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Leitura psicológica

Título: Ao Entardecer

Tema: Envelhecer, Escolhas, Livre-arbítrio

Um filme tocante que reflete a vida, seus acontecimentos, encontros e desencontros, o sentido da vida e de nossas existências.

Quem pode dizer, com certeza, que sempre fez, em determinada situação, a escolha certa ou errada? No momento atual – repleto de incentivos, estímulos e motivação para uma vida feita de escolhas, metas, decisões e alto desempenho –, esse filme, como muitos de seu gênero, questiona essas certezas. Não que não precisemos melhorar nosso desempenho e desenvolver a capacidade de fazer boas escolhas, mas será que podemos atribuir tamanho peso ou gravidade a nossas escolhas? Como viver pesando tudo entre certo e errado ou bom e ruim? Será que todos não desejamos as mesmas coisas, apesar de buscá-las em local e de forma diferente?

Em relação ao filme, quem está certa? A filha que vivia dentro dos padrões usuais de estabilidade profissional, matrimonial e familiar ou a que estava fora desses padrões? Anne, que tinha muitas expectativas na vida e que buscava ser livre para tomar decisões, ou Lila, que, mesmo sem amar, casou-se conforme o movimento e as sequências de acontecimentos de sua vida? Todas as nossas escolhas geram consequências, e é natural que assim seja. Mas como dizer que erramos só por que as consequências são ruins? Será que, de fato, poderíamos ter feito outra escolha? Em caso positivo, será que a teríamos sustentado ou evitado resultados insatisfatórios?

Nossas decisões são tomadas com base em somatório de forças internas e de tendências diversas, que são, muitas vezes, contraditórias. Nossas resoluções, em grande parte, são o resultado da ação da parte interna que mais pesou e tem força em nós. Mesmo querendo fazer a escolha “certa”, pesam, em cada escolha, nossos limites pessoais; crenças sobre a vida, sobre o outro e sobre nós mesmos; experiências pregressas; motivações internas; anseios pessoais; e, ainda, outras forças. Gostaríamos de ter a clareza que nos permitisse optar pelas escolhas perfeitas, e a força que nos permitisse sustentá-las, mas parece que a vida não é assim. Em todas as escolhas, teremos ganhos e perdas. Precisamos nos dar conta de que não há escolhas perfeitas. Portanto, fazer escolhas perfeitas não parece ser parâmetro muito útil. É necessário considerarmos que temos limites pessoais e que nem sempre podemos sustentar a vida com base nas escolhas que fizemos, por melhor que tenhamos escolhido.

Por tudo isso, fica muito difícil dizer que fizemos má escolha ou escolha errada em função de o resultado ter sido diferente do que desejávamos. No filme, a personagem Ann e sua amiga Lila refletem isso. Ann fez escolhas baseada em suas verdades, seguiu essas escolhas durante sua vida e deu o melhor de si. Sua vida foi plena e ela buscou, como pediu a suas filhas, ser feliz. É possível que, no fim da vida, tenha ficado com dúvidas sobre suas escolhas e se ressentido de algumas ações. Talvez na velhice, mais amadurecida pela própria experiência de vida, perceba alguns equívocos em seu discernimento e julgamento e em algumas de suas escolhas. O mesmo aconteceu com Lila. Como Ann, ela também fez escolhas com base em suas verdades e viveu conforme essas escolhas. Deu o melhor de si e sua vida foi, igualmente, plena. A vida de nenhuma das duas foi perfeita, como não o é a de ninguém. Buscamos todos as mesmas coisas: ser feliz e viver em plenitude, e parece que estamos todos a burilar e a aperfeiçoar nosso discernimento. Apesar dos receios, da incerteza e do novo, fazemos sempre escolhas, mesmo ao permanecermos no terreno do velho e do conhecido. O resultado de nossas escolhas dificilmente será perfeito. Mas, mesmo que o resultado não seja o que desejávamos, não significa que erramos, mas que tentamos e fizemos o melhor possível, que somos imperfeitos e que aprendemos na tentativa e no erro, aperfeiçoando o discernimento e a capacidade pessoal.

Outro ponto extremamente importante no filme é a reflexão sobre a culpa. A morte de Buddy muda totalmente a direção da vida de Ann e de Harris, que, presos na culpa, seguem caminhos diferentes dos que pediam seus corações. Se não trabalhamos a culpa, ela pode se tornar tormento e prisão, como no filme e na vida de muita gente. Sem adentrar o campo da Filosofia do Direito, é importante discernirmos o que de fato é nossa responsabilidade e, em cada caso, tomarmos cuidado para não assumir a parte do outro. É comum, nas pessoas muito responsáveis, a tendência à onipotência, a tomar tudo para si. É sempre importante lembrar que, além da sobrecarga que essa atitude gera, tiramos a responsabilidade e o poder pessoal do outro, tornando-o vítima, dependente e incapaz de gerir a própria vida, e passamos a carregar culpas que, muitas vezes, não nos pertencem. É um filme que vale a pena ser visto.

Por Flávio Vervloet

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