Sob o espelho

Padrão

Toda ideologia se funda em algum tipo de ideia, e talvez até numa boa ideia. Porém, toda ideia que seja universalizada a fim de aplicar-se a todos e que não sofre dúvidas nem experimenta críticas internas, que polariza as pessoas, torna-se castradora, porque em si é regressiva.

Dito de outra maneira, qualquer ideologia (política, religiosa, psicológica etc.) que pretenda reduzir as complexidades do mundo, atenuando o fato de que somos obrigados a viver sem o conhecimento absoluto, é venenosa, porque tanto alimenta os impulsos mais escuros e deformados de nossa natureza como investe na manutenção de um “falso si-mesmo”.

Os que oferecem respostas fáceis não entendem as perguntas. Então, permanecer no território adstrito de uma ideologia, abrindo mão da experiência ímpar de se tornar protagonista do próprio drama existencial, é confinar-se a um padrão de dependência – uma expressão de um estado regressivo.

Cada um de nós pode, às vezes, regredir influenciado por um padrão ideológico, pois quantas fugas  do abismo em cima do qual caminhamos diariamente fomentam confortos e caprichos reiterados, segundo uma sistemática evitação da dor. Mas isso necessita ser superado para que desistamos da necessidade egóica de ter certezas e a vivenciar, até mesmo apreciar, a ambiguidade e as incertezas de nossa condição.

Lamentavelmente, quanto mais uma cultura se torna materialista, mais propensa se torna ao fundamentalismo, às adulações dos comerciais, à sedução do pensamento massificado, à medida que esses mecanismos ideológicos oferecem uma momentânea supressão da dor espiritual, um escudo contra as asperezas da idade adulta psicológica, exigente do movimento ascendente de evolução da consciência.

Quanto mais vivemos, mais notamos que o máximo que podemos nos oferecer diante das vicissitudes e dos desafios é nossa sincera disposição de empreender a jornada.

E essa disposição implica desenvolver nossa habilidade de introspecção, pois ela pode nos livrar das ciladas ideológicas que prejudicam a ânsia da alma, constatada através do tempo e da vida individual. Como disse Jung: “cada pessoa é um novo experimento da vida em suas incontáveis inconstâncias de humor, e uma tentativa de nova solução”.

Eugênia Pickina

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