Reinventar a si mesmo

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Há pessoas que nunca foram crianças, nasceram já como adultas. E isso não é apenas uma metáfora, pois conheço alguns indivíduos que desde que se entendem por gente se recordam de desvendar mistérios, criar soluções e, de acordo com uma “curiosidade intelectual”, estarem atentos a respeito de tudo.
De outro lado, uma criança, verbal e com mente prática, muitas vezes perde experiências subjetivas que eventualmente pode querer quando adulto, pois mais entretida, durante a infância, com as coisas de “gente sensata”.
Ao contrário desse “modo sensato, às vezes é necessário ao adulto resgatar a criança e colocá-la estarrecida diante de alguma coisa para reinventar a si mesmo, para conseguir reaprender a brincar, rir, chorar e ser confortado, abrindo mão de rótulos velhos e familiares, esquecendo um pouco os arquivos da memória ou as noções preconcebidas sobre os eventos internos e externos. Com isso, adquirir leveza, alegria.Além disso, essas pessoas, que anteciparam para si o fardo da vida adulta, geralmente não perdem a cabeça ou autocontrole. Contudo, tendem a levar uma vida unilateral e, na maioria das vezes, dedicada ao trabalho. Mas esta exclusiva identificação com o racional, com uma seriedade excessiva, desliga o ser humano de toda a cadeia e intensidade da emoção humana…
Assim, uma maneira de adentrar o mundo desta criança esquecida, ignorada no reino da mente prática, pode ser dedicar-se a alguma forma de arte – desenho, aquarela, cerâmica -, porque, na verdade, qualquer expressão implicada com a imaginação oferece um caminho diferente da austera pressão da mente e seus condicionamentos, oferta a possibilidade de um encontro com a criança esquecida, porém presente em nós.
De outro aspecto, recuperar a “infância roubada” pela seriedade precoce pode nos ajudar a focalizar os diversos aspectos de nós mesmos, e não apenas os “velhos sujeitos conhecidos”… E treinar o imaginar, e não somente o julgar, calcular, nos ensina a aceitar que a vida também está repleta de circunstâncias não escolhidas e por isso nem sempre querer manter o controle é um modo coerente de agir. No fundo, há muito mais incertezas, desvios, possibilidades negligenciadas pelo vício da mesmice. As certezas são poucas, quando as buscamos no interior de nossas histórias e caminhos.
Ao contrário, às vezes, a existência nos surpreende com o inesperado e isso exige de nós, em muitos momentos, “soluções” colhidas de uma forma pouco coerente, marcadas por traços de uma alegre curiosidade e por isso distantes de um modo de ser racional e seletivo, muito apropriado à seriedade de um adulto.
E essa “alegre curiosidade”, genuína à criança (que fomos/somos), pode promover o ressignificado de nossa vidas, mantendo-nos acesos, vivos e cientes de que, muitas vezes, “o fim de toda nossa exploração será chegar aonde começamos e termos de conhecer o lugar pela primeira vez” (T. S. Eliot), porque, como crianças, podemos estar diante de uma (nova) aventura…
Saudações e carinho!
Eugênia Pickina

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

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    • Querida, precisamos ousar e reinventar, ainda que as circunstâncias não tenham gestado os inesperados… A alegria não pode ser perdida… Obrigada pelo cometário! Bj.

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