Nossa vida em lugares luminosos

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Somos colocados na vida no elemento a que melhor correspondemos… Não temos motivo para não confiar em nosso mundo, pois ele não está contra nós. Rilke

Propor-se uma vida com significado, longe de ser um exercício de narcisismo, é, na verdade, uma humilde aceitação de que estamos aqui, neste planeta, para servimos também aos propósitos maiores do Mistério, para encarnarmos aquilo que em essência somos convidados a ser.
Assim, nossas raras certezas podem ser afirmadas como algo valioso em vez de uma predisposição ao medo; mas desde que reconheçamos, nos diferentes instantes que compõem nosso cotidiano, nossa ampla capacidade de sentir o apoio de recursos oferecidos a partir do interior, porque a natureza não nos trouxe para cá mal equipados para a jornada…
Assim, podemos abraçar nossos sonhos e nos empenhar a realizar nossa tarefa e que diz respeito ao eu pessoal mais pleno, pois isso é também uma afirmação do próprio Mistério – e foi por ele que estamos autorizados a estar aqui.
Se considerarmos as exigências da vulnerabilidade que portamos desde a infância, bem como os limites do nosso poder com relação a moldar/modificar nosso ambiente, quase sempre subestimamos nossa habilidade de nos relacionar com oportunidades de crescimento e superação, no entanto.
Recordo sempre uma mulher que conheci meses atrás.
M. é uma professora de trinta anos de idade. Ela foi casada por pouco tempo com um homem imaturo quando estava com vinte anos. Muito tempo depois de divorciada, ela criticou sua solidão como uma má companheira diária, embora tenha tido diversos casos rápidos e um relacionamento, com outro homem imaturo, durante alguns anos.
M. alternadamente odeia os homens, odeia a si mesma, e a vida lhe parece uma jaula de ferro na qual está presa por um destino sombrio, condenada a um labirinto de solidão.
M. é filha de uma mãe emocionalmente ferida. Mulher essa que lhe batia gritando que ela, uma menina de quatro anos de idade, era um empecilho na sua vida. Seu pai, passivo e imaturo, estava sempre ocupado tentando juntar dinheiro suficiente para fazer viagens “de aperfeicoamento”e isso para preencher sua existência vazia e mecânica. M. somente conhecera um relacionamento gratificante de conexão, com sua babá, cuja morte quando M. estava no ensino médio foi devastadora para ela.
Mas a experiência de M. com seus pais serviu de modelo de relacionamentos e solidão para ela. E assim, em todos os seus casos amorosos, ela recriava a crueldade/indiferença dos pais e, em consequência, desembocava na fria solidão tão detestada.
Esse modelo distorcido gerou um molde negativo para M. A falta de afirmação e apoio que recebeu quando criança foi assimilada (e armazenada) como um senso diminuído do próprio valor. E isso fazia com que ela escolhesse homens que não podiam apóia-la, por serem excessivamente fracos, como seu pai; além disso, eles logo se cansavam diante de sua necessidade contínua de reafirmação.
Por outro lado, a única relação de afeto positiva que teve quando criança com sua babá, nela sustentou um referencial de crescimento, resultando na necessidade de reconhecer que precisava de ajuda para se sentir bem e contente consigo mesma.
Sempre que me lembro dela [babá], tenho certeza, uma certeza interna, de que sou capaz de caminhar sozinha no mundo, fazer amigos leais, encontrar um homem bacana, mas desde que eu enfrente o medo de me sentir sozinha e sem apoio. Eu preciso de ajuda para conseguir viver bem comigo mesma e ainda assim me achar uma pessoa válida“.
Mas, felizmente, além do terror do abandono e indiferença que moldou o “estilo de vida” de M., a experiência afetiva radical*  com a babá lhe forneceu “pistas” vitais  para que ela soubesse ser capaz de apostar no direito natural a experimentar, amiúde a ferida forjada pelos pais na infância, a riqueza que a vida pede para que ela encarne, pois, no final, “o companheirismo só viceja quando cada indivíduo se lembra de sua individualidade e não se identifica com os outros” (Jung).

*Experiência afetiva radical no sentido de ter sido a relação orientada segundo a necessidade de cuidado e atenção da criança, e não do adulto e suas expectativas e problemáticas.
Saudações e cariños!
Eugênia Pickina

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