Quatro elementos, conexões e transformação interior

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A alquimia tem raízes no mundo antigo. A filosofia grega estabelecia, por exemplo, uma analogia entre a doutrina dos quatro elementos e as quatro faculdades do Homem: Moral (Fogo); Estética e da Alma (Água); Intelectual (Ar) e Física (Terra).
Mas o que se conhece sobre o surgimento da alquimia?
O que se sabe é que a história da alquimia é muito complexa dada a extensão temporal, chegando até nossos dias, e territorial, pois se espalhou por diversas partes do mundo. O que se afirma é que esteve em evidência nos séculos XVI-XVII, quando atingiu seu completo desenvolvimento, graças à contribuição de Paracelso (1493-1541) e seus discípulos. O século XVIII sinaliza o desaparecimento da alquimia, porque seu método de explicação era incompatível com o espírito do Iluminismo e, principalmente, com o despontar da ciência química, no final do século.
A alquimia é uma ciência natural que representa uma tentativa de entendimento de fenômenos materiais de natureza; é um misto da física e da química desses tempos remotos e corresponde à atitude mental consciente daqueles que a estudaram e se concentraram no mistério da natureza, em especial dos fenômenos materiais. Também é princípio de uma ciência empírica” (Von Franz, M. L.)No final do século XIX, no entanto, estudiosos de várias áreas, e principalmente os dedicados ao mundo interior, resgataram o interesse pela alquimia, entre eles, o médico suiço C. G Jung.
“A arte imita a Natureza”, diz um lema alquímico. Assim, o trabalho dos alquimistas implicava acelerar (no laboratório) aquilo que a Natureza levaria anos para favorecer.
De maneira sucinta, há alguns objetivos essenciais na alquimia. E, certamente, o principal objetivo desta Arte exige o percorrer de um itinerário, dependente de algumas qualidades por parte do alquimista – paciência, humildade, estudos e perseverança -, e para produzir a chamada Pedra Filosofal, que seria uma substância derivada da matéria-prima grosseira.
Entretanto, o nobre objetivo dos alquimistas era causar uma profunda transformação na alma e na natureza humana. Mas, este propósito, para o entendimento leigo, permanecia oculto, pois implícito nas fórmulas químicas e simbologias herméticas.
Meu querer, aqui, no entanto, é apenas abordar, e de forma rápida, alguns aspectos da doutrina dos quatro elementos e que permitam alguma(s) divagação(s) sobre a relação entre a Alquimia e nossa vida interior.

