Entre mundos

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Algumas mulheres são suscetíveis a estados depressivos, principalmente quando dominadas por contextos psíquicoemocionais que lhes frustram a conquista da autonomia.
No geral, um indivíduo inseguro reprime sua raiva no lugar de expressá-la, deixando de reivindicar a compreensão de suas diferenças. Ao contrário, por sustentar suas emoções negativas, guardando-as para si mesmo, simplesmente se torna deprimido – a raiva, voltada para dentro, que é repressão, torna-se depressão. E, para agravar o quadro, o isolamento, a autocrítica e o sentimento de inadequação impelem o quadro melancólico renitente.
Assim há mulheres que se retiram para um mundo sombrio de imagens interiores e vida imaginária, um território ao qual somente elas têm acesso. E amiúde podem ter se encolhido nessa solidão a fim de afastar um pai tirano, uma mãe intrusa, ou um relacionamento que as mantêm psiquicamente aprisionadas ou sufocadas.
No geral, essas mulheres possuem Perséfone como padrão de personalidade e por isso são vulneráveis a ciclos nos quais se sentem especialmente inativas, o que indica também uma tendência a se tornarem facilmente “capturadas” pelo destino.
No mito, Perséfone, a filha raptada de Deméter, torna-se a esposa de Hades. No entanto, ela se torna noiva contra a vontade e, posteriormente, ela passa a viver prensada entre o marido (Hades) e a mãe (Deméter).
Logo, uma alternativa para transcender o padrão Perséfone negativo na personalidade, e não correr o risco de se sentir cativa em uma situação qualquer, é fundamental que a mulher assuma suas escolhas dizendo sim sem disfarce, sem reserva mental, pois seu bem-estar pleno depende da luta pessoal contra a indecisão (ou decisão parcial), a passividade e a inércia. Ou seja: deve decidir-se, assumindo a própria escolha mesmo quando ela deixe de ser “novidade”, procurando enfrentar a vida e suas circunstâncias, o que implica aprender a cuidar de si mesma.
Uma amiga me contou um dia: “eu tenho meus lugares secretos. Atrás da minha casa, sob uma grande árvore, há um banco no qual me sento para me esconder de tudo o que me incomoda, até mesmo meu marido e seu ciúme indomável. Fico a olhar o céu e nele me vejo desaparecer. Como quando era criança, fingindo que estava em terra distante, exceto naquela casa e com aquelas pessoas que me tiranizavam.”
Finalmente, minha amiga buscou ajuda especializada. Meses depois, ela reorganizou sua vida pessoal, reavaliou seu casamento e retomou projetos. Hoje, ela lida melhor com sua melancolia e sua predisposição a escapismos dirigidos pela inatividade. Aos poucos, dá crédito a si mesma e assume seus anseios de crescimento.
Descidas para o mundo interior (e inferior) podem acontecer em certos momentos das vidas das pessoas, quando somos invadidos por uma tristeza profunda e contumaz, quando nos sentimos vitimados, perdidos ou vazios.
E isso, em verdade, discretamente movimenta o explorar de um instante da existência caótica, mas exigente de autoavalição, ou seja, de um exame honesto para o ativar de transformações benéficas.
Contudo, quando a experiência depressiva se torna crônica, poderá ser árduo para a mulher retornar à realidade comum contando apenas consigo mesmo.
Nesse caso, pode ser necessário o apoio especializado para o (re)encontro da motivação, o (re)significado do caminho e, ao mesmo tempo, o dispor de recursos extraídos desse período sombrio e que, no futuro, servirão de auxílio para o superar das dificuldades que nos deparamos na condição de “passantes”.
Além disso, emergir de uma depressão pode favorecer um discernimento reflexivo que possibilita à mulher intuir um significado mais autêntico sobre si mesma e seu entorno. E pode haver também o amadurecer de campos criativos antes ignorados.
Particularmente, conheço muitas mulheres que, após superarem depressões profundas ou recorrentes, descobriram-se artistas ou terapeutas extraordinárias. Elas se tornaram úteis e passaram a contribuir de modo altamente individual, ainda que despojadas dos títulos acadêmicos usuais.
Atribuir valor positivo ao arquétipo Perséfone é aprender que intervalos inativos, se explorados, podem preceder períodos criativos e benéficos. Útil lembrar que a deusa Perséfone foi adorada pelos gregos de dois modos, como Coré (a jovem cativa/submissa) ou como a rainha do mundo subterrâneo (experiente/criativa) – uma guia para si mesma e para os outros.
A mulher tipo Perséfone pode integrar, assim, o aspecto positivo dessa deusa e que representa a habilidade de movimentar-se entre a realidade baseada no ego e a realidade arquetípica da psique (inconsciente), sendo receptiva às imagens que surgem em sua mente e em sonhos – e, com isso, refletir sobre eles, abrindo-se aos insights e suas influências positivas.
Obviamente, não quero dizer com isso que a depressão é positiva por si mesma. Mas quando ela se apodera de nosso ser, podemos, primeiramente, aceitar o que não pode ser mudado, mudar o que puder ser mudado, e saber a diferença.
No mínimo, a travessia de um episódio sombrio pode aflorar a percepção de que há um poder maior que o eu (ego) e ele é acessível.
Ativar a Perséfone experiente significa passar a cuidar de si mesma com bondade e paciência. Como efeito, aprender a aguardar a clareza dos sentimentos para enfrentar os desafios do caminho, sem dispor  do direito à autonomia, pois é isso que pressupõe o encarnar, mais e mais, da própria essência.
Namastê.

Eugênia Pickina

*Imagem [tela] Van Gogh

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

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