Saudade e nova vida

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Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou
. Neruda

Culturalmente, somos treinados a estar conscientes das condições externas e a como aliviá-las. Por exemplo, se tomamos um paracetamol, deciframos se a dor está cedendo ou não.
Mas há processos mais sutis e que dependem de uma perspectiva fundida nas condições interiores, isto é, sujeita ao campo, não mapeado, do mundo interior e para o qual, no geral, não estamos muito preparados.
E como este treinamento cultural nos “forma” para olhar para fora, não para dentro, quando somos invadidos por um estado emocional nostálgico, e então conduzidos a um território pouco familiar (dentro de nós), somos, de imediato, tomados por uma (incômoda) sensação de impotência.
Particularmente, mudei de cidade há poucos dias.O novo lugar, ainda repleto de espaços infinitos, pois, por enquanto, indecifráveis à minha idiossincrasia, me faz perceber, e de maneira insistente, o quanto o companheirismo é sensível ao ser humano solitário e, no viés de uma metáfora de instante, “desinstalado”.
Em outras palavras, sinto saudades dos amigos e… “do que é (re)conhecido”.
No entanto, perdida em ruas e consumida por um trânsito nada receptivo (hostil, na verdade), noto que a saudade que esfria me obriga também a buscar subtrair calor emocional desta experiência diferente e estranha da vida.
No final do dia, procuro reconhecer esta saudade que cresce em uma personalidade dividida contra si mesma – o hábito pelo conhecido e o desconforto pelo desconhecido – e, em consequência, tento não dirigir a mim mesma atos que enfraqueçam minha disposição para o abandono às fantasias daquilo que já foi.
O passado é tão-só memória. E nele somente posso colher lições e apontamentos que me ajudem a melhorar-me como ser humano e convivente.
Na verdade, nossos companheiros estão conosco porque nos seguem por dentro – no campo atemporal do mundo interior e, por isso, liberto do tempo redondo (o reino de Cronos, que nos arranca a capacidade de inspirar-expirar, respirar) para nos enlaçar ao aspecto qualitativo do tempo fecundo – Kairós.
Além disso, embora a presença fria da saudade, o convite para viver se faz à luz do presente e talvez para que haja redefinições. Com isso, o vir-a-ser, o servir de maneira mais lúcida o mistério interior para experimentar uma ligação com o mistério exterior e as novas possibilidades, relacionamentos e forças criativas não provadas…
Simplesmente, procuro equilibrar a alegria (do não vivido) e a saudade (do vivido), apoiando-me no aviso de T. S. Eliot: “espere sem esperança pois a esperança seria esperar pela coisa errada”.

Saudações e carinhos!
Eugênia Pickina

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

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