Pais – cuidadores ou reféns?

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“Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante.” (O Pequeno Príncipe)

Como seria reconfortante para os pais, na inquietude sobre poder cuidar bem de seu filho, se confiassem que nunca estão sozinhos, pois a eles é continuamente enviado uma poderosa inspiração para lhes instruir o que fazer.
O ser dos pais é mobilizado para orientar a criança, isso não querendo dizer que momentos de dúvida inexistam vez ou outra.
O que me intriga, hoje, e com frequência, justificada na educação liberal, é perceber tantos pais reféns dos seus filhos, com dificuldade, clara ou embotada, de darem limites.
O caminho do meio exige muito de nós. Sobretudo, quando, em muitos casos, fomos, no passado, os filhos subjugados por uma educação severa e autoritária. Quantos de nós, quando pequenos, comíamos, por exemplo, o que era servido, e em silêncio? Um horror! Não tínhamos gosto, muito menos o direito ao exercício libertador da aversão.
Por muito tempo a infância agonizou e filhos e filhas tiveram potenciais furtados pela tirania doméstica, vitimizados por um pai, no geral ausente e autoritário, e uma mãe frustrada, castrada pelo enfadonho serviço no lar. Ao lado disso, as crianças foram durante um largo período histórico invisíveis no cenário político.

O mundo mudou, as legislações reconheceram, ao menos nos países democráticos, os direitos fundamentais da infância. O pai se tornou presente. A mãe conquistou o mercado de trabalho. Pais agora compartilham o cuidado com a criança, e são parceiros na arte do educar.
No entanto, muitos filhos se transformaram nos grandes “gestores” dos seus gostos e necessidades, pondo em risco seu bem-estar, comprometendo sua saúde e desenvolvimento.
Basta examinar o número crescente de crianças obesas, hipertensas, com problemas renais crônicos, e mesmo mal nutridas (e aqui não me refiro aos filhos da pobreza – vítimas da desigualdade social vergonhosa), que não abrem mão da “comidinha trash”, e com o aval de seus pais.
“Minha filha tem quatro anos e só come porcaria. Não consigo fazer ela comer mais nada. Então, sirvo porcaria mesmo”.
Você pensaria: “esta afirmação é absurda”. Mas ela orienta o comportamento diário de muitos pais hoje em dia. Eles se justificam nas razões laborais, na dificuldade de cozinhar algo saudável e tantos outros argumentos. Afinal, comida pronta/congelada é algo rápido e muito confortável.
Infelizmente, cada vez mais os responsáveis pelo cuidado do menor sucumbem pelas mentiras bem contadas pelos meios de comunicação, que veem a criança como um consumidor extremamente atraente (basta pensar nas propagandas dos bolinhos industrializados, bolachas recheadas, refrigerantes e afins, etc.).
Isso sem contar os brindes dados pelas redes de fast food para capturar as crianças, que rapidamente se tornam as “co-autoras” dos seus cardápios, dada a dificuldade dos pais em simplesmente dizerem não…
Podemos refletir. A educação democrática é a mais adequada. O autoritarismo castra o ser humano e o “pátrio poder” foi substituído por uma visão responsável e afetiva, visando ao bem integral da criança. Mas, esta forma de educar está implicada com a necessidade do dizer não também.
Sabemos. Cuidar de uma planta recém-germinada dá trabalho. É exaustivo, sem feriados, sem domingos. Mas vale a pena. Um dia ela vai florescer com autonomia, expressando sadiamente seu perfume e natureza.
Ignorar isso é desvalorizar a criança, é reduzir a missão dos pais a um papel secundário e sujeito ao malogro. De forma simples, toda criança precisa de amor, cuidado. Isso supõe, sem medo, saber dizer “sim, sim, não, não”.

Eugênia Pickina

Obs. Este post inaugura no Transformar-se a Categoria Pró-infância, com incursões sobre a infância e a arte do cuidado.

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