Além de Deméter

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É do feminino participar muito de perto do nascimento, mas é da mulher vivenciar aspectos diversos e procurar encarná-los em sua existência e para “tornar-se um consigo mesmo e ao mesmo tempo com a humanidade, em que também nos incluímos” (Jung).
Ora. A mãe é apenas um dos papéis que pode ser assumido pela mulher, mesmo que reflita, e consideradas as mudanças incipientes e positivas exceções, o modelo de uma cultura patriarcal.
Assim mesmo uma mulher inserida na sociedade atual pode desejar ardentemente ser mãe e uma vez que isso se realize, achar a maternidade um papel realizador. Claro que é a função “mãe” que motiva essas mulheres a nutrirem os outros, filhos biológicos ou não, a encontrarem satisfação como alguém que provê a subsistência e os cuidados essenciais à vida que inicia seu ensaio em direção à autonomia futura.
Tais mães não desistem quando o bem-estar das crianças está implicado. E elas simplesmente reconhecem a paciência, a ternura, a capacidade de doação como qualidades essenciais ao exercício de uma maternidade positiva.
Logo, há mulheres que são, principalmente, maternais. Em seus relacionamentos são nutridoras, doadoras, dignas de confiança e usualmente generosas. Em sua psique cultivam ativamente o arquétipo Deméter, conhecida pelos romanos como Ceres – a deusa da agricultura, cujo mito mais conhecido dá ênfase ao seu papel de mãe de Perséfone, a filha raptada que se tornou rainha de Hades.
Contudo, o papel “mãe” não pode suprir os espaços na vida de uma mulher para outros papéis, trabalhos, expressões.
Ao reduzir sua existência à maternidade, a capacidade de nutrir e prover, própria ao arquétipo Deméter, pode assumir um viés negativo e, desse modo, muitas mulheres, no papel de mãe, ativam uma tendência possessiva que tanto encoraja a dependência dos filhos quanto estimula neles sentimentos de insegurança e inadequabilidade, o que retarda o crescer e o querer assumir escolhas em relação aos seus roteiros, correndo o risco de se tornarem “filhinhos-da-mamãe”.
Além disso, o termo “depressão do ninho vazio” descreve a reação [contrariada] das mulheres que devotaram suas existências aos filhos somente para tê-los, um dia, afastando-se delas…
Em verdade, essas mulheres relutaram em compreender que o padrão maternal que personificam tem uma atuação significativa, porém episódica na vida de um ser humano. E é a hostilidade por uma existência com facetas diversas que não foram integradas, experimentadas, que fundamenta essa depressão.
A menos que essas mulheres consigam lugar em seu cotidiano para outros desafios e experimentos, elas aumentarão a probabilidade da depressão do ninho vazio quando for, naturalmente, dispensável em seu papel de mãe.
Para impedir que a vida se torne amarga ou infecunda, e contra o rigor de uma velhice estéril, a mulher pode ser tocada por um ímpeto de retomar projetos pessoais há muito abandonados, abrindo-se, por exemplo, aos estudos, à arte, a uma parceria de trabalho com amigas, ou mesmo solitária.
Essa mulher pode focalizar os diferentes aspectos de si mesma e arriscar novas escolhas, permitindo-se ativar arquétipos pouco familiares, como Ártemis e seu gosto por independência; Atenas e sua habilidade intelectiva; Perséfone e a habilidade de apreciar sonho e imaginação; Héstia e sua habilidade de ser espiritualmente criativa; Hera e sua habilidade de ser fiel [também a si mesma]; Afrodite e sua habilidade de apreciar o prazer e a beleza….
Que caminho tomar? No geral, o caminho não tomado.
A vida nos presenteia com [novas] oportunidades para o contato com o desconhecido e para ganharmos mais consciência, e assim não trair nossa tarefa maior de nos tornar “um consigo mesmo”, desfrutando com plenitude não somente os relacionamentos, mas também a relação com a própria jornada.

Eugênia Pickina

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

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