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O conceito de individuação de Jung, ou seja, a ideia de que o objetivo da vida é servir o mistério (campo do espírito) tornando-se a pessoa um indivíduo diferenciado, força um diálogo contínuo entre o ego (nível da personalidade) e o Eu (nível profundo do Ser). A partir desse intercâmbio, as sugestões da presença do Eu podem nos conduzir e ao mesmo tempo nos proteger das certezas dogmáticas e das previsões quantificáveis – e que nos desviam, muitas vezes, de nosso caminho verdadeiro.
Assim, talvez, e num propósito singelo e bem modesto, possa ser útil refletirmos sobre o conceito de culpa e seus diferentes tipos de experiência: a culpa como forma de responsabilidade; a culpa como a defesa não autêntica contra a angústia (ansiedade):

A culpa como responsabilidade
Nenhuma pessoa lúcida pode se considerar inocente, seja no nível individual, seja no coletivo. Logo, parte do autêntico desenvolvimento do indivíduo pressupõe o reconhecimento adequado da culpa, isto é, a aceitação da responsabilidade pelas consequências das próprias escolhas.
Declarar que errei, que sou culpado de escolhas inadequadas e das suas consequências dolorosas é tanto início da sabedoria como acesso a um estado de mentalidade que pode promover libertação e paz interior.
O reconhecimento é, pois, essencial para que possamos começar a lidar com a culpa de uma maneira adulta e responsável.
Não é acaso, portanto, que grande parte do trabalho do programa de Doze Passos se funda na eliminação da negação, na aceitação da responsabilidade pela própria vida, e, quando possível, na recompensa das pessoas prejudicadas.
Desse modo, o saudável reconhecimento da culpa pode ajudar a pessoa a começar a agir no mundo de uma forma diferente, abrindo mão de fugir ou negar seus equívocos, passando, em consequência, a arcar com, pelo menos, uma cota mínima de parte dos diversos problemas sociais, cronicamente insolúveis, de nossos tempos…
A culpa como defesa contra a angústia
Grande parte do que chamamos de culpa é, na verdade, uma defesa contra uma angústia maior, ou seja, uma reação à experiência da ansiedade.
Por exemplo, ouvimos pessoas dizerem que se sentem culpadas quando ficam zangadas por dizerem “não” e, com isso, não se sentirem pais adequados.
Na verdade, esses sentimentos, condicionados desde a infância, revelam, no pano de fundo, a frustração por não conseguir o indivíduo reter a aprovação ou afeto de alguém…
Assim, o que é chamado de culpa, amiúde, é a sensação reativa e protetora da criança em relação ao mundo que a circunda.
Logo, o sentimento desagradável e a repentina frieza são lembranças reflexivas de visitas ao terreno agreste da desaprovação dos pais.
Então, sentir-se culpado por dizer não, por exemplo, é na verdade uma defesa contra a possibilidade de que o outro vá ficar aborrecido, o que ativa o imenso reservatório de emoções pesadas que carregamos desde a infância…
E essa culpa não autêntica pode ser alinhada ao ressentimento dos outros, ao ciúme, à raiva e a todo um conjunto de material (não trabalhado) da sombra.
Quase todos nós fomos condicionados a ser agradáveis em vez de sinceros, flexíveis em vez de autênticos, “bonzinhos” e adaptáveis em vez de fazer valer nossas opiniões… Isso é um processo oriundo da cultura, fruto do adestramento social.
Na verdade, a maioria de nós não foi educada, mas sim condicionada. Educar, por sua vez, envolve outros mecanismos e recursos, respeitando sempre a individualidade, as peculiaridades da criança.
A culpa como uma defesa contra a experiência da angústia muitas vezes reflete uma ausência de permissão (interna) de sermos nós mesmos. Reflete o poder incalculável do condicionamento precoce.
Mas, de outro lado e de forma luminosa, essa espécie de culpa oferta uma oportunidade para que resgatemos a iniciativa na nossa vida.
Assim, nesses momentos de culpa, somos chamados a questionar: “De que estou me defendendo?” Normalmente a questão se resume ao medo de que uma outra pessoa possa não ficar feliz com as nossas escolhas.
E como essa culpa não é autêntica, não é a admissão corajosa de termos feito mal aos outros, é essencial trabalharmos através dessa angústia embotada para alcançar a idade adulta, pois continuar bloqueado por este tipo de culpa implica estar preso ainda na infância (e num modo de vida não diferenciado, que atrita com o processo da individuação – e uma vida com significado).
No mundo real, para sermos uma pessoa de valor, no lugar de um camaleão emocional, escolhas e decisões devem ser tomadas e agradar aos outros não pode estar no topo das prioridades…
Em consequência, somente quando passamos a agir de forma consciente, aprendemos, mesmo que de forma obtusa, que fazer escolhas – e conseguir viver em paz com os apelos de nosso coração – geralmente independe da aprovação dos outros.
Sem dúvida, tomar ciência da origem de emoções desagradáveis, fundadas na angústia/ansiedade, e lidar com elas, torná-las conscientes e explicáveis (sujeitas a um exame/entendimento) ao menos impede que o senso interno de restrição a escolhas diferentes seja inconsciente. Como resultado, a culpa como defesa tende a se diluir, pois ela se torna inaceitável, o que ajuda a pessoa a se desenvolver com mais serenidade.
Sinto, portanto, que somente através do trabalho interior, e do reconhecimento deste mundo interior, conseguiremos transformar nossos equívocos, erros, distrações – e portanto a culpa e a angústia – em algo que nos torne mais fortes e mais suscetíveis ao desenvolvimento de nossos mais caros dons e, ao mesmo tempo, à florescência das virtudes em nós, mas sem receio de perceber-se imperfeito, um ser “inacabado” e a caminho…
Saudações e carinhos!
Eugênia Pickina

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

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