Itinerâncias

Padrão

Mais uma vez deixem que seja sua a manhã, deuses.

Continuamos repetindo. Vocês são a única fonte.

Com vocês o mundo desperta, e seu ocaso

reflete-se luminoso em cada fenda

e greta de nossos fracassos. (Rilke)

Nossa sociedade carece de meios de expressão significativos que estimulem e orientem as energias da alma  e, no geral, somos convocados durante a existência apenas para servir  a uma norma econômica, política ou cultural.

Em consequência, na condição de oprimidos, sacrificamos ditames internos para modelar a deformação de nossa natureza essencial em função de papéis e expectativas alheias.

Como a natureza detesta o vácuo, muitas pessoas (feridas) preenchem o grande vazio interno com trabalho excessivo, relacionamentos arrastados ou fugas diversas. Entre esses confusos comportamentos, há a profunda carência de referências como fonte de sabedoria, consolo e inspiração.

É um fato: a pressão interna é enorme e continuaremos vítimas enquanto permanecermos inconscientes.

Muitos são os caminhos de cura e as opções dependem sempre das necessidades de cada um  – psicoterapia, homeopatia, florais… No entanto, nossas feridas estão na alma, como uma vez advertiu Franz Kafka, e somente aquele que a alcança é capaz de curar-se.

Como efeito, desde que enfrentemos as dores caladas, as carências negligenciadas, a cura da alma pode ocorrer por causa de um agente transpessoal, vivenciado, muitas vezes, como graça, pois, como nos lembra Rilke, “sabemos que existe espaço dentro de nós/para uma segunda grande vida intemporal”.

Infelizmente muitos indivíduos continuam ainda oprimidos, e agindo a partir dos sofrimentos inconscientes oprimem outros, ferem e são feridos, o que resulta na composição de destinos tirânicos e com desperdício de talentos (ignorados).

Mas, cada um de nós pode decidir por um itinerário que leve em consideração a condição humana integral, pondo-se primeiro à escuta do coração e depois assumindo, amorosamente, a responsabilidade por sombras e potencialidades desprezadas, atuando, então, a partir da própria luz, transcendidos os limites estreitos de uma vida suportada rumo a uma vida mais plena.

Eugênia Pickina

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