Solidão e crescimento

Padrão

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Sentir-se ao sabor de si mesmo promove o querer estruturar-se de forma mais autêntica, opondo-se à normose coletiva para alcançar a própria verdade.
E isso quer dizer também começar a encontrar aquela autonomia pessoal que é a essência daquele tipo de vida que consideramos realmente humana e madura.
O homem nasce só, sua dor e seus encantos, ele os experimenta no recôndito do seu ser. Seu grande dilema não é vencer a solidão, mas sim transformá-la em aliada de sua realização pessoal.
E se não criamos intimidade com a solidão (algo conatural ao existir), não teremos modo algum de perceber nossa nudez e, portanto, dificilmente conseguiremos que a nossa vida se transforme em crescimento e caminho.
Ora. É esse sentimento de abandono que nos assegura o relacionamento com a nossa interioridade, e não como um aspecto qualquer da nossa existência, porque é a própria totalidade que é aceita e explorada como algo que representa o próprio universo para quem o vive.
É claro que diante dos grandes eventos sociais um ser humano parece insignificante, mas é justamente o indivíduo singular que dá contorno visível ao fato de o quanto somos indefesos em relação ao mimetismo social, o quanto somos frágeis diante dos confrontos com o coletivo.
Por isso, cada ser humano precisa entender que suas necessidades de crescimento não podem ser traduzíveis por mais ninguém a não ser ele mesmo. Nisso reside a impossibilidade de delegar a outrem uma parte ou todo o seu destino.
Mas se é verdade que somos permeáveis às influências alheias, às categorias culturais e pressões sociais, ilusório é achar que há códigos ou modelos que nos impeça de uma atribuição que nos pertence desde o nascimento: o viver exige assumir como próprio todo o bem e o mal inerentes à condição humana – somos responsáveis por nossa sombra-e-luz.
Refletindo tudo isso, compreendemos que o direito a construir o próprio destino deriva da relação entre o ser humano e a sua consciência – ainda que seu horizonte seja restrito, limitado à sua capacidade de felicidade, valor, conquistas, fracassos, reivindicações e expressões.
Uma pessoa é tanto a experiência dos seus relacionamentos quanto o ser humano abandonado ou solitário. Sua personalidade diferenciada depende de decidir a conflitividade entre a dimensão individual e aquilo que a contradiz, abrindo mão de usar pontos referenciais alheios, pois são eles, muitas vezes, que acarretam a perda de uma existência.
Se agirmos de modo igual aos outros para nos apartar da dramaticidade (e beleza) de viver como pessoas abandonadas, traímos a vida. Sem (auto)enganos, nossa autonomia implica viver por si mesmo a aventura pessoal, dando finalidade ética e afetiva às próprias capacidades criativas.
Quando nos diferenciamos, quando nos assumimos, conseguimos dar densidade à nossa existência e o real se abre com as suas contradições e dificuldades. No entanto, ao mesmo tempo, o mundo se torna mais transparente e passamos a compreender coisas que antes não teríamos de modo algum compreendido. E adquirimos, no mínimo, mais compaixão e bondade.

Namastê.

Eugênia Pickina

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

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