Tempo presente

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Vivemos um tempo no qual o modelo de vida centralizador é o da juventude.
Deste modo, vemos adultos na precária condição de serem incapazes de usufruir o estar na velhice. Pessoas que, aos setenta anos, agarram-se de forma patética à sua juventude, indisponíveis aos anos por vir.
Duro perceber que haja indivíduos com oitenta anos que continuem enredados à sua infância, ou mesmo encapsulados no passado nostálgico, resistentes a viver para aclarar um positivo testemunho de sua vida psíquica e emocional durante a velhice – os desafios, os segredos e as possibilidades criativas que permeiam esta etapa existencial.

Infelizmente, a abordagem da velhice é amiúde racional, unilateral e assim a idade fica circunscrita às definições médicas em termos de “normalidade”, concepção esta dominada por uma visão de prover certa qualidade de vida mediante, quase sempre, bateria de medicamentos e restrições dietéticas. A vida emocional e a alma, então, são excluídas, reprimidas.
E, mas pior, a insistência na imagem idealizada da [eterna] juventude apenas reforça a ansiedade na velhice e bloqueia a aceitação de uma consciência diferente em relação ao corpo, cujas metáforas cobram, nesse momento, um novo status diante de si mesmo e da própria maneira de atravessar os anos.
O verso de Eliot que diz “os velhos deveriam ser exploradores” sinaliza um convite: a plenitude da vida também está contida na velhice, e distanciada das “certezas” dos enfoques da abordagem [tradicional] geriátrica.
Na velhice, os sentimentos podem ser uma fonte restauradora e criativa – conversar com um amigo, meditar no jardim, escrever um livro, apreciar uma boa música, abrir-se a um curso de aperfeiçoamento, viajar para um lugar inusitado, aprender russo, experimentar um projeto humanitário, dedicar-se a um relacionamento amoroso, ou, de maneira simples, contemplar as emoções que nascem do interior para dialogar com o corpo, procurando entender suas memórias, pô-las em contraste com o exterior, outorgando prioridade ao aqui-e-agora.
Cada ser humano tem compromisso com sua jornada. Assim, na velhice, conectar-se com a luminosidade da alma, reverenciar o “deus interno”, religar-se ao espiritual, testar o desafio de se permitir o novo estado de coisas. Nutrir-se, como Tirésias, o velho adivinho cego, do gosto pela sabedoria interior. Como efeito, aceitar o percurso do tempo e com amor pelo caminho.
Sim. A velhice pode de forma nua refletir a provisoriedade que afeta cada um de nós. Mas, quando estamos engajados no trabalho interior, e sem olvidar o valor dos relacionamentos – aceitando as imperfeições humanas para descobrir (novas) dimensões humanas de amor -, o envelhecer pode significar “ter mais experiência” e, com isso, a pessoa consegue colher inspiração e habilidades, não-testadas ou altamente desenvolvidas, para se expressar, interagindo mais profunda e honestamente com a narrativa do tempo presente.
Namastê.
Eugênia Pickina

*Quadro: Cavalos Azuis – F. Marc

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

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