Elementum Terrae
A Terra é estabilidade, representada por todas as coisas que nos fornecem nutrição, plenitude e fertilidade. Nossa base, a terra é o terreno sob os nossos pés, a fundação sobre a qual construímos nossa vida. É o centro do nosso sentido comum, nossa sensualidade e nossos sentidos. Por ela, tocamos, saboreamos, vemos e ouvimos com nossos olhos e ouvidos.
A Terra é a mãe da força, a justiça e a lei, a base do mundo físico e o receptáculo do espírito em manifestação. A Terra é verde, é o disco da materialidade, circular, significando o redondo e a plenitude da natureza, o ciclo contínuo da vida. E, como útero acolhedor, propicia a encarnação e concretização de nossas energias vitais e dos valores e ideais abstratos.
Este elemento, relacionado à função psíquica sensação, nos leva a uma pergunta radical : encarno ou expresso a mim mesmo através de ações concretas no mundo? Eu sou confiável, sólido, fidedigno? Quanta terra há em mim? Eu sei o quanto posso ser forte ou minha força de vontade é fraca? Eu tenho respeito pelas leis naturais da terra, ela que provê minha nutrição?
Elementum Aquae
A água são as emoções, sentimentos, sonhos e alimento do coração.
A água refresca, é úmida, fluida, pesada e misteriosa; é o alimento da vida, essencial à vida, posto que todas as coisas emergiram da água, que é considerada o solvente universal.
A água é azul, ela flui com nosso humor, mas pode correr e afogar. A água é o soluço da angústia e a expressão da alegria.
E a terra precisa da água para ser umedecida, fertilizada e frutificar, ou seja, as ações devem levar em conta os sentimentos. Uma ação não deve ser apenas eficaz, mas deve possuir também uma qualidade ética que determina seu valor. Essa valoração é feita pelo sentimento que propicia a qualidade afetiva das ações.
A água é nosso ser astral. Ela forma nossos pensamentos, mas nossos pensamentos podem lhe dar forma. A água é o sussurro secreto de nosso coração, o reflexo gentil do Espírito em manifestação.
A água com seu movimento fluido contorna os obstáculos sem se deter perante eles. Sua persistência e sua maleabilidade são sua força. E é o sentimento desenvolvido que proporciona a dissolução das tensões através do afeto. Por exemplo, um gesto de carinho e compreensão diz mais que mil palavras.
Com relação a este elemento, é importante considerar que um indivíduo com excesso de Água pode se afogar nos próprios sentimentos, ou se tornar excessivamente sensível, mantendo os demais afastados com seus melindres.
Ainda, pode ocorrer um “afogamento no outro”, os casos de relacionamentos simbióticos, nos quais a individualidade perde suas fronteiras, porque dissolvidas pelos estados de fusão e interdependência.
Aqui, pois, despontam algumas questões: estou em contato com minhas emoções? Ou minhas emoções me são estranhas e inexplicáveis, afogando-me? Estou em contato com o coração e seus apelos de afeto?
Elementum Ignis
O fogo é desejo, é a faísca da vida. Brilha no sol. É o princípio da vida. O verão é fogo. É o fogo a vida em movimento.
O fogo trata de energia e entusiasmo; ele constitui a vitalidade da vida.
Este elemento possui algumas principais características: luz (pensamento) e calor (emoções).
Seu princípio regente é o Logos que promove a apreensão clara, lúcida e abrangente, que engloba o conhecimento racional, mas também inclui a avaliação afetiva, sensorial e intuitiva. Logos é a expressão da inspiração que vem do centro regulador interno (Self), o que ativa o insight esclarecedor.
Quando há excesso ou desequilíbrio do elemento fogo, somos dominados pelo calor das paixões e ficamos à mercê de explosões ou inflações. Com isso, nossa força vital se torna dispersa e improdutiva.
Mas também o excesso de fogo pode acentuar a identificação com o aspecto mental. Aqui, então, cabem algumas reflexões: estou identificado em demasia com meu aspecto mental? Sou, e de forma acentuada, racional e crítica? Posso desfrutar do acesso à verdadeira reflexão que me leva à sabedoria, calando meus pensamentos e julgamentos?
Ainda: desejo a vida ardentemente?
Elementum Aeris
Ar é comunicação, movimento, contato e intuição.
O ar é primavera, a inocência e a vibração do princípio de uma nova estação, a crença no próprio destino. O ar toca o brilho do sol e captura o pensamento da vida. Se pudéssemos vê-lo, o ar seria amarelo.
O ar é o brilho do gênio e a inquieta agonia de uma mente atormentada.
O ar não é sólido como a terra, nem fluido como a água, nem ardente como o fogo. E os pensamentos e as palavras não nos pertencem, assim como o ar não está sujeito ao nosso comando.
De outra parte, o ar trata da intuição, cuja função aponta o lidar com as ligações sutis e não palpáveis entre os eventos internos e externos. O princípio que rege essas ligações não é o da causalidade (Newton), mas sim o da sincronicidade (Einstein), o que permite vivências temporais e espaciais fora dos padrões usuais.
O Ar com seu movimento ascencional e a intuição com sua atuação sutil evocam um outro mundo além da realidade concreta. Aqui, estão as portas do universo das ideias platônicas, o mundo dos grandes valores, dos sonhos e do Mistério.
O desequilíbrio relativo ao elemento ar pode gerar excesso de idealismo, fuga na fantasia, medo de enfrentar os desafios cotidianos e, com isso, um não encarnar.
De outro lado, este elemento em desequilíbrio pode também promover a expressão de um moralismo rígido, acentuado pelo descaso ou desinteresse pelo mundo terreno dos instintos.
Cabem, desse modo, algumas perguntas: como se dá minha relação com o mundo da matéria? Sou dispersivo e me sinto à vontade apenas no reino de meus sonhos e fantasias? Ou sou rígido em demasia e valorizo apenas os assuntos do espírito? Nutro uma visão pecaminosa em relação ao meu corpo e meus instintos?
A alquimia trabalha com relações entre microcosmo e microcosmo e sua linguagem, imagética e simbólica, está a serviço de conexões e para que as transformações ocorram. Logo, falar de alquimia (e elementos) é crer na possibilidade de transformação, a transmutação de metais vis em nobres.
O ouro já se achava como germe para os alquimistas, assim como para qualquer um que se dedique à redenção da matéria, segundo o nosso vir-a-ser.
“Espiritualizar o corpo e corporificar o espírito”, outra sentença alquímica, e de acordo com o eterno jogo entre os opostos.
Finalmente, transformar a matéria sem valor em ouro reivindica a prática da meditacio e imaginatio, pois uma existência “examinada” (e vivida) depende de uma relação equilibrada entre o “dentro” e o “fora”. E como este tesouro oculto está dentro de cada um de nós, encontrá-lo só pode acontecer a partir de um diálogo constante entre consciente e inconsciente, sem olvidar o movimento incessante da Roda da Vida.

Um complemento: neste breve escrito, quando me refiro aos quatro elementos, levo em consideração as conexões formuladas por Jung – Terra (função psíquica: Sensação); Água (função psíquica: Sentimento); Fogo (função psíquica: Pensamento); e Ar (função psíquica: Intuição). Contudo, me distancio de Jung, pois acredito que esta Arte, a Alquimia, não englobe apenas “eventos psíquicos”, mas obrigue também um concentrar-se no reino da Natureza, ou seja, aproximo-me, de novo, da ciência antiga e seu singelo aviso de que tudo no Cosmos se interrelaciona. O homem integral depende de um trabalho consigo mesmo, mas sem olvidar o outro, a Natureza e o Mistério, e para encarnar o Ser que pode vir-a-ser.

Cf. Alquimia. Introdução ao Simbolismo e à Psicologia. FRANZ, M,L. SP: Cultrix, 1998 [no meu texto, uso uma referência deste livro].

Saudações e carinhos!
Eugênia Pickina

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

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  1. Verdadeira aula a nos fazer refletir sobre nossos componentes e as conexões que conseguimos (ou não) estabelecer conosco mesm@s e com @ outr@, seja quem for. Obrigada por compartilhar seus conhecimentos impregnados de sabedoria. Abraço de gratidão e carinho. Suzete.

    • Oi Suzete querida. Gratidão pelo seu comentário. E sou eu quem agradece suas incursões por aqui e que sempre acrescentam… E, de forma singela, quis mesmo contribuir com a reflexão de cada um que se interessar por este humilde escrito. Beijos.

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