Maldição de Afrodite

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Conheço algumas mulheres tipo Afrodite.
Sei que, no geral, mulheres orientadas por esta deusa se inclinam a viver no presente imediato. E, capturadas pela experiência sensorial, podem tanto ter o orçamento afetado por compras indevidas como tecer um plano de vida lindo e depois simplesmente abandoná-lo, pois consumidas por uma qualidade peculiar de entusiasmo, cuja intensidade tem a duração de uma faísca.
E me veio à mente uma amiga especial, que me arrancou de um final de semana “normal” ao me ligar e confessar, longamente, parte de seu (novo) complicado relacionamento amoroso.
Eu a chamarei Laura e dividirei com você minhas angústias, ou, talvez, isso funcione como uma forma de “catarse”, pois algumas coisas são difíceis de serem digeridas a sós.
Laura sempre foi levada por “intensos romances”. Desde guria me contava da descoberta de um “novo amor”, quase sempre proibido ou inadequado. E estas proibições não diziam respeito a barreiras étnicas, diferenças culturais, de idade, finanças, nada disso. Quase sempre o homem era alguém “proibido” – e isso porque casado, monge ou homossexual. Comecei a sentir, aos poucos, que a proibição, sim, a fascinava.
Num primeiro instante, e isso há alguns anos, tentei dizer a ela que era preciso, como primeiro passo, abrir mão dessa “fascinação” que não permitia a experiência da profundidade, que impedia qualquer descoberta (real) sobre as dimensões humanas da intimidade e da troca, ou seja, também das imperfeições humanas de seu (suposto) parceiro e, ao mesmo tempo, de si mesma.
Laura nunca me ouviu.
Ano passado, sem embromar, decidi abrir o jogo e lhe contei que ela vive subjugada pela maldição de Afrodite. Ela arregalou os olhos e caiu na risada. Chamei sua atenção e, gentilmente, fazendo uso da minha Démeter, expliquei a ela o quanto lhe causa dor, ou, de forma mais honesta, sofrimento oco, querer amar um homem que inúmeras vezes deixa claro que não quer nada com ela.
Como ela não teve reação significativa e somente murmurou um “ai” anêmico e pouco persuasivo, relembrei o caso de um professor de física, e na verdade um ser humano intransigente e pobre de inteligência emocional, que Laura perseguiu por anos, seguindo-o sem descanso, embora as respostas grosseiras que ele enviava a ela nos raros momentos nos quais eles se cruzavam – elevadores, escadas, estacionamento, parque aos domingos, supermercado, incursões em congressos científicos e que escapavam à sua área de conhecimento…
Um dia, disse a ela: “você vive deprimida, infeliz, mas continua a persegui-lo, convencendo-se de que ele a deseja, apesar de todas as provas contrárias, e resiste a assumir a destrutividade dessa obsessão”.
Sugeri psicoterapia, meditação, roda de mulheres. Aceitou a ioga e descobriu, ainda que por um prazo curto, a meditação. “São passos significativos”, pensei.
Laura finalmente superou o caso. Viajou para Bali, assumiu psicoterapia e me contou que aderiu a um projeto interessante, comprometido com mulheres em situação de risco e violência doméstica.
Mas este final de semana, como disse, ela me ligou. Parecia eufórica e isso me deixou de sobreaviso. “Você está bem?”, perguntei.
“Ai, amiga, eu estou apaixonada”.
Respirei fundo, e busquei como um amigo silencioso o afago da esperança.
Minha amiga despejou com rapidez a novidade e me contou que havia encontrado o grande amor de sua vida. Partilhou os detalhes do encontro, da sintonia imediata, do calor que os unia, ignorando meus apelos de pragmatismo… Então, agi com a força de uma Atenas: “Mas é um amor proibido?”
Laura silenciou. Dizer “não” a si mesma implica lidar com a (própria) suscetibilidade determinada – e determinada a um (novo) curso de sofrimento inútil. “Seria um carma?”, indaguei a mim mesma, e calei meus julgamentos…
Percebi que minha amiga não estava pronta para determinar o curso de sua vida e abrir-se a um relacionamento amoroso válido para, desse modo, arduamente lutar por ele… Arriscar, sim, todas as coisas por amor, mas, sem olvidar o “caso Laura”, desde que ambos estivessem disponíveis ao amor.
Nesta segunda, ao acordar, decidi indicar à minha amiga o livro “As deusas e a mulher – nova psicologia das mulheres” – de Jean Shinoda Bolen.
Podemos ser sempre otimistas em relação ao ser humano – e somos aprendizes de lições comunitárias, mas também de questões muito individuais. Assim, de forma sincera, nutro a terrestre esperança de que Laura consiga exercitar a sua escolha e, livrando-se da maldição de Afrodite, venha a se apaixonar não por um “amor desprezível” (= homem proibido), mas sim por alguém que se sinta também  atraído por ela. E, de forma natural, possa o casal descobrir as dimensões de um relacionamento amoroso e talvez… fecundo.

Saudações e carinhos.
Eugênia Pickina

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

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