? Passar, em primeiro lugar, do consumo à partilha. Abrir o coração e aprender a dar, pois conviver, no amor, exige (também) disciplina.

Apenas sei que devemos manter o passo. Por isso, independente do amor que sentimos, seu grau ou qualidade, independente do companheiro (ou da companheira) com o qual dividimos o pão, a oração e a esperança, apenas precisamos nos dispor a ajudá-lo a desenvolver sua autonomia sem que percamos a nossa autonomia – duas autonomias que seguem unidas e procuram humanizar-se… No lugar de apenas exigir (ou necessitar), pôr em prática o acolher – e este, sim, pode ser um começo rumo a um amoroso conviver.  

Penso na alma gêmea – “alguém do mesmo comprimento de onda”, diria Jean-Yves Leloup. Neste caso, seria mais fácil amar?

Em razão da sintonia natural, uma compreensão natural. Mas isso extinguiria os pequenos dramas da rotina? Não, mas ao menos aqui ambos procurarão individuar-se e sem receio de se fazerem visíveis um ao outro, pois confiantes no fato de que o “amor jamais passará “ (São Paulo).

Eugênia Pickina

 

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