Universidades públicas: descaso com a educação no Brasil

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Não dá para imaginar o Brasil despido das universidades públicas.
Alguém poderia explicar isso à Presidenta Dilma, capa da Revista Forbes, que a insere no ranking anual das mulheres mais poderosas do mundo?
O livre pensar é próprio ao espaço destas universidades, mas pouca gente arrisca perder tempo para discutir, no espaço público, sobre a humilhação dos maus salários. E por isso ouso comentar que a sociedade, de forma geral, vem dando pouca importância à situação destes professores, formadores da massa crítica no Brasil.
E, pior, baseados na escuta dos argumentos neoliberais, muitos acreditam que eles, os professores, estão prejudicando a sociedade por lutar por salários (e caminhos) dignos.
Questiono: se esta classe é tão importante para a Nação, e cremos que sim, por que ela é tratada com tanto descaso, indiferença, hostilidade e falta de espírito cooperativo?

Eu fiz o meu mestrado em uma universidade privada – Presbiteriana Mackenzie-SP. Uma das poucas no Brasil que trata seu corpo docente (e discente) com respeito e dignidade, assegurando espaço para o livre pensar e o fomento das ideias, garantindo direitos e deveres.
Mas, antes do mestrado, eu tinha meu contrato de trabalho com uma universidade privada, cujo objetivo era tão somente atender ao mercado.
Nós, os professores, meras engrenagens deste grupo “educacional” egoísta, éramos explorados, sugados por uma carga horária abusiva, segundo as regras do capitalismo duro. Minha rotina estava subjugada pelo cruel paradigma do “pão sem flores”.
Eu, docente e explorada, pensava: “coitada de mim! Disciplinas como as minhas (sim, porque éramos obrigados a ministrar diversas disciplinas) – Filosofia do Direito, História do Direito, Sociologia do Direito, Antropologia – deveriam ser extintas, pois não existe mercado para elas!!”
Resultado: após três anos e meio de docência e exploração, por uma questão de saúde mental, eu pedi demissão. Hoje, reluto em procurar trabalho (indecente) como docente. Ademais, nao tenho doutorado e, por isso, infelizmente, não posso, por enquanto, participar de um processo seletivo em uma universidade pública.
Ora. Como o plano dos neoliberais reúne adaptar as universidades ao mercado e sufocar o impulso crítico ao neoliberalismo, sinto-me desiludida porque a mesma estratégia, promovida pela mídia tendenciosa/antissocial e por políticas neodesenvolvimentistas, propagadas pela Presidenta Dilma, a terceira mulher mais poderosa do mundo, segundo o ranking da Forbes, apenas tem uma direção: a destruição da universidade pública…
Continuo docente, embora sem contrato de trabalho. Cansei dos maus-tratos de grupos educacionais privados que nos consideram “engrenagens” e veem o aluno como cliente, a ser adulado para continuar a pagar as mensalidades…
Infelizmente, não há muitas particulares como a Universidade Presbiteriana Mackenzie – estas são exceções…
Assim, diante de um cenário agreste, é complicado querer continuar a ensinar e investir em si mesmo, ou seja, pretender um doutorado e tudo o que isso implica. E o que me assusta, como cidadã, é o fato singelo de que as públicas estão sendo devoradas pela lógica egoísta das mentes que dirigem o nosso país. O que nos aguarda, então?
Releio a matéria na Forbes…
Ora, brasileiras e brasileiros! É a primeira vez que uma mulher dirige este país.
Minha dissertação tratou sobre a máscara do público-privado. Escrevi sobre o patriarcado, sobre a repressão do feminino. Debrucei-me sobre a falácia das teorias neoliberais que ocultam um simples fato: na realidade, a silenciosidade do privado é uma mentira, pois, como diziam as feministas, “o pessoal é político“.
Então, há uma mulher a dirigir os caminhos do Brasil… Segundo a Forbes, a aposta do Brasil é o “empreendedorismo”. Isso já nos conta algo, ou não?
Como brasileira, mulher e docente, pergunto: não faz parte dos desafios nacionais assegurar e melhorar um projeto de educação voltado a transformar a realidade brasileira? E isso não reclama de forma indispensável a presença da universidade pública? uma dica: o sistema de cotas é tanto essencial como constitucional, e já sabemos disso.
Senhora Presidenta, as universidades públicas são essenciais a uma sociedade livre, justa e solidária (consequentemente crítica), ou não?
Em palavras diferentes: assim como ler e escrever não implica saber dizer não ao consumismo imposto pela mídia, a construção de uma cidadania solidária e livre não tem ressonância no contexto de uma “universidade” (privada), presa a grupos educacionais neoliberais. Aqui, a gestão empresarial obedece a uma meta (nítida ou dissimulada): transformar alunos (cidadãos) em consumidores…
Assim, nossas utopias e esperanças dependem necessariamente das universidades públicas.
Saudações!

Eugênia Pickina

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

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