Às mulheres que vivem só

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Ninguém sabe com exatidão de que modo sofrem as mulheres com sua incursão histórica, motivadas por suas conquistas, aceleradas por múltiplas responsabilidades. Quantas divididas entre o desejo de estudar, de fazer carreira e de ser esposa e mãe de seus filhos…
Apesar disso, conheço mulheres cujas qualidades fortes giram em torno da independência e do desapego. Movidas internamente por uma serenidade emocional, familiarizadas e à vontade com o aspecto interior, apreciam as inesperadas recompensas da solidão e recusam com naturalidade o papel de “esposa”.Estas mulheres podem até mesmo ter experimentado um casamento, mas, divorciadas ou viúvas, elas rejeitam sem titubear um segundo acordo nupcial. Vivem sozinhas e, no geral, não estão à procura de um homem, pois “ter um marido” não lhes preenche nenhum impulso.
Para a maioria das pessoas, a solidão, que estas mulheres valorizam, pode parecer triste, inadequada. Porém esta avaliação é um equívoco. Elas vivem bem sozinhas, são espontaneamente descompromissadas e cultivam significado em suas vidas.
Caso perguntemos sobre a infância destas mulheres, em sua maioria foram crianças agradáveis, ainda que os pais tenham sido pouco afetivos ou democráticos, e, desde cedo, revelaram um qualidade de “alma sábia”, atraídas pelo conforto na solidão.
Quando adolescente, tive a sorte de conhecer meninas que tinham este padrão de comportamento. Elas eram introvertidas, discretas e mantinham a solidão no meio dos outros. Tinham o dom de ouvir com o coração compassivo e permaneciam centradas no meio de qualquer perturbação que eu e outras lhes trazíamos, e nunca condenavam, dando-nos bons conselhos. E estou certa de que se tiveram filhos, estes, quando adultos, em terapia, não terão maiores problemas para ser resolvidos em relação às mães.
Estas mulheres amiúde mantêm acesas as qualidades de Héstia, a deusa virgem da lareira, cujo fogo tornava sagrado o templo e o lar, personificando o arquétipo do si-mesmo. De forma natural, elas reconhecem que o poder vem de dentro e a segurança apenas é alcançada naqueles lugares luminosos encontrados por quem cultiva com cuidado o aspecto interior.
E como a competição não agrada estas mulheres, portanto negam conversa fiada, muito menos relações estratégicas, de outro lado, conheço fotógrafas excelentes, cuja paciência e introspecção sabem “acontecer” o momento certo, o gesto expressivo que captura uma imagem única e especial.
Além disso, se a mulher tipo Héstia desejar implementar planos, combinando-se com as qualidades de Atenas, um arquétipo feminino ativo, ela lidará efetivamente com o mundo, interessando-se pela vida acadêmica, pelos estudos ou por profissões tradicionalmente masculinas, como advocacia, engenharia, comércio, medicina etc.
E caso a mulher tipo Héstia tenha um animus bem desenvolvido, ela consegue ser bastante sagaz, tornando-se apta a cuidar de seus objetivos em situações competitivas. Assim, em casa ela pode ser uma presença acolhedora, contemplativa, mas no trabalho – seja um escritório, seja um cargo que exija iniciativa e dinamismo -, ela pode ser diplomática e politicamente ativa, dando conta com diligência das suas tarefas, porque lida bem com pessoas e diferenças.
E o que pode fragilizar esta mulher?
Uma situação emocional abrupta pode inundar o tipo Héstia, e, em consequência, a mulher pode afastar-se do próprio centro, sentindo-se desajustada ou letárgica. Consequentemente, o perigo da depressão e o “apagar o fogo do centro da lareira de Héstia”. Então, é salutar recompor-se na solidão e, de forma gradual, intuitivamente (re)encontrar o próprio centro. Assim continuar a viver em harmonia com seus valores mais profundos, (re)descobrindo-se a si mesma.
Saudação helena!
Eugênia Pickina

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

Uma resposta »

  1. Gostei bastante do texto. Atualmente vivo sozinha em uma cidade distante da minha. E ocupo um cargo de chefia no trabalho, sendo que sou mais nova que todo mundo no meu serviço (tenho 23 anos!). Sofro um pouco de preconceito por isso. Quer dizer, não “sofro”, apenas vivencio. Como disse gostei do texto por que ele foge um pouco do estereótipo da mulher que vive sozinha. Geralmente os textos sobre isto sempre tentam nos dar dicas de como encarar a solidão ou o que fazer pra conhecer gente, ou melhor, homens, como se não pudéssemos ficar bem por conta própria. Aliás eu me identifiquei com a mulher descrita no texto, se isto não for me “achar” demais. Achei excelente a observação de que “Para a maioria das pessoas, a solidão, que estas mulheres valorizam, pode parecer triste, inadequada”. É verdade! Quando me perguntam como foi meu final de semana e eu digo que fui ao shopping (sozinha) fazer compras, li livros, blogs, estudei pra concurso, organizei minha casa, a cara de pena que meus colegas fazem às vezes me tira do sério. Isso tudo não significa que eu não goste de estar com pessoas, mesmo porque foi a vida que me levou para esse tipo de vida que levo hoje, nem foi uma escolha tão consciente assim; apenas que eu não me desespero ou ache aterrorizante passar um fim de semana sozinho. Pra mim é normal!

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