Quando o encontro é um desencontro

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Escutei de um amigo em uma manhã de sol, enquanto tomávamos um café: “tenho 45 anos. Há alguns anos, quando tinha 36, minha mulher me disse que não me amava e que ia me deixar. Fiquei arrasado. Queria reagir de alguma forma e não consegui. Compreendo hoje que ela me fez um favor. Aliás, fui eu quem a mandou embora com os meus surtos de agressão, que escondiam minha imaturidade e reação a qualquer tipo de intimidade mais honesta. Ela me forçou a investigar minha raiva, meu apego, meu medo do abandono. Simplesmente, ela me obrigou a olhar para mim mesmo e perceber o quanto eu me detestava e, desse modo, reconciliar-me com minha própria história”.

Embora não usasse a palavra “anima”, ficou claro que a mulher deste homem o forçara a explorar sua vida interior porque ela não conseguia mais aceitar suas projeções e seu comportamento reativo, pouco acolhedor, o que impedira a sustentação do próprio relacionamento.

Conheço homens e mulheres infelizes em suas (curtas ou longas) relações. Alguns se tornam castrados ou deprimidos, outros indiferentes, mas igualmente sem alcançar a tranquilidade, como se ganhassem algo ao proteger a família, mas, em troca, perdessem a alma, porque um “casamento longo”, muitas vezes, pouco diz sobre a individualidade e a felicidade de alguém… E assim atuam com base no salário, na casa, nas viagens, no nível social, asfixiado o nível individual e, no caso, sombrios, enquanto protagonistas de uma “sólida relação” – e que recorda uma prisão…

As pessoas muitas vezes deixam de investigar, em primeiro lugar, a “cota” de amor que oferecem a si mesmos e a maneira como se tratam para, então, mensurar a qualidade do próprio encontro…

Com isso, os anos se arrastam e a qualidade da relação se deteriora gradualmente. Chega então o momento decisivo, o risco, a audácia de viver as perguntas no mundo existencial para o emergir da resposta que sinalizará o fim, ou não, dessa vida compartilhada, porém degradada…

Que isto pareça simplista, não é. Para começar, é extremamente difícil para alguns assumir que o relacionamento, na verdade, está baseado no apego, não tem como fundamento o amor e, por isso, a árvore oculta raízes apodrecidas.

Como terminar uma relação sem antes considerar a (nossa) verdade interior e corrermos o risco terrível de amarmos a nós próprios? Como então servir simultaneamente ao relacionamento e aos impulsos ao próprio crescimento? E de que forma, depois de descoberta nossa verdade, reunirmos a coragem de preservá-la no mundo real e ainda manter uma intimidade autêntica no relacionamento?

Quando atentamos para o fato singelo de que o oposto do amor não é o ódio e sim o medo, de imediato consideramos que o apego (por alguém) pode ser substituído de forma integral por eros e cáritas, mas primeiramente em casa (na nossa casa interior).

Em palavras simples, é o aprendizado muitas vezes difícil do autoamor e do contato constante com a verdade interior os recursos essenciais para o desenrolar de uma vida distanciada da posse, e impelida, sim, pela necessidade (natural) de carinhos e trocas mútuas, pelo desejo de compartilhar amorosamente experiências e o crescer juntos.

Cada pessoa pode examinar sua forma de tratar-se para discernir qual a mensagem emitida ao seu relacionamento e à intimidade que emoldura, realmente, a qualidade daquilo que diz… ser amor.

E é este tipo de questionamento e audácia que pode tornar o relacionamento possível através do tempo ou fadado à convivência de uma ferida difícil, caso ele, o relacionamento, por apego de um dos protagonistas (ou de ambos), persista, mas condenado pelas impurezas (não reunidas) da biografia insípida de um casal.

Para finalizar, meu amigo, naquele dia de sol, comentou: “relacionamento é sintonia, risco de melhorar-se, bom senso de viver, e viver a dois, tentando, ao menos e para ambos, viver integralmente.”

O amor desse modo encoraja-nos de sua luz pura e assim podemos prosseguir juntos. Do contrário, melhor investir no “bom senso de viver” sozinho…

Saudação helena!
Eugênia Pickina

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

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  1. “O oposto do amor não é o ódio, mas sim o medo”… medo de perder um hipotético status, medo de não saber conviver com a solidão, medo do arrependimento, medo de reconhecer nosso próprio medo. O medo tolhe a ação e transforma o cotidiano em perene purgatório. Há que estar alerta às sincronicidades que se apresentam, muitas vezes, num bate-papo informal… pra isso existem @s amig@s, com suas histórias que podem levar à conscientização, não é, querida Eugênia?

    • Suzete, obrigada pelo comentário! Suas ideias sempre complementam nossos saberes e práticas. E a amizade sempre contribui com o crescimento, dando-nos afetos, trocas, encantos. Volte sempre. Beijos.

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