Quem bem ama, bem educa: não bate, não castiga!

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“A forma como fomos tratados quando crianças é a mesma como mais tarde tratamos toda a nossa vida.” Alice Miller

Anos trás, eu me questionava se seria possível curar a extensão da solidão, do abandono e dos sofrimentos causados por uma “pedagogia negra” aos quais fomos expostos quando crianças. Nesse meio tempo, sei que isso é possível, embora complexo e exigente de uma arte continuada de cuidado de si.
E não me refiro a crianças que cresceram de fato abandonadas, e que se tornaram adultas sob a sombra do desamor. Falo da grande quantidade de adultos que me procuram, que possuem uma “imagem reprimida” acerca da própria criança que foram e, por isso, sentem-se desorientadas para educar sua filha, ou seu filho, à medida que seus referenciais sobre os sentimentos de sua própria infância foram nutridos (por seus próprios pais) pela necessidade de controle, manipulação, castigos corporais e pressão por resultados…Educar uma criança exige uma precondição: “é necessidade primordial da criança ser considerada e levada a sério em todos os seus aspectos, desde o nascimento; em ‘todos os seus aspectos’ engloba: os sentimentos, as sensações e suas manifestações e desde recém-nascida” (Alice Miller).
O “levar a sério” a criança substancia criá-la em uma atmosfera de amor, atenção e tolerância aos seus sentimentos. Quando somos tolerantes (e pacientes!), procuramos enxergar a criança para prestar atenção às suas necessidades. Assim, ela, no seu ritmo, poderá romper a dependência característica dos prelúdios da existência e caminhar rumo à autonomia.
Ao contrário, uma educação que se apóia na “pedagogia negra”, sustenta a ideia de que é preciso valer-se dos castigos corporais para “educar a criança”.
Ignoram esses pais que, na realidade, bater nas crianças, ensina-as a bater. No primeiro setênio, as crianças aprendem, principalmente, atitudes e comportamentos pela observação e imitação das ações de seus pais. Logo, é responsabilidade de quem cuida da criança não ser um modelo de tirania, mas sim ser um exemplo de empatia, cooperação e atitudes democráticas.
Por resistência ou ignorância dos pais, muitas vezes, o que chamamos de mau comportamento é apenas a única forma que a criança conhece para expressar que suas necessidades básicas não estão sendo atendidas. É mau e injusto punir uma criança porque ela responde de uma maneira natural à sensação de uma necessidade importante que é negligenciada pelo adulto. Por esta razão, a punição não só é inadequada a longo prazo, mas é certamente nociva.
Além disso, como as crianças aprendem através dos modelos que seus pais representam, o castigo corporal transmite a mensagem de que bater é uma maneira adequada de exprimir seus sentimentos e de resolver os problemas. Se uma criança não tem a oportunidade de ver seus pais resolverem os problemas de maneira criativa e sem violência, segundo critérios claros de uma “democracia emocional”, será complicado para ela aprender a fazer deste modo. Como efeito, quando adulta, poderá reproduzir este tipo de paternidade/maternidade incompetente com as gerações seguintes.
É fato: muitos ainda hoje (!!) educam uma criança de forma rude, intolerante, intercalada por “tapas e beijos”. Ignoram que a criança, um ser dependente, irá reprimir-se para acomodar-se às necessidades dos (maus) pais e se conduzirá ao desenvolvimento de um falso Eu – o verdadeiro Eu não terá oportunidade de se desenvolver e se diferenciar, porque, sem dispor de um “jardim fecundo e gentil”, está impedido de ser experimentado.
Uma educação suave, sustentada por um forte alicerce de amor, atenção e respeito, é a única e verdadeira maneira de obter um comportamento recomendável, baseado em poderosos valores pessoais, em vez de um “aparente filho (a) obediente e bonzinho (a)” e encapsulado unicamente no medo.
Para finalizar, registro aqui um exemplo cotidiano, recente, e que expressa a humilhação da criança e o desrespeito e desamor pelo fraco (segundo os vestígios – embora sutis –  da pedagogia negra):
Há um mês, enquanto passeava, reparei um casal jovem poucos metros à minha frente. Ao lado deles caminhava uma criança, de cerca de dois de idade, que choramingava. O casal tinha acabado de comprar dois muffins e os seguravam prazerosamente. A menina também queria um muffin. Sua mãe lhe disse carinhosamente: “Você pode dar uma mordida no meu, um inteiro é muito para você”. A criança queria segurar o muffin e não somente dar mordida, mas a mãe o tirou do seu alcance. A criança chorou, e a situação se repetiu com o pai: “Aqui está”, falou o pai com carinho, “pode dar uma mordida no meu”. “Não, não”, gritou a criança, e começou a correr, mas sempre voltava e olhava para cima, com um olhar triste e invejoso, para os dois adultos que mordiam seus muffins solidários e sossegados. Um dos pais sempre oferecia uma mordida, e a criança estendia suas mãozinhas em direção ao muffin, mas a mão adulta se encolhia simplesmente.
Quanto mais a criança chorava, mais os pais riam. Riam muito e esperavam “educar” a filha com as risadas: “Preste atenção, isso não é importante e você faz esta confusão e manha”. Em um momento a criança sentou-se no chão, de costas para os pais, mas levantou-se e um profundo suspiro cheio de desapontamento sacudiu seu corpinho magro. Então apenas seguiu obediente atrás dos pais.
Não se deve duvidar que dentro de vinte ou vinte e cinco anos – mais ou menos – esta garotinha vá repetir a história do muffin, mas nessa hora ela será a “dona”, a adulta, a forte, e o outro será o desamparado, fraco, criatura pequenina que ela, finalmente, não precisará mais carregar dentro de si mesma, mas que agora pode alienar e projetar para fora de si – e em direção à sua filha, ou ao seu filho…
Saudações e carinhos!
Eugênia Pickina

Obs. O título deste post é uma contradita a um provérbio infame e ainda transmitido entre gerações: “quem bem ama, bem castiga”, extraído do livro dos Provérbios (Antigo Testamento), e atribuído a Salomão, cujos métodos rudes de disciplina fizeram que seu filho se tornasse um ditador tirânico, opressivo, um ser humano infeliz… Já o Evangelho, o mais importante livro para os cristãos, contém ensinamentos de Jesus que incitam ao não-ferir, ao amor e à reconciliação. Jesus deu visibilidade às crianças e exortou ao amor, e não ao castigo.

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Sobre Eugênia Pickina

Este blog surgiu de uma necessidade criativa, muito ligada ao desejo de partilhar experiências e perguntas, mas algo independente de prazos ou de Krónos. Pertenci, anos atrás, ao mundo acadêmico (professora de Filosofia do Direito). Mas um dia fui capturada pela terapia floral e hoje procuro me dedicar às práticas de educadora e jardinista (gosto de sugerir essências para crianças, mães/pais, e mesmo todo ser humano que precise de cuidados florais... Atendo também projetos sociais implicados com crianças e famílias disfuncionais/em risco. Para finalizar, porque senão isso fica muito longo, adoro literatura e fotografia e tudo que nos impulsione a viver vivos, levando a sério o fato de estarmos aqui para "mais um dia de colégio"...

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