Fragmento textual – sonho e sonhadora

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O existir humano pode ser descrito através da imagem de um caminho. Trata-se, na verdade, de “um estar a caminho” – e compor escolhas no intuito de prosperar o processo de autocriação.
Entretanto, muita gente se percebe estagnada, diante de uma vida que considera vazia e despida de significado.
Certamente, o trabalho interior pode mediar soluções para esse “sentir-se estagnado”, provocando o aflorar de recursos e potencialidades desconhecidas e que ajudam o indivíduo a se sentir a caminho novamente.
Maria, uma mulher de 37 anos, considerava sua vida inexpressiva. “Então, é apenas isso?” – ela me perguntou, olhando-me aflita e profundamente chateada consigo mesma.
Ela queria encontrar um sentido maior para sua existência e, ao mesmo tempo, conseguir superar sua dificuldade em assumir novos desafios e projetos.
E embora saibamos que a busca por um significado maior não seja fácil, porque depende de um autoexame franco, além de paciência e dedicação contínua, os sonhos podem constelar símbolos que se encontram abandonados, desprezados, no contexto de nossa própria vida, facilitando o aclarar de nossas reais necessidades de crescimento e sentido.
Agora, o sonho “inicial” de Maria.
Sonho que ando por caminhos, contudo não chego a lugar nenhum. Mas, ainda, neste sonho, tive a impressão de andar em círculos, passar por uma casa e desconfiar que era desabitada. Então, de repente, vi um coelho e o segui. Ele, porém, corria muito rápido e se escondia em pequenos arbustos. Achei que conseguiria segui-lo, mas me encontrei, de súbito, diante de uma mulher austera, cheia de autoridade, que recitou um poema. Olho para ela, mas quero seguir o coelho que não encontro mais. A mulher me diz em voz ríspida: ‘Este também é um propósito’. Saio correndo, sinto o vento e gosto disso.
Maria, no sonho, tem uma prova de que está andando em círculos. Tem também um claro indício para sua resistência a mudanças, que ela mesma reconhece na casa fechada e desabitada, à medida que associa a casa onírica à sua própria casa (interna). O que a casa abriga? – eu lhe pergunto. O que ela guarda, esconde? Há tesouros ali?
Aqui aparece o coelho. “Quando era criança, tínhamos coelhos. De algum modo eles me impressionavam. Pareciam medrosos, mas metódicos. É exatamente o que eu sou – metódica e assustada, pois sou rígida em minhas convicções” – Maria me explica.
Maria sabia no sonho que deveria seguir o coelho. No estado desperto, ela pressente que enfrentar seus medos, o coelho assustado, pode lhe dar a chave para contatar a (sua) sabedoria profunda e que pode ativar seu potencial criativo.
“Sempre quis tentar alguma forma de arte, mas nunca tive muita coragem” – e agora ela fala e de forma segura.
Contos e mitos retratam, no geral, o que falta à heroína ou ao herói já no início da narrativa.
Assim ocorre em “Alice no País da Maravilha”, que retrata a aventura de uma jovem no sentido de descobrir quem é, isto é, de se esforçar para definir seus valores e seu destino. No início da história, Alice, a heroína, parece ser muito pouco, porque lhe falta “muiteza” – expressão usada pelo Chapeleiro Maluco. Em outras palavras, falta à Alice profundidade, criatividade e isso para definir suas escolhas e elaborar sua trajetória pessoal.
E se Alice caiu num “buraco de coelho”, Maria, a quem falta coragem e também “muiteza”, igualmente se pôs em seu sonho a perseguir um coelho…
Para completar, o coelho, ao lado de outros elementos culturais, simboliza a fecundidade. Pode a vida de Maria se tornar fecunda, criativa?
Ocupar-se com a expressão da arte (o recitar do poema) e com uma juíza interna severa torna-se um aspecto importante do trabalho pessoal de Maria para resgatar coragem, vitalidade e criatividade – chaves para a busca de um significado (a “muiteza” de Maria).
No final do sonho, Maria corre e sente o vento – “o vento”, conta-me a sonhadora, “é vivo e leve”.
O vento representa a vivacidade psíquica e que pode ser reativada.
Assim, o sonho, ou pelo menos a forma como Maria o compreendeu, revelou a ela aspectos seus esquecidos e ignorados. No estado desperto lhe deu esperanças para redefinir escolhas e tentar alternativas inesperadas.
Afinal, desenvolver-se e tornar a existência fecunda, orientada por “muiteza”, tanto reivindica aprender a assumir as necessidades da alma, que são únicas, como arriscar um passo a mais no caminho.
Saudações!

*As “leituras” de um sonho nunca se esgotam e, de forma óbvia, estão ligadas de maneira estreita ao contexto existencial da sonhadora ou do sonhador. Aqui, portanto, somente houve o desejo de compartilhar um fragmento textual de um certo trabalho onírico de uma sonhadora e desse modo apto a contribuir largamente com o (seu) processo humano de autocriação.

Eugênia Pickina

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

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