Enquanto a solução não vem

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Lembre-se de que você veio para cá já tendo compreendido a necessidade de lutar consigo próprio, apenas consigo próprio. Agradeça, portanto, a todos que lhe dão a oportunidade. Gurdjieff

Na vida, quando estamos enovelados por um dilema, na maioria das vezes o que precisamos fazer é buscar ser leal a nossos valores, até que algo inesperado venha em nosso auxílio.
Para não piorar nosso estado íntimo, podemos nos pôr flexíveis ao inconsciente, pois ele certamente encontrará algum modo de nos mostrar uma pista que nos ajude a dirimir o impasse.
Em uma situação obscura, em que cada rota parece potencialmente bloqueada, ou, mas pior, sem saída, geralmente somos tentados a nos ferir com hostilidade ou a agir de forma irracional, sem perceber que às vezes a existência requer mais do que sabemos.
As (auto)críticas hostis são muitas vezes destrutivas, porque são mensagens que se inclinam a enfraquecer nossa confiança e bom senso. De outro lado, agir irracionalmente pode vir a sufocar a paciência exigida ao aprendizado de alguma coisa de valor, causando, no lugar de uma conquista pessoal, frustrações e, por conseguinte, a autopiedade – comum a quem acusa de cruel o destino.
Quando estamos enredados em um conflito interior, e não sabemos como agir, existem algumas medidas que podem nos guiar: sair do controle, permitindo o fluxo de um novo insight; munido de paciência, aguardar uma mudança de circunstância. Ademais, meditar e orar pedindo orientação estimulam uma solução deflagrada do inconsciente ou de acontecimentos sincrônicos, e apropriada a resolver a crise pessoal.
O segredo talvez seja inicialmente desarmar-se para aceitar o auxílio de forças que fogem à realidade do ego.
No mito grego, Hipômenes necessitava competir numa corrida para ganhar a mão de Atalanta, sua escolhida. Mas ele sabia que não podia correr suficientemente rápido para vencer e assim teria uma derrota certa. Na véspera da corrida, orou pedindo ajuda a Afrodite, que o auxiliou a vencer a corrida, tendo como prêmio Atalanta.
Os acontecimentos sincrônicos, por sua vez, geralmente não dão respostas diretas a um dilema, mas o esclarecem por meio de insights e estes nortearão tomadas de decisão posteriores e seguras.
Por exemplo, uma vez, sentia-me pressionada entre continuar no emprego ou me demitir. Parte de mim estava pronta para continuar na função, embora me sentisse explorada material e psicologicamente. E eu estava sendo dirigida por um pensamento pessimista de fracasso, caso encerrasse meu contrato de trabalho. Um dia, uma colega, contratada há mais tempo do que eu, veio a falar comigo e, como uma porta-voz daquilo que nunca eu conseguira expressar, comentou: “eu vendi minha alma a este lugar”. Quando ouvi isso, senti que um insight me fora dado. Ele representou o que me aconteceria se permanecesse ali, ajudando-me a agir decisivamente, ou seja, guiando o meu pedido de demissão. Sentindo-me lúcida e segura, agradeci pela lição que me fora concedida. Mais tarde, refletindo sobre o que tinha vivido, lembrei-me do antigo ditado chinês que evoca o surgir de alguma coisa inesperada e para nos indicar o caminho quando, de forma madura, aceitamos o singelo fato de que, em certas situações, precisamos de ajuda além daquilo que habitualmente, no nível do ego, conhecemos: “quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”.

Eugênia Pickina

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

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  1. São poucos os textos que descrevem com sensibilidade e, ainda, com conteúdo, as intempéries vividas num período de espera ou “entre-tempos”. Sua fala nos remete a introspecção mas também em nos sintonizarmos com aquilo que está além, e somente aquele que é passante (do período descrito) pode entender o ‘quantum’ da solidão e peso desses dias.
    “O segredo talvez seja inicialmente desarmar-se para aceitar o auxílio de forças que fogem à realidade do ego.” Apesar de simples, sabemos que o esforço para entender e viver “este segredo” pode ser bem diferente.
    No entanto, no passar dos capítulos do ‘livro da vida’ (de cada um) entendimentos assim tornam-se mais claros e acabamos por compreender que realmente esse é um dos caminhos, aguardar com confiança e em sintonia com as boas energias, afinal, como já dizia a velha coruja: “para alcançar aquilo que deseja, peça fortemente no seu coração, tenha coragem e um dia, simplesmente, vá”.

    • Obrigada pelo seu precioso comentário e que acrescenta, pela sensibilidade, o propósito da escrita. De coração, no período sombrio ou confuso, no qual nos faltam recursos “conhecidos” para resolver o dilema, o melhor caminho é entregar-se a uma “solução” derivada de fontes que escapam ao nosso conhecimento usual e relativo. Certamente, o Mistério virá em nosso auxílio e seremos presenteados com o “fio de Ariadne”, encontrando a saída do labirinto, voltando ao fluxo da vida.

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