Em nome do filho

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A busca pelo pai inspira em segredo a vida de muitos homens.
O pai concede a vida, ilumina, dá energia e, por isso, está associado ao sol no plano simbólico.
Quando o contato do pai é positivo, a criança se nutre de força, confiança, energização das suas potencialidades, dispondo também de um ponto referencial para se guiar quando inicia seu acesso ao mundo exterior.
Se através da mãe o menino apreenderá um mundo como lugar seguro e protetor; do pai, colherá o poder para se relacionar com o mundo de forma sadia e lutar pela sua existência, enfrentando seus medos e resistências, sem rejeitar sua vocação e talentos originais.

É claro que ambos, tanto o pai quanto a mãe, podem proteger e fortalecer, contudo, no plano simbólico, eles desempenham papéis determinados, funções específicas para o crescimento do menino e candidato a ser responsável por suas escolhas e caminho.
Mas, quando a imago paterna é modelada inadequadamente pelo pai no menino, ele portará essa deficiência pelo resto da vida. Poderá, por exemplo, trair sua jornada pessoal, buscando, de forma inconsciente, aprovação nos outros. Poderá, também, mesmo humilhado, servir a um chefe tirânico e desumano, justificando essa “subserviência” na necessidade de sustento da família.
James Hollis afirma que “os filhos precisam ver o pai vivendo a própria vida, lutando, sendo emotivo, falhando e caindo, levantando-se de novo, sendo humano”.
Diversos homens estão subjugados por uma vida sem significado porque o pai não lhes deu apoio, não os acolheu em suas dificuldades, não lhes ensinou que sentir medo é natural, mas mesmo assim é possível prosseguir. Além disso, é claro, todos os filhos são carentes de algo essencial: que o pai diga que os ama e os aceita exatamente como são.
Ademais, o pai pode estar fisicamente presente, contudo ausente emocional e espiritualmente. Sua ausência pode ser literal através da morte, do divórcio. Mas a deserção do pai significa um desequilíbrio no triângulo pais-criança e, desse modo, a díade mãe-filho adquire um peso desproporcional.
O filho precisa do pai, ou de um modelo masculino presente, para lhe mostrar como se comportar no mundo, como estabelecer um relacionamento adequado com o feminino, tanto interno quanto externo. A mãe não pode, por si mesma, substituir esse referencial psíquico e cultural.
Para muitos homens, infelizmente, nos conta James Hollis, o pai, embora não por culpa dele, ao menos não de forma consciente, “é apenas outro em uma série de gerações feridas”, cujos medos e feridas não assumidos estimulam a alienação pessoal para a vida inteira, sofrendo essa “série de gerações” de um contato estéril com as próprias emoções, sentimentos e propósitos.
Assim, se não o pai pessoal, os filhos necessitam contatar suas almas feridas para dar início à própria cura, deixando de ferir-se reiteradamente e de ferir seus filhos…
Não podemos, é óbvio, mudar nossa história pessoal com a enorme influência dos pais (vivos ou mortos). O filho, contudo, por meio da coragem, pode lançar-se em direção à sua interioridade para explorar a si mesmo, reconhecer e escutar suas dores profundas, logrando assim, mesmo que de forma gradual e paciente, superar as limitações impostas pelos ferimentos do (seu) pai.
Ao tentar este trabalho consigo mesmo, o homem se torna capaz de reassumir-se, lidando melhor com seu masculino interior. Com isso, pode ativar esse potencial masculino no seu filho e este filho, por si mesmo, romperá com a “geração de homens feridos”, tendo mais chance de viver plenamente, sentindo-se seguro para recusar modelos ancestrais negativos, pois, geralmente, “não estamos à vontade, não nos sentimos seguros, no mundo interpretado” (Rilke).

Eugênia Pickina

*Foto: Bambu/Marcos Pickina

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