Caso de amor

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Tu não dormes. Não. Eu não durmo. Estamos falando sob as estrelas. Estamos aqui, duas rosas meditativas na paz da terra. Jiménez

Em nós há latente um desejo de viver deixando viver, a necessidade que nos liberta do estado extremo de incorporar e ser incorporado, como no caso de um beijo.

Por isso, a sexualidade vivida como captura do outro revela exatamente o quanto o apego se distancia do amor, porque é no desprendimento que cativamos o que liga amado e amante, sob a liberdade de almas distintamente unidas.Aqui, amor e ternura equivalem à evitação de um fato que assombra os que imaturamente se entregam a um ato episódico de troca entre corpos: eu posso perdê-lo a qualquer momento.

Nesse desafio de amor pelo amor largamente somente o feminino (tanto na mulher quanto no homem) tem êxito, pois um caso de amor se contrapõe necessariamente a uma ameaça: a que nos vem do surgimento de perda.

E apenas a ternura pode celebrar o fluxo do eu para  tu, tecendo a presença do “nós”, e com consciência da profundidade incrível de vidas compartilhadas e apartadas, então, da possessividade que nutrimos, como crianças, nos contatos com alguém.

Geralmente, um indivíduo possessivo e ciumento, sobrecarregado por carências, se transforma num agressor da criatividade daquele que diz amar.

Proust tem razão quando conta que “o ciúme não é mais que uma inquieta necessidade de tirania aplicada às coisas do amor”. É pois a criança, e não a pessoa diferenciada, que cresce e se desenvolve mediante o amor dos outros…

Ora. É, no final, este outro (amor e amante) que divide conosco a experiência de existir para ser, ajudando-nos a compor nosso destino enredado entre sombra e luz.

E embora seja dolorosamente a perspicácia do risco do abandono que nos faz autônomos. Amar nos faz cientes de que a única saciedade, entre amantes, reside no fato do crescimento comum.

É o desenvolver-se mutuamente que mantém aceso o amor, pois é ele, o amor,  o próprio espaço da relação. Consequentemente, “nem a morte é um limite intransponível ao nosso amor”  (Neruda).

Eugênia Pickina

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

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