Apelo e espirais

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 Jung observou certa vez que o maior fardo que a criança carrega é a vida não vivida dos pais e, em consequência, cada filho um dia  precisará examinar, sem a intenção de julgar, em que lugar as feridas dos pais foram passadas para ele.

Como o crescimento da consciência é um processo de movimento espiral, todos nós carregamos a memória repetida dessa condição inicial. E, vulneráveis, sentimos medo de que nossos anseios não se realizem, porque nossas almas foram deformadas e por serem definidas por forças externas.

No geral, é dessa inquieta condição, enraizada em nós independentemente da idade, que nasce a raiva, que emerge o ressentimento silencioso. Ficamos zangados por nossas carências não preenchidas e choramos a perda, sabotando muitas vezes o melhor em nós.

E à medida que nos tornamos mais velhos e açoitados pelos papéis e cobranças da idade adulta, essas emoções confusas tendem a deslizar para o inconsciente. No entanto, essas energias permanecem ativas e sempre são escoadas para algum lugar.

A raiva, por exemplo, pode se tornar profundamente introvertida como uma depressão que nos acompanha diariamente, ou somatizada em alguma emoção que fere o corpo e reclama por meio de sintomas incômodos.  

A mágoa pode se manifestar através da maledicência e da irritabilidade generalizada. E uma melancolia crônica às vezes se decide por um vago anseio por um companheiro que entrará na nossa vida para nos acolher e embalar…

É fato. Como todos nós carregamos as nossas feridas, o resultado de nossa consciência restrita, das fontes de dor ignoradas, é uma definição pobre do nosso processo de autonomia.

Como ser adulto não tem praticamente nada a ver com tamanho ou idade, e sim com o nível de consciência e de responsabilidade pessoal,  ausente um entendimento honesto sobre si mesmo, a vida se decompõe, porque é necessário que descubramos quem nos tornamos, dando-nos permissão emocional para despender com sabedoria a nossa preciosa energia.

Como a intimação para o autoconhecimento não é justificativa ao narcisismo, e sim base segura para uma autoexpressão sadia,  esquecer esse apelo implica, de maneiras diversas, desperdiçar nosso (breve) episódio na Terra…

Eugênia Pickina

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